Ele
morreu em 1994, aos 73 anos. Imobilizado na larga poltrona que ocupava
quase metade da humilde sala em sua casa de subúrbio, nos últimos
momentos emitia apenas um som gutural para indicar as mais diversas
necessidades. As mãos longas, com dedos achatados que o tempo cuidara de
encurvar, pouco gesticulavam. Os olhos tornaram-se cinzentos, cobertos
de névoa, quase ocultando as pupilas. Pela boca entreaberta, a
respiração rumorejante e sufocada parecia prestes a
cessar.
Uma
dedicada vizinha transpunha o portãozinho existente no muro que separava
as casas e vinha alimentá-lo, fazer-lhe companhia, limpá-lo e trocar os
lençóis de solteiro que ele utilizava como fraldas. Sentada ao seu lado,
lendo em voz alta uma revista, ela enxugava a linha de saliva que,
escorrendo da boca entreaberta, disseminava-se no pescoço repleto de
rugas.
Em
que pensaria Syd Dernley nos momentos de súbita consciência, ao erguer
os olhos embaçados para o teto e encostar a cabeça ao forro puído da
poltrona?
Na
verdade, não se tratavam de pensamentos, mas somente de vagas sensações.
Não havia mais espaço, no corpo destruído, para qualquer espécie de
raciocínio. Apenas renascia-lhe a sensação de liberdade e audácia,
acompanhada de perturbadora leveza, que pudera experimentar em diversas
oportunidades. Na verdade, exatas vinte e cinco vezes. Essas impressões
nasciam sempre que seu corpo transfigurava-se em um pêndulo, adquirindo
o movimento circular do peso que, solto na atmosfera, sustentado por um
cabo, obedece à lei da gravidade, que o faz buscar seu próprio centro,
até equilibrar-se em tranqüila harmonia com o vazio que o circunda,
quase imóvel, pois ainda balança um pouco, movido levemente pela brisa.
Mas, às vezes, absorto no dever de cumprir a tarefa terrível,
experimentava somente a grata impressão de flanar.
Seriam
assim as últimas semanas de Dernley, com o laço que o prendia à vida
lutando para estender-se infinitamente, numa prorrogação do estertor. E,
nos momentos em que a memória do corpo recuperava a impressão de
levitar, um delicado movimento das mãos poderia ser notado, como se a
doença encurvasse mais os membros retorcidos.
Não,
o pobre Syd já não lembrava de seu mestre, Albert Pierrepoint, que nos
primeiros anos de sua carreira ensinou-lhe todas as técnicas. Um notável
mestre, sem dúvida, que ele soube superar em eficácia e velocidade,
tornando-se o profissional mais ágil de todo o Reino
Unido.
Outros
alunos de Pierrepoint, se procurados, afirmariam que a principal lição
do mestre — talvez a única lição — concentrava-se no salto.
Tudo se resumia naquele momento, no qual a extrema lepidez era
imprescindível. Treinar o salto centenas de vezes, todos os dias —
nisso consistia o treinamento básico. O resto, apenas
detalhes.
Para
surpresa geral, Syd, apesar de ser um dos mais pesados, revelou-se o de
melhor reflexo, a mais perfeita investida.
Foram
vários anos de serviços prestados a Sua Majestade, durante os quais, por
vinte e cinco vezes, ele assombrou os espectadores — dentre os
quais, em nove ocasiões, estiveram presentes herdeiros do trono, cujas
tendências sádicas eram repetidamente noticiadas por um tablóide
londrino —, demonstrando habilidade inigualável, comprovada pelos
fugazes sete segundos que permeavam o salto e a
morte.
Sete
segundos para acelerar a morte do condenado. Os cronômetros eram
disparados assim que o alçapão se abria, lançando o corpo, amarrado pelo
pescoço, no vazio. Imediatamente, num salto espetacular, Syd se agarrava
ao desgraçado para, com seu peso, abreviar a agonia. Desempenhar sua
função era agir movido por um sincero humanitarismo, mas, intimamente,
ele se dispunha à tarefa ansiando também sorver, num breve delírio, a
renovada sensação de balançar no vazio, como se retornasse ao brinquedo
existente no parque que freqüentara quando menino.
Sob
os olhares das testemunhas e das autoridades perfiladas no pátio da
prisão, agarrou-se vinte e cinco vezes ao trabalho — na verdade,
algo que ele encarava como uma missão —, abraçando o corpo dos
condenados em um derradeiro gesto de
solidariedade.
Um
velho álbum de família, no qual as últimas gerações guardaram imagens
sugestivas, foi descoberto, após a morte de Syd, por sua vizinha.
Folheando as páginas desbotadas, ela encontrou dezenas de recortes de
jornais, onde o nome do homem que ajudara em seus últimos dias figurava
sublinhado. Embrulhou-o com carinho, certa de ter em suas mãos relatos
da vida de um homem cuja história pessoal se confundia com a opulência
do Império Britânico, e o entregou ao pároco do bairro, a quem relatou
os últimos dias de seu vizinho, esquálido, tendo as extremidades do
corpo deterioradas pela falta de circulação. E construindo, em sua
simplicidade, sem a consciência de fazê-lo, uma analogia que talvez
revelasse a derradeira aspiração daquele que foi o último carrasco
britânico, afirmou que, ao retirar o corpo de Syd da poltrona, sentiu um
peso imperceptível, algo semelhante a um tecido levíssimo, um pedaço de
tule ou o fragmento de certo véu inconsistente. Com certeza, não foram
esses os termos exatos da pobre mulher. Mas, para ela, também próxima de
morrer, o corpo de Syd Dernley poderia ser levado de seus braços pela
brisa mais suave ou pela débil centelha de luz que, naquela tarde de
inverno, iluminou por um segundo o assento manchado da
poltrona.