Três Franceses...

 

 

Um grande mestre, Théophile Gautier

 

Mário de Andrade, quando escreveu e publicou aquela história de mestres do passado, conferindo esse nobilitante à obra de parnasianos brasileiros, simplesmente não sabia do que estava falando, ou fantasiava um oceano sobre o deserto. O parnasianismo brasileiro não teve mestres, porque todos aqueles poetas já nasceram gagás.

 

Li outro dia uma coisa que Alexei Bueno escreveu, dizendo que no Brasil curiosamente havia triunfado o parnasianismo sobre o simbolismo, de modo que quando o modernismo chegou, ele se opôs aos parnasianos1 e não foi, como em outros países, um desenvolvimento a partir do simbolismo (que na França, se considerarmos a relação de Gautier e Baudelaire, se desenvolveu por sua vez a partir do parnasianismo).

 

É uma tese muito interessante, e explica uma porção de coisas sobre as freqüentes bobagens da poesia e da crítica brasileira. E é uma infelicidade histórica: não há pomadas contra isso. O que não quer dizer que se deva dar livre curso à preguiça de se aceitar o legado tal e qual foi mal e porcamente proposto, por mentes igualmente pesadas, morosas. Mesmo porque eu me pergunto o que não seria do Brasil hoje se a linha seguida, em geral, tivesse sido a de bons poetas2. Mas talvez essa seja apenas uma hipótese mirífica, arte maléfica de Onêiros.

 

De uma maneira mais explícita e objetiva: onde está (ou deveria estar) o cânone da língua portuguesa? Ele não foi revisado, incorporando estruturalmente as modificações pelas quais teria de ter passado a partir do modernismo, como aconteceu na maior parte das tradições literárias do Ocidente. Ou mesmo para corrigir a preguiça que inclui peças apenas famosas ou de curiosidade apenas historiográfica, em claro desfavor de peças fundamentais do ponto de vista de uma educação propriamente literária, ou poética, se se quiser. O pressuposto possível é o de que uma tal educação não interesse para as exigências mecanicistas do nosso mundo burro. É compreensível, sob esse aspecto, et c’est bien dommage.

 

Mas isso nos devolve ao parnasianismo. Bilac, sempre que possível, copiou Gautier; e não copiou o que era sua arte, fixou apenas a mais pronunciada superfície daquela besteira insignificante chamada l’art pour l’art3, apenas transformando as referências estatuárias do poema "L’Art" nas do seu pequeno ourives subtraído de uma citação de Victor Hugo. Entendeu que a única coisa que interessava a Gautier era transformar o verso num bem polido rubim. Ledo engano. Essa também foi a idéia (ou a falta de) de outro príncipe dos poetas, Alberto de Oliveira, autor do famoso e oco besteirol de versos marretados, "Vaso Grego", sem a virtude, por exemplo, dos brilhantes versos de aço batido de Georg Trakl, evidentemente.

 

Gautier escreveu romances (como o ótimo capa-e-espada Le Capitaine Fracasse, de 18634), contos, e, evidentemente, uma extensa obra de poesia. Nela encontramos poemas narrativos escritos com uma técnica única e inovadora, como o "Albertus" (1832); a lírica impecável de Émaux et Camées (1852), que se desenvolve sutilmente, no aspecto visual, em variações sobre a cor branca; e inúmeros exemplos que antecipam, tecnicamente e por suas visões, as Fleurs du Mal, de Baudelaire, que dedicou o livro ao mestre escrevendo assim: "A Théophile Gautier, mago das letras francesas, dedico estas flores doentias". "Mago" não é uma palavra empregada aleatoriamente, e se opõe às tacanhices quadradas do verso d’oiro.

 

Um desses exemplos eu trago aqui para compartilhar com vocês. Se chama "Le Sphinx", e é parte de Poésies Diverses (1833-1838):

 

 

Dans le Jardin Royal où l’on voit les statues,

Une Chimère antique entre toutes me plaît;

Elle pousse en avant deux mamelles pointues,

Dont le marbre veiné semble gonflé de lait.

 

Son visage de femme est le plus beau du monde;

Son col est si charnu que vous l’embrasseriez;

Mais, quand on fait le tour, on voit sa croupe ronde,

On s’aperçoit qu’elle a des griffes à ses pieds.

 

Les jeunes nourrissons qui passent devant elle

Tendent leurs petits bras et veulent avec cris

Coller leur bouche ronde à sa dure mamelle;

Mais, quand ils l’ont touchée, ils reculent surpris,

 

C’est ainsi qu’il en est de toutes nos chimères:

La face en est charmante et le revers bien laid.

Nous leur prenons le sein, mais ces mauvaises mères

N’ont pas pour notre lèvre une goutte de lait.

 

 

 

A ESFINGE

 

No Jardin Royal, das figuras esculpidas

A Quimera antiga me dá maior deleite;

Ela estufa adiante suas mamas erguidas,

Qual se o mármor venoso se enchesse de leite.

 

Sua face de mulher é a mais bela de todas,

Seu pescoço carnudo, você o beijaria;

Mas fazendo-lhe a volta, sob as ancas redondas,

Aparecem nos pés suas garras de harpia.

 

As crianças de colo, passando-lhe em frente,

Lhe estendem os braços, querendo elas mesmas

Colar nas mamas geladas suas bocas tão quentes;

Porém ao tocá-las, se afastam surpresas.

 

É o que sempre acontece com as nossas quimeras:

Têm o rosto charmoso e o reverso inclemente.

Nós beijamos seus seios, mas essas megeras

Não nos pousam no lábio uma gota de leite.5

 

 

O tema poderia estar em qualquer poema romântico, e mesmo em produções de segunda do parnasianismo; a análise inteligente e cuidadosa do paraíso artificial dos sonhos de prazer, no entanto, o coloca de imediato na posição estratégica de receber a dedicatória de um livro como as Flores do Mal, e se diferenciar por exemplo de Leconte de Lisle e Heredia (apenas mais um sontestista caprichoso).

 

Gautier também passa longe de ser um queixoso sentimental como Musset, ou um esforçadíssimo grandiloqüente como Hugo; percebam: passou por sua época sendo, o que é muito provável, o único que não sucumbiu aos defeitos inerentes a ela. Se nada mais pudesse constituir o elogio de sua obra (e sua poesia meticulosa atesta o contrário), apenas isso já o situaria num lugar proeminente.

 

E esse também é o porquê do fracasso estético de algo como o parnasianismo: funcionou para Gautier, porque Gautier era um ótimo poeta e inventou isso. Os outros apenas achavam que sabiam o que estavam fazendo.

 

 

Relendo Verlaine

 

Certos autores, como Rainer Maria Rilke, T. S. Eliot e Paul Verlaine, tiveram o azar de uma recepção inicial bastante equivocada no Brasil. Embora pareçam tão diversos como poetas (e são, de fato), uma coisa os une, e essa coisa pode ser traçada pelo defeito na recepção: são poetas cuidadosos, e há em suas obras certo esmalte de beleza — em Eliot, não exatamente em sua obra inicial cheia de ruídos, com "The Waste Land" e "The Love Song of J. Alfred Prufrock", mas com "The Four Quartets".

 

A recepção brasileira ficou, novamente, na imitação de aspectos muito superficiais desses poetas, que têm a ver com o tal esmalte de beleza, com cacoetes de linguagem de suas obras. Por quê? Porque é muito fácil e tentador copiar o efeito óbvio (principalmente quando dá um verniz "nobre" e "elevado" ao poema), e demanda muito mais sagacidade tentar compreender suas virtudes, ou seus refinamentos, ou mesmo sutilezas, se se quiser, para um aproveitamento que não seja mero ataque de peças de segunda mão.

 

A geração de 45 queria uns paladinos do verso, puros e de armaduras prateadas, mas com certo ar de modernidade que, mesmo no Brasil, em 1945, já constituía algo inevitável. Daí que esses três poetas serviram como álibi da assepsia estilística, representaram os tiques da elevação poética e tiveram muito de sua boa-fama arruinada para as próximas gerações, parecendo uns verdadeiros quadrados de fala mole. E não eram nada disso.

 

Aqui gostaria de falar rapidamente, e em específico, de Paul Verlaine, como o título indica. Seria casual demais imaginarmos que um autor brutal e completo como Rimbaud tivesse encontrado em Verlaine tão somente um dedicado e apaixonado amante: estavam juntos também por uma porção de outras coisas, e Rimbaud certamente apreciava a poesia do autor mais velho (que visivelmente o influenciou no início, diga-se de passagem).

 

A obra poética de Verlaine ultrapassa aquele torneado e cantante verso incomparavelmente musical, como podemos ler num certo poema de Fêtes Galantes, "Colombine":

 

 

Léandre le sot,
Pierrot qui d'un saut
De puce
Franchit le buisson,
Cassandre sous son
Capuce,
 
Arlequin aussi,
Cet aigrefin si
Fantasque,
Aux costumes fous,
Les yeux luisant sous
Son masque,
 
— Do, mi, sol, mi, fa,—
Tout ce monde va,
Rit, chante
Et danse devant
Une frêle enfant
Méchante
 
Dont les yeux pervers
Comme les yeux verts
Des chattes
Gardent ses appas
Et disent :"A bas 
Les pattes !"
 
— Eux, ils vont toujours! —
Fatidique cours
Des astres,
O! dis-moi vers quels
Mornes ou cruels
Désastres
 
L'implacable enfant,
Preste et relevant
Ses jupes,
La rose au chapeau,
Conduit son troupeau

De dupes!6

 

 

 

 

Pierrot, que mané,

Num cabriolé

faz: truz!,

Saltando o moitão;

Cassandro e seu grão

Capuz.

 

E que o Arlequim,

Safado sem fim

— Um traste —,

No traje de louco

Com seu riso oco,

O ataque

 

— Dó, mí, sol, mi, fá —

Tudo vão tentar:

Valsinha

E piada malina

Pra bela menina

Mesquinha

 

De olhos perversos

Dos verdes secretos

Das gatas.

Sossega seus fachos,

Dizendo: "Abaixo

As patas!"

 

— E caem de bruços! —

Fatídico curso

Dos astros:

Então diga por qual

Suave ou mortal

Nefasto

 

A esquiva donzela

— que já nos revela as

pernas —

De flor no chapéu

Conduz seu tropel de

palermas?7

 

 

que, se o leitor tentou ler em voz alta (o original ou a minha tradução), terá percebido que é impossível fazê-lo sem cantarolar; que a letra seja só uma delicada fantasia, é verdade: nada mais do que o velho triângulo amoroso veneziano das máscaras de Arlequim, Colombina e Pierrot; Rimbaud até escreveu uma paródia hilariante no Album Zutique ("Fête Galante", que começa: "Rêveur, Scapin/ Grette un lapin/ Sous son capote") com enredo masturbatório8.

 

Considerando de um jeito superficial, e de um ponto de vista estritamente moderno e hiper-irônico, seria apenas isso. No desenho geral das Fêtes Galantes, no entanto, descobre-se como um tipo de poesia perfeita e mágica — e é quase uma pequena obra-prima, o livro. É, no entanto — e sou o primeiro a reconhecer — muito difícil achar hoje quem saiba apreciar isso, como a parte boa, inteligente e delicada, da obra da Marquesa de Alorna, que exige a atenção de um iniciado. Como escreveu Paul Veyne em A Elegia Erótica Romana9: "a poesia que amamos é um álcool forte, e isto é assim há dois séculos." Mais adiante: "A estética moderna é uma estética da intensidade; os poetas que apreciamos são aqueles que teriam podido dizer a si mesmos, como (René) Char após sua travessia do surrealismo: "Jantaste fermento."" Estamos no esquema mental das largas pinceladas (põe larga nisso) para os olhos de todos e não no do detalhe artificioso para os do atento.

 

Mas o triunfo musical de Verlaine aqui não é do tipo negligenciável (o tipo dispensável é como o dos dissílabos primários de Casimiro de Abreu em "A Valsa", sendo "infantil" a palavra-chave para a poesia besta de Abreu), como o próprio leitor terá percebido, mesmo que não esteja acostumado com questões de métrica, rima, estrofação. A sintaxe enovelada e distendida, o serpenteante equilíbrio métrico e rítmico dos versos de 5 e 2 sílabas, e mesmo a vaga narrativa que termina em humor agridoce testemunham que se trata de um poema, no mínimo, muito interessante.

 

Não obstante, se você folhear os dois volumes de Andrade Muricy, Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro (Perspectiva), onde Muricy compilou um valioso thesaurus de poesia simbolista brasileira (e onde não raro encontramos gente magnífica ignorada pela história literária, como de costume) perceberá que o Verlaine dos versejadores brasileiros é apenas uma mistura de luar, melancolia — aliás, nada tinha de verdadeira melancolia; era mais aquilo que vulgarmente se chama frescura — e clichês outonais. Fora os que tentaram, impiedosamente e sem sucesso copiar o muy famoso "Chanson de l’Automne". Há pelo menos uma dúzia de esforços malogrados. "A repetição na História" (Karl Marx), etc.

 

Só que o mais importante aspecto da obra poética de Verlaine, além de seus dotes musicais únicos, está num uso flexível, amplo e preciso da língua francesa em poemas que, além de não envelhecerem e trazerem em si a base para a obra inicial de Rimbaud (ou mesmo por causa dessas coisas) denotam avant la lettre uma percepção visual objetiva, no novo registro moderno. Verlaine é extremamente objetivo em suas breves e decididas descrições, assim como é capaz de selecionar com precisão o dado importante a ressaltar. Ele tem esse "olho clínico" poético, como lemos em um verso célebre do célebre "Clair de Lune", que abre as Fêtes Galantes: les grands jets d’eau sveltes parmi le marbre.

 

 

O bizarro prefácio em versos de Corbière

 

PARADE

(oubliée)

 

Place S.V.P. Provinciaux
de Paris & Parisiens de
Carcassone!  

Et toi, va mon livre —
Qu' une femme te corne,

Qu' un fesse-cahier te
fesse, qu' un malade
te sourie!  

Reste pire —

tes moyens te le permettent.
            Dis à ceux  

du métier que tu es un
monstre d' artiste...
Pour les autres, 7 f 50.

Va mon livre & ne
me reviens plus.
10

 

 

 

PARADA11

(esquecida)

 

Claro, a praça dos Provinciânus

de Paris & Parisiasnos de

Carcassonne!

 Vai, meu Livro: que

Uma cona te detone,

Que um cu-de-ferro te

ferre, que um doente

te sorria!

 E não chia —

és mais duro que um serrote.

Aos do metiê

dizer que és bravo,

monstro de artista...

Pros outros: 7f. 50.12

Vai, meu livro & vê

se some da minha vista.

 

 

 

Corbière escreveu esse poema na sua cópia de Les Amours Jaunes, um livro de grande importância, que teve de esperar pela antologia Les Poètes Maudits, de Verlaine, e pela inteligência de Pound e Eliot para começar a ser lido13.

 

Poema polimétrico, sincopado e com rimas bem malandras (ele rima, por exemplo, "Carcassonne/corne", "fesse-cahier te/ permettent), com o qual tomei várias liberdades. É muito interessante notar que muda aquele velho esquema da peça de abertura, que se dirige diretamente ao livro ou ao poema (cf. Catulo, Guido Cavalcanti, Edmund Waller, etc.), para uma situação de paródia, que caía tão bem a Corbière, autor daquela famosa paródia ao soneto, chamada "I SONNET, avec la manière de s’en servir"; que, aliás, podemos encontrar nas duas ótimas traduções de partes da obra de Corbière, feitas por Augusto de Campos (Verso, Reverso, Controverso, da Perspectiva) e Marcos Siscar (Os Amores Amarelos, da Iluminuras), às quais enfaticamente encomendo o gentil leitor e a gentil leitora.

 

Corbière desfilava a persona anti-social — digo isso a despeito do que de fato fosse em vida, porque sobrevivem, é claro, seus textos. Mas o que nos oferece, nos estertores do vagamente apelidado simbolismo, é uma nova faceta da poesia, a que adota procedimentos radicalmente idiossincráticos. Detalhe: não o faz abandonando a poética anterior, sabiamente, mas mistura os registros, recompõe as idéias de estrofe, rima, ritmo, e mesmo a sintaxe, fazendo que esteja tão próximo de Villon quanto dos poetas mais inovadores do século XX (Pound imitaria, em Lustra, de 1916, esse tipo de poema).

 

Esse último parágrafo contém uma pequena lição dentro dele. Mas acho que é bem óbvia, e seria ocioso discorrer sobre ela em mais outro parágrafo.

(Agradeço a Alfredo Fressia pela preciosa leitura das minhas traduções do francês nesta página).

 

 

... E Dois Ingleses

 

A vida tão curta, para Chaucer

 

Geoffrey Chaucer (13??-1400) é mais conhecido, no piccolo mondo da poesia, pelos Canterbury Tales, os contos em verso que os peregrinos se dirigindo à abadia da Cantuária contam uns para os outros durante a viagem, esquema inspirado no Decameron de Boccaccio, mas que também devia à Divina Comédia, às Metamorfoses e aos poemas narrativos franceses. O próprio Chaucer chegou a traduzir uma parte de Le Romaunt de la Rose, assim como o De Consolatione Philosophiae, de Boécio.

 

Portanto, além de conhecer as tradições de verso e prosa do continente europeu, era um finíssimo observador de detalhes que revelam a personalidade de um personagem — como a freira que limpava bem os lábios ao comer, de forma que não engordurava a beirada do copo em que bebia, como se diz no prólogo ao "Nun’s Tale" — , e o crítico italiano Mario Praz o aproximava, por essa característica, dos preciosos miniaturistas flamengos, numa comparação entre as artes. E, como todo grande poeta, não possuía apenas um vasto conhecimento de arte poética, mas de várias outras coisas, como: leis, medicina, ornitologia, alquimia, astronomia, etc., distribuídas com notável naturalidade por seus poemas. Era o conhecimento de um leigo nesses assuntos, mas nada negligenciável.

 

A poesia de Chaucer é muito diversificada: narrativa, às vezes incrivelmente conversacional, cheia de versos que são verdadeiras pérolas da escrita poética, e sem jamais padecer do ranço de coisa afetada ou acadêmica; sua voz é sempre uma voz que pactua com o leitor, naquela captatio benevolentia de se propor como alguém simples, e mesmo seu onívoro interesse em livros é apresentado como um gosto, quase um hobby, como veremos no trecho do prólogo ao Parlamento das Aves.

 

É neste fragmento que encontramos aquele verso inicial que encantou Jorge Luís Borges, que sobre ele escreveu:

 

 

Chaucer, por exemplo, traduzia muito livremente; o árido aforisma hipocrático Ars longa, vita brevis lhe inspirou aquela música melancólica:

                                          

The lyf so short, the craft so long to lerne14



verso que desdobra e amplia a frase latina musicalmente. O prólogo é uma indagação a respeito do amor, que o nosso narrador diz desconhecer fora dos livros, e confessa mesmo — de modo humorístico e melancólico — temer por conta de sua terrível fama.

 

 

The Parlement of Foulys

(prologue)

 

The lyf so short, the craft so long to lerne,
Th' assay so hard, so sharp the conquerynge,
The dredful joye alwey that slit so yerne:
Al this mene I by Love, that my felynge
Astonyeth with his wonderful werkynge
So sore, iwis, that whan I on hym thynke
Nat wot I wel wher that I flete or synke.
For al be that I knowe nat Love in dede,
Ne wot how that he quiteth folk here hyre,
Yit happeth me ful ofte in bokes reede
Of his myrakles and his crewel yre.
There rede I wel he wol be lord and syre;
I dar nat seyn, his strokes been so sore,
But " God save swich a lord! ": I can na
moore.
Of usage — what for lust and what for lore —
On bokes rede I ofte, as I yow tolde.
But wherfore that I speke al this? Nat yoore
Agon it happede me for to beholde
Upon a bok, was write with lettres olde,
And therupon, a certeyn thing to lerne,
The longe day ful faste I redde and yerne.

 

 

 

O Parlamento das Aves

(prólogo)

 

A vida tão curta, a arte tão longa de haver,

O ensaio tão duro, a vitória tão vã,

Tão árduo alcançar o tão breve prazer:

Almejo com isso o Amor, e eis um afã

Que me assoma em toda sua força malsã,

Pois já nem sei mais com’ hei de  pensar,

Se flutuo em suas águas ou vou afundar.

Pois nada ‘inda deu-me Amor como fato,

Nem sei como paga àqueles que’mprega,

Mas seus milagres de cruel insensato

Leio nos livros e é tudo o que prega.

Leio eu lá que chama senhor a ninguém;

Não ouso dizê-lo, seus golpes me ferem,

"Salve Deus tal senhor" : e como quiserem.

E sim — que seja por ganho ou por gosto —

De livros me farto, como lhes disse.

Mas de onde retiro o que agora é proposto?

Pois ocorreu-me de novo que visse

Um livro em que a letra acusa a velhice;

Dele me enleva uma coisa a saber,

E vai o longo dia a ler e a arder.

 

 

Lord Rochester, o libertino

 

Vimos Rochester en passant quando lemos aquela engraçadíssima epístola de Voltaire, meses atrás. Agora o conde deve estar mais popular, já que Johnny Depp o personificou no cinema15(o que lhe é extrema lisonja, considerando a cara mole e sem graça que nos apresenta o seu retrato na National Gallery, em Londres).

 

John Wilmot, segundo conde de Rochester (1647-1680), foi um homem muito detestado por vários motivos, pessoiais e literários, e cuja reputação poética permanece publicamente dúbia por duas tolices críticas:

 

a) alguns consideram que ele era um revolucionário, por conta do monte de versos pornográficos e irreverentes, um caso parecido com o dos enganos na leitura de Gregório de Mattos, nesse particular (ler A Sátira e o Engenho, de João Adolfo Hansen);

 

b) outros o consideram um conservador, alegando que na mesma época John Dryden (a quem Rochester repudiava), tido por comportado do ponto de vista verbal, seria muito mais revolucionário formalmente.

 

São dois equívocos, porque a questão não é se Rochester era um revolucionário ou um conservador — no fundo, um tipo de discussão meio inócuo e anacrônico —, mas porque seus poemas são uma leitura mais viva do que a obra autoral de Pope16 ou Dryden. Ou por que interessou a Voltaire nos seguintes termos:

 

 

Todos conhecem a reputação do conde de Rochester. O Sr. de Saint-Évremond falou muito dela, mas só nos deu a conhecer o homem do prazer, o felizardo. De minha parte, gostaria de mostrar o homem de gênio e o grande poeta. Entre outras obras onde brilha a imaginação ardente que só ele possui, também escreveu algumas sátiras sobre os mesmos assuntos que nosso célebre Despréaux.17

 

 

"Nosso célebre Despréaux" é Nicolas Boileau-Despréaux, o famoso Boileau da "Art Poétique", e Voltaire já está assinalando que a "Satyr Against Men", de Rochester (de que leremos um trecho adiante), por exemplo, tem a ver com a "Satire VIII, Sur L’Homme", que nos diz o seguinte em certo trecho:

 

 

De tous les animaux qui s'élèvent dans l'air,

Qui marchent sur la terre, ou nagent dans la mer,

De Paris au Pérou, du Japon jusqu'à Rome,

Le plus sot animal, à mon avis, c'est l'homme.

Quoi! dira-t-on d'abord, un ver, une fourmi,

Un insecte rampant qui ne vit qu'à demi,

Un taureau qui rumine, une chèvre qui broute,

Ont l’esprit mieux tourné que n’a l'homme ? Oui sans doute.

Ce discours te surprend, docteur, je l'aperçois.

L’homme de la nature est le chef et le roi :

Bois, prés, champs, animaux, tout est pour son usage,

Et lui seul a, dis-tu, la raison en partage.

Il est vrai de tout temps, la raison fut son lot

Mais de là je conclus que l'homme est le plus sot.

 

 

 

 

De todos os animais que se elevam no ar,

Que caminham sobre a terra ou nadam no mar,

de Paris ao Peru, do Japão a Roma,

O mais tolo animal, que eu saiba, é o homem.

O quê! dirá então que um verme, uma formiga,

Um inseto rasteiro que tem uma semi-vida,

Um boi que rumina, uma cabra que pasta

Têm um espírito melhor acabado que o homem? Sim, sem dúvida.

Esse discurso te surpreende, doutor, eu percebo.

O homem é da natureza o chefe e o rei:

Bosques, prados, campos, animais, tudo lhe serve ao uso,

E só ele tem, você diz, a posse da razão.

É a verdade verdadeira, a razão foi a seu parte,

Mas daí concluo, o homem é o mas tolo.

 

 

Tematicamente, de fato, a mesma coisa do poema de Rochester; no entanto, mesmo Voltaire já notava que tanto a força quanto a imaginação dos versos do conde inglês traziam nova vida para o tema: chamava a isso "licença impetuosa" da língua inglesa e comentava que "essas idéias são expressas com energia por um grande poeta".

 

Boileau e Rochester, pode-se dizer, são horacianos até certo ponto, na concepção da sátira, de onde vêm, inclusive, alguns pedaços. Consideremos, no caso, a Sátira III, Livro II, de Horácio, a do estóico que lhe vai incomodar com as idéias do filósofo Estertínio sobre serem todos os homens uns loucos. A tradução do trecho do discurso de Estertínio que segue é de António Luís Seabra:

 

 

— Qual em cerrado bosque

Viajante imperito a cada passo

Da verdadeira senda se extravia,

E qual toma à direita, e qual à esquerda,

Perdendo-se ambos por diversas partes;

Assim posto, que insano te acreditas

Nem por isso é mais sábio o que te apupa:

Também seu rabo leva.

                                  

etc.

 

 

E Harold Love vê o lado horaciano de Rochester como "conservative", já que ele o utilizou em ataque a Dryden. Mas hoje se lê a crítica de Dryden, suas idéias sobre tradução, e não sua poesia.

 

Em todo caso, na "Satyr Against Men" o homem não é mais apenas o simples "sot" tipificado que Boileau propõe: a idéia é matizada logo de início, quando Rochester escreve que o homem é uma "strange, prodigious creature", ou nas etapas que demonstram como a razão é superestimada, capaz de justificar qualquer coisa. A combinação da pequena narrativa figurada com a grande variedade de comparações velozes nos apresentam um poeta que fez fama pela aparente "facilidade" com que escrevia ótimos versos, mas parece fácil e genial justamente pela habilidade de costurar o artesanato de seu verso linguisticamente claro, sua imaginação abundante e seu wit peculiar, o engenho de ironia infinitamente mais refinado e desenvolto que o de Boileau, plano, sem gradações, e de passo pesado.

 

Foi isso também que credenciou Rochester perante Ezra Pound. Se a cultura inglesa do século XVII e XVIII, no aspecto pragmático da ciência e no estilo vivo e veloz de uma poesia crítica e satírica, havia sido determinante para o surgimento da obra de Voltaire como a conhecemos, esses valores não passaram despercebidos quando Pound resolveu estabelecer o seu paideuma, impedindo que as hipóteses da vanguarda se fundassem apenas numa bem idiota terraplanagem do território da cultura (como queria Marinetti).

 

Pound escreve no ABC of Reading uma coisa muito interessante sobre a leitura dos poemas de Rochester, comparada à de seus contemporâneos: "Rochester está livre de anseios sociais específicos, e seu olho brilha sobre a eterna estupidez, que persiste após o problema do lazer ter se resolvido"18. Isso desloca Rochester de coisas muito datadas e faz com que localize núcleos de interesse perene. Daí a designação de libertinos, como ele e Dorset receberam: hábitos "dissolutos" e cinismo existencial, o que normalmente aproxima as pessoas civilizadas de todos os tempos.

 

Antes de passarmos à tradução, deixo à leitora e ao leitor uma possibilidade de leitura comparativa, talvez interessante. Por tudo o que se disse de Rochester fica mais ou menos claro, eu suponho, que deve ser muito difícil ou quase impossível encontrar coisa parecida em português. É, não é muito simples. Mas há.

 

Um poeta mais ou menos deixado de lado em antologias e razoavelmente obscuro — como, aliás, é de praxe acontecer: não obstante a qualidade notável de vários de seus poemas —, o "Marcial de Alenquer", o português Dom Tomás de Noronha (?-1651; portanto, antecessor cronológico de Rochester), pode se aproximar para uma leitura proveitosa dos dois. Noronha descendia da alta nobreza de Portugal e viveu durante o período da anexação da coroa portuguesa à da Espanha. Seus poemas constam do volume V da coletânea Fénix Renascida e de um diminuto volume surgido muito mais tarde, 1899, em edição de Mendes dos Remédios. Poemas satíricos e pornográficos, muitos foram censurados e diz-se que até hoje há versos seus apenas em velhos manuscritos.

 

Recomendo dois poemas encontráveis por aí. Um deles chama-se "Do Gosto dos namorados", e dificilmente se vai encontrar outro poema erótico em português no século XVII escrito com tanto engenho e franqueza, e sem descambar para a piada ou o grotesco; e o virulento soneto "A muitos temores no porto com medo de uma nau de holandeses".

Vamos agora à "Satyr against Men", de Rochester.

 

 

A Satyr against Man

 

 

Were I (who to my cost already am

One of those strange, prodigious Creatures, Man)

A Spirit free to choose, for my own share,

What Case of Flesh and Blood I pleased to wear,

I'd be a Dog, a Monkey, or a Bear,                                              5

Or anything but that vain animal

Who is so proud of being rational.

The senses are too gross, and he'll contrive

A Sixth, to contradict the other Five,

And before certain instinct, will prefer                                         10

Reason, which Fifty times for one does err;

Reason, an ignis fatuus in the Mind,

Which, leaving light of Nature, sense, behind,

Pathless and dangerous wandering ways it takes

Through error's Fenny-Boggs and Thorny Brakes;                          15

Whilst the misguided follower climbs with pain

Mountains of Whimseys, heaped in his own Brain;

Stumbling from thought to thought, falls headlong down

Into doubt's boundless Sea, where, like to drown,

Books bear him up a while, and make him try                                20

To swim with Bladders of Philosophy;

In hopes still to'ertake th' escaping light,—

The Vapour dances in his dazled sight

Till, spent, it leaves him to eternal Night.

Then Old Age and experience, hand in hand,                                  25

Lead him to death, and make him understand,

After a search so painful and so long,

That all his Life he has been in the wrong.

Huddled in dirt, the reas’ning Engine lies,

Who was so proud, so witty, and so wise.                                     30

Pride drew him in, as Cheats their Bubbles catch,

And made him venture to be made a wretch.

His wisdom did his happiness destroy,

Aiming to know that World he should enjoy.

And Wit was his vain, frivolous pretence                                        35

Of pleasing others at his own expense.19

 

 

 

 

Satyra contra o Homem

 

Fosse eu (e sei que mereço tal nome,

Criatura ímpar, anômala: o Homem)

Um ‘spírito livre para escolher

Em qual caixa de Carne & Osso viver,

Seria um Macaco, um Urso ou um Chacal,                                        5

Tudo menos o vaidoso animal

Tão orgulhoso de ser racional.

Deplora os sentidos: busca com afinco

Um Sexto, que contradiga os seus Cinco;

E impedindo um impulso eis que se encerra                                       10

Na Razão, que em 50 pra 1, erra;

Um ignis fatuus da mente, a Razão,

Que a luz Natural do sentido em vão

Desleixa, seguindo as sendas sinistras

No Brejo do erro com ‘Spinhos à vista;                                             15

Enquanto o errante escala e se fere

Besteira aos Montes seu Cérebro aufere;

Tropeça de idéia a idéia e tomba

No Mar de dúvidas, onde, na onda,

Agarra-se aos livros: tente a alegria                                                20

Durar nas Bóias da Filosofia;

Espera fixar os fiapos de luz:

Mas embaça ao Vapor, mal se conduz,

E então já é Noite, onde nada reluz.

A Velhice e a experiência se abraçam                                               25

Com ele na morte, e nisso repassam

Sua busca tão longa e tão desastrada

Que fez da Vida uma bela enrascada.

Podre de sujo, eis o Engenho da idéia:

Era pose, prosa, até panacéia.                                                        30

Orgulho o engoliu, assim como Bollhas

Engole a Traíra, e acabou sem escolha.

O saber destruiu o seu bem-estar:

Pensava, quando devia gozar.

E o frívolo Engenho era só isto aqui:                                                 35

Graça pros outros às custas de si.

 

 

 

 

agosto, 2006

 

 

 

(A imagem que ilustra este artigo foi trabalhada a partir de outras colhidas na internet e alusivas aos poetas mencionados no texto. Artistas: nadar, antonio dela gandara e illustrated magazine of art.)

 

 

 

 

 

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