Pela primeira vez, àquela hora do dia, descobrimos que o homem que vendia cigarros a varejo no bar no cume da estrada tinha consciência de sujeira que adivinhávamos em suas mãos de boteco, no qual ovos cozidos nos olhavam, lingüiças fritas e secas nos espreitavam, dobradinhas recendiam o ambiente.

Ele, o cara que trabalhava no Bar Expedito, pegava o maço de Hollywood e o virava, de lá escorregava um cigarro, pronto a ser vencido pelo fogo do isqueiro vermelho redondo. Você: em nenhum momento tocava o cigarro, nem meus dedos, sua expressão era de quase ressentimento pelos azulejos não lavados há anos.

Saímos do bar.

Eu olhei para você naquela estrada, tendo ao redor a própria estrada e as bifurcações em barro, que subiam para casas de fazendas pequenas, flamboyants, ipês e meninos correndo sem camisa empinando pipas. Um sol excessivo. Carregava minha sansonite de rodinhas e plástico riscado. Com rodinhas inúteis que nem sequer rolavam pelo asfalto. Pensei no quanto eu te amava. É mesmo possível pensar em quanto se ama?

No quarto eram exatamente nove horas e cinco minutos do dia anterior.

E você deixava que eu o guiasse. Subi em você, e encaixei.

E gostei tanto de olhar nos seus olhos, que esmoreci.

Que fiquei atônita ao primeiro. Uma espécie de chafariz de pracinha do interior. Um anjo deitado no sofá xadrez pedindo uma casa. Um atalho qualquer para intimidade, num colo com TV.

Mas não.

Não vou fazer concessões. Nada de pensar em passar e engomar o colarinho e punhos de sua camisa branca. Nem de sorrir, complacente, com seus olhares de soslaio.

Agora escolhemos na estrada uma das casas que nos hospedará para nossa fuga.

Fugimos, para uma com jardineiras nas janelas, e para nós mesmos. Porteiras abertas numa cidade chamada Castelo.

Nuvens lá fora anunciavam que seria uma noite de chuva.

Eu e nossa recém-adquirida intimidade. O leite sem pasteurizações. Fogões à lenha.

Eu brincava de estar dormindo e lembrava de todos aqueles anos em que antes de cair no sono te abraçava imaginário, meu travesseiro. Muita coisa dita sem represas. Sem pressas. E eu continuo achando que Deus é no mínimo um grande designer, olhando nuvens, crisântemos e sendo tomada de quatro.

Antes de tudo havia a lembrança de quando eu tinha doze anos e você trinta e dois. Era na pequena oficina de televisores do meu pai que nós diariamente conversávamos, você me trazia livros grandes e pequenos bombons. Você contou tantas estórias que eu fiquei com defeito, os tubos de imagem para sempre sintonizados entre dois canais ao mesmo tempo, os fantasmas na tela, chiados. Eu tenho histórias demais e todas com início meio fim. Na verdade tenho demais a mim mesma.

 

Mas aqui estamos oito anos depois, você me deixa fumar ao contrário de meus pais, há outras diferenças, eles não gostam que eu leia. Um dia meu pai acordou e me viu comendo na cama e lendo, atirou o prato de amendoins na parede e me deu correiadas, eu não poderia mais ler no quase escuro do meu quarto, gastava energia, desregulava minha cabeça e ainda comer na cama era pecado mortal, atrairia insetos.

Não sei se os livros causavam ciúmes naquele homem tão apaixonado pela TV que impedia que falássemos ao assisti-la. Eram normais os psius entre nossos esparsos comentários. Proibia-nos o riso alto e na hora do Jornal Nacional não importava o que estivéssemos fazendo, era na sala nosso lugar. Quietos e azulados pelo vídeo.

Levaram-me ao psicólogo. O doutor me ouviu antes e logo depois os chamou:

— A menina gosta de ler? Qual o problema? Acho que quem precisa de auxílio são vocês.

Eu não ri, juro. Mas mesmo assim apanhei quando cheguei em casa.

— Aposto que você mentiu para ele, não contou que lê vinte e quatro horas por dia, de manhã bem cedo, nas aulas, a noite toda se deixarmos, parece sedada.

 
(imagens ©roberta martinho)   
 
 
 

 

 

Sedada seria a palavra mais bonita dita pelo meu pai. Por isso quando você me falou: nefelibata, açucena, vésperas, trajes, fumegante, principado, miríade, distraída... Eu gostei tanto que quis me casar com você.

Dessa vez não eram meus pais, mas os vizinhos, a empregada lá de casa, meu irmão, minhas amigas, as professoras e o juiz, ninguém deixou que eu casasse. Quatro anos felizmente passam rápido com os livros, mas eu engordei, criei gordura nas juntas... Amarelei, cor de quem fica trancada em casa, lendo, lendo, lendo. Preferia ter ido com você aos doze. Aquele fresco emergir de algo que ainda não era. Os peitos sementes discretas, o púbis liso e minha inocência teriam sido seus. Sei que também meus olhos têm para sempre esse baço caído nos cantos. Meu pescoço tem as rugas de quem leu demais arqueada, escondida com a luz pequena da lamparina.

Houve mais palavras tuas: alpendre, balaústre, enternecida, data vênia.

Comecei a achar ruim e gostar de palavras já de uso comum, essas palavras de dia de festa, de feriado não gosto mais, quero palavras do dia, de sol, de pegar ônibus, de correr, de sentar de qualquer jeito de pernas abertas. Chegou então o estágio de ler os malditos, e todas as palavras deles eu sorvi como groselha, as palavras escuras e até palavras mudas, trancadas nelas mesmas eu abri depois, em forma de sangue. Menstruação quase nunca é literário, por que será? Cavilosa, densa, ferruginosa, uísque e algodões.

A sua filha veio quando faltavam dois anos para minha emancipação. Ano passado. Ela era uma matéria fofa espiando a nós do moisés que você insistia em carregar para nossos quartos dos motéis dos sábados. Certamente seu passeio de dia era garantido pela bebê. Uma menina. Chorei tanto quando soube que era menina. Os sapatinhos azuis de crochê que eu fiz nunca seriam usados. Ateei fogo neles.

E se Deus ao invés de um grande designer fosse um grande escritor? Acho que ele também é. Não sei se haveria menos injustiça no mundo, talvez Deus tenha uma confraria de escrevinhadores, alguns são descuidados, outros capricham: verdadeiros russos. Outros têm mania de ser escrivão.

Sim, faz sentido.

 

Quando arrumei a mala e saí de casa, por acaso no mês de meu aniversário de dezesseis anos, meu pai dormia na sala ninado por um filme de ação. Sorte. Se fosse drama, os silêncios me denunciariam.

Escolhemos a cidade pelo nome: uma Castelo para suas duas princesinhas. Tenho nojo de nata de leite, mas gosto do primeiro cheiro de madeira queimando na fogueira. Gosto de como as meninas se perfumam se pintam e se vestem iguais às personagens da novela das nove e vão para a praça. Gosto da praça e do coreto, também de montar a cavalo, de correr pela grama e de não ter sinal de trânsito.

Mas não gostei do modo que te olharam depois de te ver na TV.

O que eles sabem vendo você naquele noticiário? Concordamos que matar a mulher daquele jeito não foi o mais correto, mas ela também queria proibir nossas núpcias.

A vida é esse rastilho de pólvora que às vezes masca na arma, no instante do tiro. Mas as facas estão sempre por perto.

 

Durante esse último ano, o sexto, você arrumou essa vaca e ela foi logo tratando de engravidar. Uma mulher que fala alto para ocultar que não tem o que dizer.

Sua namorada e a perfeita forma de disfarçar que já éramos mais que amigos, sobrinha e tio, irmãos, filha e pai. E ela rapidamente a feliz e rotunda mãe de uma menina que um dia teria doze anos.

Mas não foi nada não. Não há de ser nada. Quando eles entrarem aqui, meu amor vão sentir o cheiro oriundo da mala de rodinhas, e vão saber o quanto você é cuidadoso com sua filha também.

 

 

 

(Publicado, originalmente, na revista Entrelivros)

 

 

 
   
 
 
 
 
 
 

Mara Coradello. Publicou em 2003, O colecionador de segundos. Em 2004, participou de algumas coletâneas, entre elas, Prosas Cariocas, Paralelos: 17 contos da nova literatura e 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. Edita o blogue Caderno Branco.