©trimano
 
 
 
 
 
 
 

"...sei que nunca conseguirei escrever uma matéria sobre

William Burroughs, um Junky não escreve sobre outro..."

(Tuio Lamar. 26 anos. Poeta colombiano,

em entrevista à revista elmalpensante.)

 

 

Também pensava como o poeta colombiano. Usei drogas, e, sob o efeito delas, escrevi um punhado de textos. Mas, afirmar até onde influem no processo criativo, não posso. Posso, com firmeza, atestar que servem como elemento desvinculador do magma axiológico (lavagem cerebral idealista e cristã) que engole a poesia.

William Burroughs era o pai da Santíssima Trindade Beat: William Burroughs, Jack Keroac, Allen Ginsberg, respectivamente. O mais velho, o último a morrer, provavelmente, quem mais fez uso de drogas. Cultivou maconha no Texas, consumiu haxixe no Marrocos, anfetamina na California e viciou-se em heroína em Tanger.

Sentenciar que as drogas fizeram de Burroughs o mais inovador dos três, é subjetivo em demasia. Contudo, subjetivismo aparte, seu Naked Lunch (romance elaborado de cut-up) mexeu profundamente com Allen Ginsberg, a ponto de conturbar a relação dos dois.

Devo confessar, nutro admiração por criadores que usaram heroína, especificamente por seu grau de dependência, como catalisadora do processo criativo. Foi assim com Eric Clepton (ele próprio afirmou que o que o compelia à música era similar ao que o compelia a heroína). Com William S. Burroughs, que absorveu o efeito da substância em seu corpo e tirou dela o subsídio necessário à sua formação profissional.

Duas obras principais de Burroughs, Naked Lunch (Lanche Nu) e Junkie (Drogado) foram elaboradas sobre o signo da droga. Naked Lunch teve inicio em 1955 num prostíbulo masculino de Tanger, onde Burroughs drogava-se pesadamente de heroína e escrevia a obra. Junkie é (como costuma dizer o jornalista Marcelo Rezende) uma carta de intenções. Apologético, a personagem, mente, furta e fere pela manutenção do vício. Defendendo que moral, só em histórias do Millôr para a Veja.

Burroughs produzia por ready-made, mas não um ready-made de rua, de ouvido. Sua produção emanava do corpo-a-corpo, do pragmatismo de existir. Daí sua obra ser calçada no circunstancial (favor nunca confundir com biografia), em peculiaridades. Serei claro, ele não era inventivo, não escreveria nada, se fosse companheiro de Ezra Pound, nos doze anos de cela. E com certeza, nem deixaria Pound escrever.

Literatura para ele era desconstrução, não do objeto, mas do sujeito. Conquanto era fundamental passar um ano sem tomar banho nem trocar de roupa para escrever Naked Lunch. O destino é o maior dos ficcionistas (como disse Moreira Campos), portanto, foi crucial o incidente com Joan Burroughs, sua mulher. Transcrevo nota de tradução do filho, da nossa Santíssima Trindade Cabocla, Claudio Willer (o pai é Roberto Piva e o espírito santo, Régis Bonvicino) sobre o ocorrido: "um dos personagens mais trágicos da história Beat. Conheceu William Burroughs em 1943, grávida de outro homem; logo a seguir, Joan e William casaram-se. Ela acompanhou toda a odisséia de Burrroughs pelo mundo do tráfico de drogas, tal como relatada em Junkie e metaforizada em Naked Lunch e textos seguintes. Joan era viciada em benzedrina. Em 1947, mudaram-se para a fazenda em New Warverly, perto de Houston, Texas. Em 48, tiveram que deixar o Texas por causa de complicações com a polícia e mudaram-se para Algiers, perto de Nova Orleans, morando num sítio. O lugar é descrito em On the Road. Em 1949, depois de uma batida policial no sítio, mudaram-se para o México. Em setembro de 1951, aconteceu a tragédia: numa festa em casa de amigos, Joan propôs a Burroughs, que era um exímio atirador e andava armado, uma brincadeira de Guilherme Tell: ela colocou um copo de vodka sobre a cabeça e insistiu para que Burroughs o acertasse com um tiro. Este inicialmente relutou e depois concordou com a brincadeira. Disparou o tiro, que acertou no meio da testa de Joan. Burroughs foi processado por homicídio involuntário e prosseguiu sua trajetória errante: Tanger, Peru e Colômbia, de novo Tanger, Inglaterra, Paris, de novo Inglaterra, onde fixou residência, já não mais viciado em heroína".

Escreve outra obra prima, The Western Lands (1987), então com 73 anos, resta-lhe uma década. Vira popstar americano, outros pegam carona. Ele, com a carga de experiências acumuladas, tira proveito disso tudo e faz até comercial de tênis japonês. O slogan é ironicamente idôneo: "Eu acredito em alta tecnologia". Para quem começou escrevendo sobre heroína, e terminou num comercial de tênis japonês, comer o melhor caviar Beluga é tão perigoso quanto usar heroína.

 

 

 

agosto, 2005

 

Cláudio Portella (Fortaleza, 1972). Poeta. Já escreveu para o teatro, cinema, música e publicidade. Colaborador em vários jornais e revistas do Brasil e exterior. Foi co-editor da revista "Arraia Pajéurbe" (FUNCET — Fundação de Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza, 2000-2004). Mais aqui.