Figuras frutas
A polpa que apalpo (dura), por fora,
é carne e gordura a dar forma às nádegas
— ancas sobre as pernas
andadeiras pernas sensuais
— guardiãs dos mistérios anais
das tardes, noites, manhãs de amor inteiro.
Navego teu corpo, tal menino de antes
a correr pomares à cata de frutas;
hoje, caço putas inocentes;
mulheres morenas,
negras ou claras, virtuosas. Transmudam-se
nas alcovas, nos parques, no milharal...
(Houve o elevador,
o avião noturno, o último banco
no ônibus quase vazio;
e o sacrilégio na sacristia
em tarde morna, o padre sonolento
a dormitar a sesta).
Pomares de adolescência, a corrida
atrás de Irene alva e rósea.
A pele tenra
feito casca de manga madura, a manga rosa
dada em paga antecipada
do amor infante.
Alcança. E toca. E tomba.
Cai a moça jovem, quinze anos feitos.
Peito arfante, cheio, túmido;
e os mamilos eriçados, túrgidos,
salientes sob o pano claro
do vestido pobre.
Férias de fim de ano, quase Natal;
menino ginasial, o dia à toa, menina-moça
com tesão e charme. Os pés, as frutas,
artelhos como jabuticabas cheias,
peitos como sapotis, densos.
As uvas figurativas de seus mamilos tenros.
[Do livro As uvas, teus mamilos tenros, Goiânia, 2005]
Seja lembrança
Deixa ficar só assim
esse amor de arremedo,
essa lembrança de nós.
Há de haver sempre o carinho
dos teus passos encurtados,
passos raros, leves, soltos,
de pernas bem torneadas
(imagens inaugurais
aos meus olhos de tesão).
Deixemos que fiquem assim
as imagens de nós dois,
imagens de curtas viagens,
dos beijos primeiros em meio
às mordidas do bíblico pecado.
Seja assim tua lembrança
no carinho das compras primeiras
e na estréia do leito a só.
Só? Só. Mas tu estavas,
silente e afetiva presença:
mão macia em meu cabelo,
meu peito feito travesseiro
no teu rosto de esperança
(imagens ©glowimages)

Luiz de Aquino (Alves Neto): nasci em Caldas Novas, Goiás. Era sábado e setembro, 1945, às oito da manhã. Criança, eu fugia do futebol de bola de meia no meio da rua, preferia ler gibis. Poeta e contista pelo prazer do texto, jornalista pelas mesmas razões e porque há que se sobreviver. Autor de alguns livros publicados e outros inéditos. Vivo em Goiânia, sempre à espera de que tudo vai melhorar. Estudei por alguns anos, trabalhei outros mais, casei-me mais de uma vez. Tenho quatro filhos e um neto. Gosto de bossa-nova, poesia nova com lírica antiga; gosto mais de cadência que de métrica, de viajar de automóvel e de conversar muito. Escrevo crônicas para o "Diário da Manhã" e as repito em algumas páginas da Internet, como no meu blogue, Pena&Poesia. Obras publicadas: O cerco e outros casos (contos, 1978); Sinais da madrugada (poesia, 1983); De mãos dadas com a lua (poesia, 1984); Canto de amar (poesia. 1986); Menina dos olhos (poesia, 1987); Isso de nós (poesia, 1990); BEG — Nossa gente, nossa história (crônicas, 1994); Razões da semente (poesia, 1996); Deu no jornal (entrevistas, 2000); Meus poemas do Século XX (reedição dos seis livros de poesia num só volume, 2001); A noite dormiu mais cedo (contos, 2002. Prêmio Cora Coralina, da Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico); Sarau (poesia, 2003, festejando os 25 anos de O cerco, que foi publicado na mesma ocasião, em segunda edição); As uvas, teus mamilos tenros (poesia erótica, 2005).