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Em seu novo livro, o escritor Wilson Bueno monta algo que está muito próximo daquilo que se aponta como enigma

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O argentino Ricardo Piglia, em seu último livro publicado no Brasil, O Último Leitor (Cia. das Letras), trabalha com uma idéia discordante, a partir da correspondência entre Franz Kafka e Felice Bauer, para dizer de uma certa posição-Bartleby, mas feminina: a de uma leitora pura, copista, escrava, que enquanto copia aquilo que alguém escreveu se entrega ao texto de tal maneira que é incapaz de ler mal. Ele diz também que um bom leitor é aquele que "lê mal, distorce, percebe confusamente". Isto pode, de certa maneira, levar de volta a um problema intenso: o de que toda leitura é gesto, seria gesto, e que toda escritura é/seria gesto. Lembra ainda um conhecido texto de Walter Benjamin, quando Kafka completa dez anos de morte (publicado no Brasil pela Brasiliense), quando este diz que Kafka "priva os gestos humanos dos seus esteios tradicionais e os transforma em temas de reflexões intermináveis". E empurra sobre Kafka o que é quase inteiramente sabido por seus leitores, os que lêem mal: "Kafka não necessita de muita realidade, para ele um fragmento mínimo é o suficiente".

 

Este fragmento mínimo de realidade capturado por Kafka num gesto, muitas vezes se enviesava nas mãos de Felice Bauer, a noiva; a que lhe copiava as histórias que enviava por carta, a que lia mal os relatos das inúmeras e ininterruptas cartas de Franz entre 1912-1924, e tornava a captura mais intensa porque os relatos passavam a se vincular a ela, numa incorporação. Este é o ponto que Wilson Bueno, um de nossos melhores mal leitores, teima em distorcer, perceber confusamente, para construir o seu último livro: A Copista de Kafka, que acaba de sair pela editora Planeta. Neste livro Wilson monta algo que está muito próximo daquilo que se aponta como enigma, porque sabemos que o mais bacana do enigma é o que ele consegue ser, como tal: uma aparência de enigma. Agamben diz que "nada pode ser mais desesperador que constatar que o enigma não pode existir, mas somente a sua aparência". E diz também que "sempre se tem medo de uma só coisa: da verdade".


Esse é o jogo, o lance do jogo, destas narrativas de Wilson, el Bueno: tomar emprestado do mundo dos homens a sua tragédia (o real e a verdade), para dar a ela uma graça invejável através da invenção ficcional, dar a ela o seu fantasma, a sua sombra, a sua imagem dilacerada, dilacerante, outra, que provoca segredo e paixão, e morte. E para isso nada melhor que esta conjuração entre Franz e Felice. Quando a imagem que volta refletida não se impõe como odiosa, mas como provocadora de afecções intensas, desfeitas e ao mesmo tempo mitigadas, como no mito de Narciso: aquele que se apaixona por uma imagem refletida, e não por si mesmo ou por sua própria imagem, mas sim por sua sombra, por seu fantasma, por sua assombração.


A habilidade de Wilson Bueno mora aí, na provocação da surpresa através do enigma e do fantasma, e não apenas ao seu leitor, mas a si mesmo, ao seu gesto, como escritura. Não à toa Wilson insiste sempre em desafiar a sua própria narrativa, para que ela se veja também afetada por suas sombras, suas assombrações. Tome-se de pronto, por exemplo, o que conseguiu escavar nas narrativas mínimas do Manual de Zoofilia e de Jardim Zoológico, nas maneiras litúrgicas e empoladas de um começo de século XX desaprumado em Amar-te a ti nem sei se com carícias ou na vereda pantanosa dos idos de 1940, quando "tio Roseno, Rosemundo, Rosevaldo, montava o seu zaino brioso, procurando pela bugra Doroí", em Meu Tio Roseno, a Cavalo.


Em uma das narrativas de A Copista de Kafka, "O Dente", por exemplo, o narrador que é o próprio dente, termina dizendo: "dente humano que virou prótese, o que sou, mais branco que a neve, esta a qual, agora no espesso inverno, pesa tanto sobre o telhado que os da casa temem continuamente que ele ceda e nos soterre a todos — para sempre". Depois, nas brechas de "Uma Alegoria Doméstica", quando a história familiar se parte junto aos cacos de uma xícara que K, o filho, deixa cair, e o velho Hermann, o pai, parte ao meio o filho e lhe dá as costas para fazê-lo crer que ele deveria permanecer ali, imóvel na escada, com "as mãos apoiadas ao corrimão, as duas, muito juntas, para sempre". Ou ainda em "Andrômeda ou a Sombra", quando conta um homem que perdeu a sua sombra: "Sou a minha sombra e a sombra que se conforma no chão (quem me desmentirá?) é ou não é um ente novo, imparcial e vivo, a povoar este mundo e a desenhar-me, na parede, a silhueta de um corvo?".


Assim, este A Copista de Kafka é um livro que se elabora como uma montagem, uma outra montagem da história, para interrompê-la, através do enigma e o que ele nos impõe como desespero: que o que há no enigma é apenas a sua aparência. Por isso este é um livro de um muito mal leitor: o que incorpora e refaz o gesto para a construção de uma singularidade. Estas encantadoras narrativas de Wilson Bueno percorrem a fantasmagoria da história para reler as beiras do trágico, como bem fez Franz Kafka, e vociferar a estupidez de nossa mais estreita condição: existir.

 

 

 

[Publicado, originalmente, no jornal Diário do Nordeste, em 17/11/2007]

 

 

 

 

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O livro: Wilson Bueno. A Copista de Kafka. São Paulo: Editora Planeta, 2007.

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dezembro, 2007

 

 

 

 

 

Manoel Ricardo de Lima é professor de Literatura Portuguesa da UFSC. Autor de As mãos — The hands (tradução de Antonio Sergio Bessa) e Falas inacabadas (com Elida Tessler), entre outros.
 
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