©robert diScalfani
 
 
 
 
 
 
 
 

Ele morreu em 1994, aos 73 anos. Imobilizado na larga poltrona que ocupava quase metade da humilde sala em sua casa de subúrbio, nos últimos momentos emitia apenas um som gutural para indicar as mais diversas necessidades. As mãos longas, com dedos achatados que o tempo cuidara de encurvar, pouco gesticulavam. Os olhos tornaram-se cinzentos, cobertos de névoa, quase ocultando as pupilas. Pela boca entreaberta, a respiração rumorejante e sufocada parecia prestes a cessar.

 

Uma dedicada vizinha transpunha o portãozinho existente no muro que separava as casas e vinha alimentá-lo, fazer-lhe companhia, limpá-lo e trocar os lençóis de solteiro que ele utilizava como fraldas. Sentada ao seu lado, lendo em voz alta uma revista, ela enxugava a linha de saliva que, escorrendo da boca entreaberta, disseminava-se no pescoço repleto de rugas.

 

Em que pensaria Syd Dernley nos momentos de súbita consciência, ao erguer os olhos embaçados para o teto e encostar a cabeça ao forro puído da poltrona?

 

Na verdade, não se tratavam de pensamentos, mas somente de vagas sensações. Não havia mais espaço, no corpo destruído, para qualquer espécie de raciocínio. Apenas renascia-lhe a sensação de liberdade e audácia, acompanhada de perturbadora leveza, que pudera experimentar em diversas oportunidades. Na verdade, exatas vinte e cinco vezes. Essas impressões nasciam sempre que seu corpo transfigurava-se em um pêndulo, adquirindo o movimento circular do peso que, solto na atmosfera, sustentado por um cabo, obedece à lei da gravidade, que o faz buscar seu próprio centro, até equilibrar-se em tranqüila harmonia com o vazio que o circunda, quase imóvel, pois ainda balança um pouco, movido levemente pela brisa. Mas, às vezes, absorto no dever de cumprir a tarefa terrível, experimentava somente a grata impressão de flanar.

 

Seriam assim as últimas semanas de Dernley, com o laço que o prendia à vida lutando para estender-se infinitamente, numa prorrogação do estertor. E, nos momentos em que a memória do corpo recuperava a impressão de levitar, um delicado movimento das mãos poderia ser notado, como se a doença encurvasse mais os membros retorcidos.

 

Não, o pobre Syd já não lembrava de seu mestre, Albert Pierrepoint, que nos primeiros anos de sua carreira ensinou-lhe todas as técnicas. Um notável mestre, sem dúvida, que ele soube superar em eficácia e velocidade, tornando-se o profissional mais ágil de todo o Reino Unido.

 

Outros alunos de Pierrepoint, se procurados, afirmariam que a principal lição do mestre — talvez a única lição — concentrava-se no salto. Tudo se resumia naquele momento, no qual a extrema lepidez era imprescindível. Treinar o salto centenas de vezes, todos os dias — nisso consistia o treinamento básico. O resto, apenas detalhes.

 

Para surpresa geral, Syd, apesar de ser um dos mais pesados, revelou-se o de melhor reflexo, a mais perfeita investida.

 

Foram vários anos de serviços prestados a Sua Majestade, durante os quais, por vinte e cinco vezes, ele assombrou os espectadores — dentre os quais, em nove ocasiões, estiveram presentes herdeiros do trono, cujas tendências sádicas eram repetidamente noticiadas por um tablóide londrino —, demonstrando habilidade inigualável, comprovada pelos fugazes sete segundos que permeavam o salto e a morte.

 

Sete segundos para acelerar a morte do condenado. Os cronômetros eram disparados assim que o alçapão se abria, lançando o corpo, amarrado pelo pescoço, no vazio. Imediatamente, num salto espetacular, Syd se agarrava ao desgraçado para, com seu peso, abreviar a agonia. Desempenhar sua função era agir movido por um sincero humanitarismo, mas, intimamente, ele se dispunha à tarefa ansiando também sorver, num breve delírio, a renovada sensação de balançar no vazio, como se retornasse ao brinquedo existente no parque que freqüentara quando menino.

 

Sob os olhares das testemunhas e das autoridades perfiladas no pátio da prisão, agarrou-se vinte e cinco vezes ao trabalho — na verdade, algo que ele encarava como uma missão —, abraçando o corpo dos condenados em um derradeiro gesto de solidariedade.

 

Um velho álbum de família, no qual as últimas gerações guardaram imagens sugestivas, foi descoberto, após a morte de Syd, por sua vizinha. Folheando as páginas desbotadas, ela encontrou dezenas de recortes de jornais, onde o nome do homem que ajudara em seus últimos dias figurava sublinhado. Embrulhou-o com carinho, certa de ter em suas mãos relatos da vida de um homem cuja história pessoal se confundia com a opulência do Império Britânico, e o entregou ao pároco do bairro, a quem relatou os últimos dias de seu vizinho, esquálido, tendo as extremidades do corpo deterioradas pela falta de circulação. E construindo, em sua simplicidade, sem a consciência de fazê-lo, uma analogia que talvez revelasse a derradeira aspiração daquele que foi o último carrasco britânico, afirmou que, ao retirar o corpo de Syd da poltrona, sentiu um peso imperceptível, algo semelhante a um tecido levíssimo, um pedaço de tule ou o fragmento de certo véu inconsistente. Com certeza, não foram esses os termos exatos da pobre mulher. Mas, para ela, também próxima de morrer, o corpo de Syd Dernley poderia ser levado de seus braços pela brisa mais suave ou pela débil centelha de luz que, naquela tarde de inverno, iluminou por um segundo o assento manchado da poltrona.

 

 

 

 

Rodrigo Gurgel é escritor e editor. Escreve resenhas críticas para o Rascunho e é cronista do jornal Bom Dia Jundiaí. Edita o blogue Rodrigo Gurgel.
 
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