Marco
Aurélio Cremasco
- Natural de Guaraci, Paraná. Reside em Campinas,
onde é professor na Faculdade de Engenharia Química da Unicamp.
Possui A Criação, livro de poemas, editado
pela Cone Sul (São Paulo: 1997), com o qual obteve o Prêmio
Xerox do Brasil & Revista Livro Aberto. Teve o romance Santo
Reis da Luz Divina, publicado pela Editora Record (Rio de Janeiro:
2004), premiado no I Prêmio Sesc de Literatura. É co-editor
da Revista Babel, revista de poesia, tradução
e crítica. Os poemas de sua autoria estão presentes em As
coisas de João Flôres, livro inédito de poemas.
Traduziu Langston Hughes, Robert Lowell, Enrique Linh, Oscar Wilde, Mário
Benedetti, entre outros.
minha
saliva é um gato
meu olfato, um rato
não faço idéia
do silêncio aceso
no raio da noite
meus olhos são corujas
minhas pernas, grilos
não imagino tempestades
resigno-me nesta distância
ontem
devorei duas estrelas
arrotei o luar
bebi cinco sóis
vomitei o mar
travei a derradeira batalha
com o céu sob o olhar
perdi todas as lutas
e a fome continua
a sede não é a mesma
cega o que vê
como nada vejo
tateio de mãos vazias
um corpo seminu
na última ceia do pôr-do-sol
na
margem do rio
uma face
distorcida
água revela
pedras
sempre se apanha
um peixe
no olhar do pescador
a
linha alcança
onde olhar descansa
na busca da paz
busca-se mais
do que o peixe
na ponta da linha
ninguém adivinha
o que virá
o que será
dessa pesca
o que se fisga
é a própria alma
de quem lança a isca
ferrovia
o coração verde
da centopéia
não palpita
trilhos
caminha
sem dar ouvidos
aos gritos do trem
anos
esculpidos
nos paralelepípedos
ruas avulsas
a traça escolhe
madeira sem lei
o templo vence o tempo
ser
esta régua
que mede passos
sem conhecer medidas
ser esta coisa silenciosa
que guarda segredos
desvendando escritas
ser este esterco
disperso e bruto
que obra despedidas
ser este ser absurdo
que nada fez
metendo-se em tudo
o
tempo voa
não chora
por nada
exceto
o velho relógio
que permanece
sempre
na mesma hora
não tem ponteiros
somente marca
não tenha pressa
Do livro de poemas, inédito:
As coisas de João Flôres.