Para Julieta Yelin

 

O doutor Manes, sentado atrás da escrivaninha de nogueira triste, recortava com seu semblante castanho o campo que contornava o hospital. Era um homem robusto, de gestos eqüestres, se bem que esses últimos traços ficassem reservados às pernas. Umas pernas longas, fincadas no solo como colunas de ferro, de ferro enferrujado próximo ao marrom. Seu cabelo sedoso, ruivo, terminava numa crina cor de mostarda. Os olhos eram algodões sonoros, sem mostrar as pupilas, sem mostrar o que estava pensando, apesar de que o branco revelava sua energia, a doce, sonora, revigorante energia que une os homens da terra. A cadeira muscular, de ferro e coração, sob a qual sepultava o corpo cansado, tinha à sua frente uma outra cadeira vazia, com braços alcochoados que deveriam ser cariciosos para os braços dos pacientes. Mas os braços dos pacientes são sempre de cor clara, cor de açafrão, de cinza-limão ácido. Muitas vezes magros, muitas vezes frágeis.

Agora Manes observava a menina na cadeira triste, de rosto não tão triste, mas claro, vestida em alfazema. Uma menina que gostaria de estar brincando com suas amigas, mas, ao invés disso, permanecia sentada na cadeira muscular, sorrindo para Manes. Ao seu lado, a mulher de rosto pérola não demonstrava a mesma tranqüilidade inocente. As feições, longe de seu equilíbrio original, assumiam o desenho de uma flor num copo: as pétalas umedeciam a superfície polida. Mas a flor conseguira suar toda sua seiva, era uma flor quase seca, quase cinza, apesar de bela. Pois a mulher ainda conseguia manter sua beleza ingênua, face ao mistério que, naquele instante, unia as três figuras. A pergunta que não podia ser respondida pairava no ar como um pássaro gelado. Era a incapacidade dessa pergunta que matizava o rosto pérola da mulher do cinza nuvem que retesava os traços.

O médico, sem tirar os olhos da mulher, por trás do branco algodoado dos olhos, que lhe dava o aspecto de um cego eremita, pensava em como deveriam ser os dias da Srª Alena. Faziam comentários sobre seu marido. Estava sempre viajando a negócios. Nesse tempo, falavam dos casos de Alena. Manes não distinguia nenhum outro homem por trás da máscara pérola. Nem alegria, muito menos tristeza. Essa última deveria existir. Era só olhar para a menina ao seu lado, os cabelos de trigo maduro, as faces brumosas como a papoula esmaecida. Como seria possível que uma outra menina vivesse dentro dela. Uma menina que continuava lentamente a devorá-la. Podia se notar esse outro corpo pela magreza dos braços e pernas, o cinza-limão ácido da pele. O sorriso em seus lábios seria da outra. As pupilas brancas do médico procuravam a menina escura, que brincava dentro da menina branca. Que movia suas pernas para frente e para trás, que sorria seus dentes claros. Era por causa dela que a mulher cuidava em retesar os traços perolados, não pelas falas secretas, os bicos como os de gralhas que diziam, deslizando entre as ameixeiras e carbúnculos: "O Sr. Rudi está no norte, não volta logo". "Ele tem uma pasta grená e um capote cinza". "Vi-o ainda ontem...". "O Sr. Rudi?". "Não, o rapaz cor de neve é que eu vi, que eu vi entrando na casa de Rudi, e ele não está lá". "Ele não está e a mulher está". "Mas ora vejam, é possível que isto aconteça, que a pasta grená e o capote cinza não estejam e estejam a mulher e o rapaz cor de neve?". "E há também os cor de montanha, cor do campo, cor das ravinas silvestres". "Deve ser por isso que ela ficou assim, por isso que eu digo que ela ficou assim por causa dos rapazes, da cor que os rapazes não têm, ela ficou assim como quem paga porque é assim que vai ser mesmo ela tem que pagar porque a pasta grená e o capote cinza não voltaram e ela está com a montanha, o campo, as ravinas silvestres". "Ele deve voltar logo".

Nada disso a incomodava, nenhuma conversa sussurrada por trás das portas e janelas, o que a incomodava era a cor da menina e a outra menina escura tão próxima que sorria seus dentes. A piedade tocava o campo de neve dos olhos do médico, retirava com bisturi afiado a pele lustrosa, decalcava rótulas vermelhas nas íris que se ocultavam. Um estremecimento passou pela menina, fê-la fremir como fremia a haste de clematite no copo sobre a escrivaninha do médico. Fê-la fremir como as cortinas sopradas pelo vento do campo. Fê-la fremir - e, então, o bisturi acabara de extrair totalmente a pele dos olhos, dois carimbos rubros, como selos episcopais de cera quente, estamparam as órbitas do médico; seu queixo eqüestre abriu uma garra, as pernas eram tubos de ferro que não suportavam o peso do corpo - como uma cruz de madeira na parede. Manes viu seu vestido no cimo do Gólgota soprado vazio como uma roupa crucificada.

Eles vieram uma vez ao consultório de Manes, a pasta grená e o capote cinza, vieram uma vez porque Rudi tinha algo nos rins, a urina saía escura e cheirava a feno. A pasta grená escolheu se sentar na cadeira em que naquele instante se agitava Alena; o capote foi abandonando o corpo, um corpo magro, branco, um corpo que trabalhava para o mercado de peixe, que executava transações no interior dos cascos dos navios. O escaro dava sempre mais lucro, negociava seu transporte sob o olhar estático de uma escarpa; enfrentava horas de listas azuis, com todos os nomes daqueles peixes gravados numa geleira. Naquele corpo tão branco que se entregava ao escrutínio das mãos de Manes, apalpando o ventre, a princípio sem sinais de algum mal. Mas elas saberiam reconhecer, antes mesmo que necessitasse de exames, algo estava ali, uma turfa negra comendo-lhe os rins, enquanto o capote o olhava sereno, talvez pedindo às suas mãos que lhe ensinasse a linguagem das profecias.

O homem estaria num daqueles mundos gelados, talvez numa proa de navio, esfregando as mãos para que não morressem; sentado diante de um agente do comércio pesqueiro, não pensando nunca em Alena ou na filha, mas em cifras, no lucro com o raro merlim? Costumam, nessas negociações, soerguerem torsos de peixes recém-abatidos: o dorso de uma baleia desventrada, com a espinha imersa em tegumentos de espermacete e gordura, fisgada num arpão a vários metros do solo. Dava-lhe náusea o cheiro de carne de baleia, e até a ordenha do sangue, pingando como chuva nos baldes. Porque se pode brincar com torsos desventrados, pode-se pescar numa escarpa um pensamento, de água clara, de campo e trigal, pode-se triturar com os dentes o que dizem de Alena. E depois de meses ele voltava, para casa, mas logo depois partia. Partia de novo e ia se esquecendo. Voltava e as duas eram como a imitação dos peixes, possuíam olhos globulosos, nadavam num ar branco gelado, eram mãe e filha imersas numa água parada, num reduzido bloco transparente, em que seus rostos adquiriam a tonalidade das águas-vivas.

- O que tenho, doutor?

Manes pôde descobrir na pergunta de Rudi a face extinta, a face de mais de vinte anos, face trespassada pela dúvida. Face da brancura do lírio, frágil quase como se não fosse a face de um homem, ou ainda a fragilidade das coisas não vistas, das coisas mortas que se fazem claras. A face que olhava Alena e expandia-se, como uma rosácea de igreja, como o mirto colhido em sua cor. Pois naquele preciso instante o doutor Manes, o respeitável médico de aldeia olhava Alena. Metade de seu corpo, as pernas fincadas no solo do consultório, férreas e da cor da ferrugem, de pelame marrom escuro, era através delas que a olhava, um olhar das pupilas vermelhas tendendo ao escuro, o ponto negro abrindo sua carnadura de líquido claro, berrando o focinho, as narinas de tegumento que não possuía, porque suas narinas eram brancas, aquilinas, narinas de homem, mas pernas de músculo eqüestre. Não, seus olhos não podiam dizer-lhe o que verdadeiramente sentia, porque um ser como Manes não poderia sentir com os olhos, ou boca, coração, sentiria com as pernas exigindo a terra, palha, café e saliva nas tábuas que pulsavam junto com ele, nas pás do ventilador de teto filtrando o ar parado da sala de consultas, do ar acariciando o cabelo da menina, cabelo claro tendendo à cor, não cinza-ácido dos limões, mas verde campo, dos limoeiros e das folhas dedilhadas pelo vento soprando no campo em volta do hospital, em volta do monte calvo onde, naquela hora, os camponeses voltavam dos estábulos, à procura dos cômodos de pinho, de madeira olorosa e fritilárias, sumo de cerveja, raspas de canela suave, travesseiros de penas de ganso que são como os algodões na época da colheita.

Ele pensava, pensava enquanto suas mãos apalpavam o ventre de Rudi, olhando Rudi, o homem pequeno, encanecido, mas cujos olhos brilhavam, única forma que vive e busca uma palavra: "Diga-me, doutor, diga-me a verdade". Não, ele não queria aquela verdade que imitava um seio, o seio desnudo que as mãos de Manes acariciavam, as mãos de dedos longos, finos. A verdade é que ela tivera um caso com o rapaz do colégio, durante a última viagem do marido para negociar um barco de escaro, na costa sul de um dos países gelados do norte. Ele os vira, não Rudi, porém Manes, os vira sob a copa do sicômoro antigo: Alena protegia a cabeça do rapaz em suas mãos. Ela não pudera vê-lo, naquela hora, o doutor Manes no meio do campo de relva seca, hirto, da metade para cima, e as pernas frágeis. Não pudera, ou evitara vê-lo, um homem que a contemplava, ser que nunca desafiara o confrangir-se, prostrado de pés e palavras. Quando terminava o dia no hospital, Manes doava o corpo ao campo que se estendia por entre as árvores mirradas e esparsas fazendas, em cujo centro auspiciava o sicômoro, sua coroa de ramos adormecia em sombras os quintais e canteiros das casas, os veios da estrada que atravessava o campo até à cervejaria, onde o lêvedo maduro ardia com a anfractuosidade do milho e do calor. Sob a crista coroada, batizados pelo pôr-do-sol, Alena e o rapaz dourado não se beijavam, não trocavam nenhuma palavra de egoísmo, pois é egoísta o corpo em sua faminta miséria, na condição dos que rogam, insatisfeitos consigo mesmos, assim pensava Manes, que um corpo só deve a si mesmo confessar, a parte de Manes que sobressaía da escrivaninha de nogueira triste era essa confissão, oferenda ao entardecer que pelos braços do sicômoro quebrava-se nos rostos das casas, linhas de luz e palavras ocultas, nos semblantes dos cavalos, dos cavalos prostrados sob os figos do sicômoro, os figos verdes que os cavalos pensavam ser os corações de si mesmos, os cavalos, as pernas de Manes enterradas nas tábuas do consultório eram suas irmãs.

Ele possuía irmãos, como todos. Seus irmãos eram a folha, a terra não saciada, o ligustro, o ar, a montanha. Eram as vidas de todos no campo, de todos do hospital, porque ele imitava as vidas, conhecidas e desconhecidas. Também eram seus irmãos os visitantes das enfermarias, os que vinham ao seu consultório apenas por algumas horas, ou aqueles que ele adorava por um tempo mais longo, ainda aqueles que mantinham os olhos para sempre abertos nos leitos, pálpebras que fechava com suas mãos, sabendo que lhes doava seu golpe surdo. As palavras que ouvia na surdez, no clorofórmio, as palavras que suas mãos colhiam, a semeadura dos corpos, e como eles estariam nos dias por vir. Até mesmo Rudi, até mesmo seu capote cinza sentado numa cadeira se tornava a leitura, sua ciência, de predizer as sombras que vivem por todos nós. E nós poderíamos admirá-lo, enquanto acariciava o seio de Rudi, o seio morno em seu ventre, a turfa negra que lhe devorava os rins. Suas mãos, que penetraram tantos corpos, no leito macio sob as luzes de sódio; que sentiram seus corações quentes, que os escutaram tocar, os címbalos, sinos, harmônios: ele, Manes; Ele, o paciente; elas, suas mãos. Como ele, Rudi, Alena. Como ele, a filha, Alena. O tríptico, encimando a parte mais alta de um sacelo, no interior da igreja de tábuas antigas, apresentava as outras vidas vividas por Manes. E aos pés do sacelo ajoelhavam-se cavalos. Cavalos de barbas tripartites, com pernas de ferro fincadas no solo.

Rudi iria viver. Continuaria respirando dentro dos barcos de pescado, ilhado em meio às escarpas, andando por plataformas, sob guindastes, sob galos de ferro coroados na madurez. Sua urina quente e cheirando a feno, seu seio primaveril, apenas renderiam alguns meses. Manes não tinha ódio por ele. Mesmo enquanto meditava sobre Alena, sobre sua filha, Pérola, enquanto ele as protegia à sombra do dorso marrom, cujo pelame soprado pelo ventilador de teto estalava como agulhas dobradas pelas mãos de costureiras melancólicas, ele pensava também em Rudi, pensava no rapaz dourado abraçando Alena, sob o sicômoro, pensava nos cavalos fechando um círculo em torno das árvores, peixes pintados, velhos, novos, cinzentos, em torno da água de seu próprio batismo, porque o rapaz escutava de Alena que Pérola era uma menina, ele sonhava uma menina sem corpo, ele a bebia, sorvia-a, mordia os dentes, respirava o ar sazonado do cesto de maçãs, cidra e calor, era como uma parte das árvores lá fora. Para Manes, os dias de sua infância lembravam Alena e a filha, porque ele sempre lembrava, e, nesse lembrar, canto de paciência, carpintaria do tempo, lia e se afastava de si mesmo, enquanto dormia, corpo acolhido numa flor anestésica, o besouro, ou um cavalo subindo o dorso do campo de relva. Elas dormiam, Alena, Pérola, dormiam e metade de seus seios respirava, metade de seus órgãos dormiam nas mãos de Manes, lavadas inteiras, dentro de suas águas, nas margens do rio que cortava o campo do hospital até elevar-se música sobre os celeiros, sob as rodas das carroças, nas cartilhas dos bedéis, na flor dos chapéus, na maciez das luvas, no interior das máquinas triturando o milho, no cansaço.

Não, ele não tinha raiva e nunca a poderia ter, pois todo seu cansaço provinha da cor do vinhedo, não era em Rudi que experimentava o cansaço, mas eram suas pernas que pesavam enquanto a tarde ia declinando nas enfermarias do hospital. Da mesma forma Rudi, como Alena e Pérola, também sentado a enfrentar Manes, sentindo o seio suplicar por baixo dos fios cardados do capote cinza, rogava que o médico lhe dissesse "a verdade". Mas como poderia confessar, porque a "verdade" ainda estava de pé, sob a coroa do sicômoro, uma "verdade" dourada, fincada na terra que a tudo devora. Manes olhava o homem envelhecido, pequeno como um cupim, que de inseto passara a rastejar na terra: ele sabia sobre Pérola. Sabia que aquela turfa negra não era a mesma que lhe comia os rins, que havia em Pérola uma outra Pérola, mais encolhida, mais velha, de rosto engelhado como de um duende, que passara a viver pela menina, que se nutria, respirava, dormia por ela. E de que forma seria possível a um homem, buscar ainda a "verdade" se o amor (o cavalo brotando na janela como uma aglaia na margem) de sua carne ia renascendo - o amor poderia ser descoberto nas mãos trêmulas de Rudi, mãos antes inertes - à medida que Pérola reunia com cada vez mais afagos as gaultérias, o lúpulo, as folhas de marga?

Mas antes que pudesse responder a Rudi, o doutor Manes percebeu que um corpo doente pode ser uma salvação. A cabeça avermelhada de ossos do doutor Manes se erguia ante o campo noturno, em seu dorso Alena e Pérola, o urso de seus cabelos dizendo a todos que o amor, mesmo sem amor, tem o direito de pedir uma retribuição. As mãos do doutor Manes, abertas para o ar que soprava dos ramos do sicômoro, suas mãos mergulhavam como pássaros de neve na tinta das granadas, nos bulbos e féculas, por entre os gerânios que desenhavam a aléia, sob a carne das mulheres, o dorso marrom sabia amá-las nesse momento, suplicava-lhes a espada e o trigo, o tigre e a fábula, ele, com suas mãos sagradas, levava-as pelo campo, montadas, as princesas do branco, do marfim, do gelo puro. Suas mãos, na união com a carne, dentro das mulheres, afiadas facas dentro das mulheres dormindo insones, eram toda a infância numa oferta, infância que nascia a cada instante nas enfermarias do hospital, inventada todas as vezes que Manes possuía dez, cinco, três anos, brincando com mulheres, como se brincam as paredes dos órfãos. Algumas voltavam para seus lares, voltavam, mas retornavam depois de alguns dias, meses, anos, pois sempre retornam às suas mãos as filhas ou para o homem de ferro que as acolhe, o grande homem de pernas de ferro fincadas no assoalho de tábuas que lia seus corpos, um campo estéril, a vindima sem frutos.

Manes, porém, enquanto atravessava o campo com Alena e Pérola em seu dorso, não desejava a carne, mas o sonho. Elas dormiam em suas noites (até mesmo ele, Rudi), sem lua no céu, de orvalho nas campinas, dormiam como pássaros capturados na caixa de ferro, com sua música asséptica, a superfície lavada e fria, lendo seus corpos, traduzindo o campo de sua pele, numa página tão aguda como um salgueiro molhado e carregado de carriços, e a página era virada pela mão de Manes, para uma outra página branca suave, cor nas margens de chaminés, cor nas margens de casas de tijolos e cheiro de cerveja, pele branca, camisola fina branca barata, cabelos louros maduros, cobertores, a quentura, o amor.

E pela primeira vez, pela primeira vez em anos que já atingiam a longevidade de uma rocha em suor, que um escultor esculpiu até lavar patas de primavera, marrons e escuras, como uma túnica envolvendo o torso de um homem belo, querendo só a delicadeza da chuva, voz do pinho, mãos das avezinhas, pela primeira vez Manes olhava um corpo, atado em lençóis. Ele sonhava um corpo. Lembrava-se (e suas pernas tremiam) da mãe de Pérola, de que seu rosto, mesmo sem revelar muita cor ou graça, rosto de limão cinzento ácido, ainda era um rosto que o fazia tremer, rosto que levava, com a suavidade das falenas, as roupas da filha para casa, como se levam flores para uma cidade cantada por mortos. E se naquele campo toda a terra fosse uma conversa de mortos, pensava Manes, fosse um diálogo de moças mortas conversando no miolo da terra, trançando uma corola de forma que o rio que corta o hospital imitava o rio em sua cauda até as plantações e a imorredoura cidade, cidade de luzes oblíquas, telhados, força máscula, força feminina, rocio, choro, escolas, igrejas, casa de dois velhos acariciando as mãos, inventando filhos. Pela primeira vez Manes descansava o corpo, curvava-se ao peso dos lençóis limpos e brancos que iriam oferecer-lhe em breve a pele, a metade de um seio, a respiração quase finíssima que atravessava folhas, lírios, vilas, ardósias do lábio, partidos que se entregavam nas ruas familiares ao beijo da última noite. O corpo de Manes deslizava cansado, num torpor, num morno torpor provocado pela fécula dissolvendo-se em seus lábios, gosto de limão cinzento e granada, torpor de anestesia, ou de flecha, da flecha que agora cravava em sua metade marrom sedoso, íntima, violenta, mas cansada. Que o fazia tombar, a outra metade lisa, polida, esférica. E suas mãos rogavam à enfermeira, que acabava de derrubar uma bandeja de instrumentos cirúrgicos no chão, pediam à enfermeira assustada que as cobrissem com lençóis, que as esquentassem na noite de milho maduro, de cerveja e ebriedade, na noite que domava o corpo de séculos, galgados e eqüestres do doutor Manes.

 

 

 
 
 
 

 

Roberto chegou na última hora da tarde, quando as luzes do mosteiro começavam a declinar as sombras, desenhando ogivas no pátio. Logo após tocar a campanhia, saiu do portão um jovem baixo, usando hábito, branco e de magreza incomum. Informou a Roberto que já o esperava. O sorriso discernia afabilidade ou certo cinismo, disfarçado pelo rosto aparentemente amável, que despertava interesse. Pegou as malas das mãos de Roberto e pediu que o acompanhasse. Entrou por um avarandado que descortinava o vale, cercado por morrotes, em cujos topos tremulavam coroas de álamos. Além das luzes que, na intuição de Roberto, deveriam ser as da estrada, serpeavam os trilhos do trem. Atrás deles, muito distante, como algo que procurava afastar, com toda força, com todo sangue, velava o rosto da Senhora Fiúme, sua mãe. Há quanto tempo que ela permanecia acordada, aguardando-o, era o que o fazia ceder, pensar que a longa ausência não poderia mais prosseguir, daí por diante. Mas se deixasse se entregar a esse outro sentimento, menos puro, mais ingênuo, seria descerrar a trégua, espantar as cinzas das batalhas há muito iniciadas, perder, enfim. Porém, o que ele havia ganhado, de fato? Procurava pensar, enquanto o monge andava vagarosamente, talvez cansado pelo peso das malas, atravessando o vale que anoitecia. "Um gato poderia ser mais trôpego?", pensou. "Acerando as unhas em toda minha fraqueza, sondando meus terrores inúteis". Ele se lembrou de que não adiantara fugir, que, afinal de contas, nada acontecera em cinco anos. Enquanto vivera com Rosa Fiúme, sua mãe, tivera certos presságios, algumas esperanças. Suas tentativas sempre frustradas de conquistar as mulheres, mas, mesmo assim, prosseguia, não recuava. E depois? Nada mais ocorrera. Ninguém surgira nesse tempo, porém, se tornara muito mais forte a figura de Rosa. Todas as vezes que acordava, suando, trêmulo, assustado, procurava-a. Devia estar em algum cômodo, no seu encolhimento, na posição de vencida, com seus olhos de penosa castidade, com o ar de santa, e a dor, essa prolongada e nunca revelada dor no seio, o câncer de sua verde astúcia, a malícia dos animais noturnos, sem nunca se saciar. Aparecia em sonhos, na casa escura, exceto que seu corpo não estava presente, só os traços mantinham-se coesos na respiração de Roberto, como se ele aspirasse o cheiro que mantém os mortos em constante vigília, um odor de tulipas extintas. No último ano, porém, desaparecera totalmente, de seus sonhos, do despertar, das horas. Por fim, já não conseguia conceber nem mesmo um traço, ou fragmento de voz, nada que, por mais ínfimo, escavasse a terra sob a qual o esperava sua mãe, com o abraço de fêmures cruzados, o afago despido de carne. O beijo do pó.

E porque, enquanto cruzava o avarandado, soube que além dos trilhos do trem dormia a casa de Rosa? Decidira passar uns dias no mosteiro. Sim, mas por quê? Para descansar, já que esperava uma semana tranqüila, uma cela para deitar-se, a capela, algum hóspede, por certo, para travar contato? Ou uma hóspede. De certo que não, não alugavam estadia para mulheres. Só então, depois de um ano de ausência, ela retornava, a silhueta de Rosa debruçada numa janela, um desenho recortado por tesouras na paisagem dos álamos, que ladravam como cães, enquanto as corujas espiavam do cimo dos morrotes o jovem Roberto, vestido de terno e calças de percalina, os cabelos já riscados por cãs, seguindo o monge minúsculo ajudando-o com as malas. As corujas falavam alguma coisa para Roberto, algo que não compreendia de todo, vindo do mais distante esconderijo da noite que tecia seu mantel incógnito. O sol se vestira por trás do vale, sua última luz iluminava as folhas dos álamos, curvando-se como ondas do mar tormentoso, dentro do qual Rosa Fiúme rugia o fel espesso, humor da espera nunca alcançada, de um verde de folhas cortadas pelo vento, ondas do oceano e do zimbório de estrelas, desenhando a estrutura de Zéfiro, o colosso. Um ponto se edulcorou, aceso no fim do vale, vela que carrega uma criança, olho que se dilata, ou um simples gato venusino, aquele que espetava o coração de Roberto, vinte, trinta anos.

- Aqui, Sr. Roberto - a voz do monge como dobre de sinos.

Apesar de que não se ouviu o badalar costumeiro naquela hora, o órgão evocando a natureza virginal da Mãe de todos os homens, alçando-se aos céus, postergado incenso.

- Há água, algumas frutas. O jantar é às oito.

O rosto do monge, como solto no ar, fino como papel, avaro como uma caveira.

- E os outros hóspedes? - perguntou Roberto.

- Nenhum, nessa época.

Mas ele já conhecia esse fato, apenas quis ouvir do monge as palavras que evocavam a dor, o vestir-se para as celas vazias, beber, comer, caminhar entre os álamos, erguer-se em sua citéria intimidade, quando se procura os corpos gentis.

E o virar-se para as frutas foi a moeda com que pagou o monge, a caridade disfarçada a uma caveira. Morriam ainda os seus passos pelo avarandado, enquanto as olhava.

Mas logo elas perderam o fascínio, as pêras sobre a cômoda. E aquela ânfora, cheia até a borda de água, de formas sinuosas como o pecado.

Roberto sentou-se na beirada da cama. O macio contato com o colchão acendia em sua carne a memória das mulheres, de Virgínia, principalmente, ou de Rosa Fiúme. Como uma lanceta, descendo dos braços anfractuosos de Zéfiro, as mãos esguelhadas de sua mãe pousaram-lhe nos ombros. As clâmides, por terem flores apétalas, possuem a aparência emasculada de uma mãe noturna, com o afiado senso dos espinhos, o predicado que concerne em "afirmar" ou "negar", sempre por escolher o odor intenso, entre as inúmeras armas com que se afia a blandícia. Ele jurara, por Virgínia, pelo corpo mais róseo que já conhecera, pela touquinha no topo dos arcobotantes e dourados cabelos, de tranças várias, e pelos olhos de rosa-chá, que iria curar-se de Rosa Fiúme. Um gato de sete vidas, descendo na hora do angelus, da vila que já o cercava por todos os lados, sem escapar dos agaves nem das mitenes que doavam aos braços de Virgínia o mais excessivo impudor, membros polpudos como salmões na desova; Roberto queria sorvê-los. Abaixo das mitenes, a pele de cetil, que poderia ter a cor daqueles arcos da igreja que separavam a vila do verdor do jardim, como um brasão protetor, tons de leite, que lhe guardava o desejo dos olhos de Rosa. Os lábios de Virgínia, que tanto rumor pronunciavam. Mas aquela foi a hora do silêncio, quando até os mais fervorosos amantes enregelam-se em luar: o aproximar-se de Roberto, o afastar-se de Virgínia. Mas seria preciso que um animal, como a raposa, o basilisco, aquecesse as presas num vocabulário antigo, feito de audácia, de furor. Diante de si, o afeto, nunca antes sentido, porque a mãe não era orvalho sobre a papoula, mas pedra seráfica. Agarrá-la apenas, carne rósea pelo sol, adamascado seio, o vinho das melenas. Então, por entre os agaves, a túnica escura abriu as asas; todos os vitrais da igreja se apagaram e Virgínia recolheu as mitenes, para o mais longínquo retiro de sua leveza. Em Rosa Fiúme o negrejante espectro. Em Virgínia a nuvem de março, ou dezembro.

Quando retornou à casa - pelo jardim os agaves de caules torcidos como os pescoços das górgonas - encontrou na cama de casal Rosa Fiúme, com o rosto transido pela dor virgínea. Pelo muito que esperara, sem forças para erguer-se, o corpo já não podia sentir, insensível o frio a apartava do mundo. Com as víboras de Lacoonte, as rugas do rosto talhadas pelos fachos de luz rendilhada das altas janelas - que perfuravam em muitas ogivas o salão, crescendo até o espelho nos fundos da sala como um espinhaço - Rosa Fiúme era o emblema da dor. Como pudera, por uma diversão "inocente" entre os agaves, esquecer que seu corpo só poderia se manter se o filho a aquecesse, a cobrisse com o mantô de todos os anos, sentasse e aguardasse a chegada do sono, que deveria pousar, qual pétala esquecida, sobre seus olhos? Sobre o espelho o reflexo da igreja, e das tranças cor de ouro puro, desaparecidas.

Roberto lutava por não perder totalmente Virgínia (se já não estava de todo perdida?), mesmo com a mais forte imagem do sentimento por Rosa Fiúme, feito de espectros negros, as ruínas dos agaves. Em meio à escuridão da sala, a luz no cimo da igreja deslizou pelo rendilhado nas paredes, acariciou a pátera com o remédio de sua mãe, os aros dos óculos, até que, descobrindo a repulsão nos olhos de Rosa, aí se deteve, como uma lente que os fizesse crescer, em exímia piedade por Roberto, desvelou-os, exumando-os da falsa prolixidade do sentimento, mostrando-os, cavidades desenhadas por pregos, não os dos martirizados, mas as dos engenheiros de cenários postiços, engodo e milícia das serpentes. Sentiu seus próprios olhos transpassados por uma outra dor, não a que Rosa Fiúme lhe doara por tantos anos, só o suplício daquela compaixão autêntica, construída no instante em que a velhice se mostra a mais astuta desculpa para o domínio. Dor bifronte, pois os olhos de sua mãe, sim, agora, em verdade experimentavam pela primeira vez a "dor", afastada por todos os mimos do medo, a avareza do sofrimento, como dois punhais que lhe fizessem brotar do mais fundo das pupilas os agaves, o rosa-chá, as mitenes, os cabelos coroados, um beijo que fosse, que pudesse sentir, uma delicadeza. Porém, a túnica negra, a mesma que separara Roberto de Virgínia, estendeu a sombra sobre Rosa Fiúme, querendo gritar, partir os espelhos, os vitrais, as víboras do rosto, para que escapasse a única palavra que pudesse defendê-la das sombras, afastado martírio: "filho".

Filho, fora por ele que viera até o mosteiro, àquela cela decorada como um quarto secular, com a ânfora de água e as pêras recolhidas, sábias, sequiosas? Uma cruz pendia sobre a cômoda, havia crucifixos como que perdidos pelo quarto. Roberto não acendera nenhuma lâmpada, continuava sentado na borda da cama, acariciando as pontas do paletó, experimentando apagar, através do tato, a silhueta na janela. Ainda estariam lá, os agaves? Não voltara à Virgínia. Se ela ainda vivesse, entre o jardim e a igreja, que estampa, harpia debruçada sobre os vitrais, deveria odiá-la? O semblante de Rosa Fiúme, encolhido como um mocho, numa bandeira heráldica fincada em seu peito. Em cinco anos, as tintas desbotadas. Olhou as pêras. Assumiam um certo brilho, como os que provocam corações quebrados. O seu coração. Todas as celas do mosteiro estavam vazias, exceto a sua, a do monge com rosto de cadáver. Zéfiro penteava as árvores, porque eram suas filhas. Nas estrelas, nenhuma luz desvelava a estrutura. As tintas se aqueciam de novo. Mas soprou uma réstia, as primeiras cinzas. Um tanto do verdor. Um tanto do sal. 

 

 

 

(imagens ©max oppenheim | george diebold | john grant)
 

 

 
 
 
 
 

Tornei-me homem muito mais tarde do que o senso comum pode esperar. Se a evolução de um homem o leva a uma saúde ignorada - qual indivíduo forte sabe de sua fortaleza? -, o progresso de uma doença psíquica não acarreta danos consideráveis ao entendimento do que é a liberdade. Um doente psíquico crê piamente, considera de maneira pia, que seu estado é a melhor saúde. Estágio esse, diga-se de passagem, o mais saudável.

Posso considerar-me um homem harmônico, até a época em que me transformei, definitivamente, em homem. A descontinuidade não pode ser percebida entre quatro paredes onde se vive pela subserviência. Servir cegamente é servir à saúde. Que é a saúde senão a crença na unidade? Quando saí ao mundo - um bebê saudável, diga-se de passagem, como sempre tenho ouvido -, a matéria polimorfa de meu íntimo foi sendo desbastada, curvada, delimitada, até fixar-se num objeto de sete anos de idade: daí para frente a fluidez de meu íntimo estacou. Pode-se dizer que a subjetividade de minha geração sofreu um deslocamento, ou, em vocabulário menos científico: foi expelida de seus ovários de cogumelo parasitário. Enrijeci-me, de clara e gema de ovo para casca não esfarelada - um ovo pré-histórico.

Pois minhas faculdades inatas - a fome, a ânsia de gritar, chorar - não encontraram pauta nem desenvolveram música. A música precisa, justamente, de nenhum significado para se expandir. Alicerçada na descontinuidade. A harmonia obsedante de um menino de sete anos cuja pauta musical era a da escala monocórdia... da mãe! Ah... digo! Com a devida pausa, este nome... que me enrijece e me acaricia. Ele golpeia-me como gongo. Que emite angústia e insanidade. Apenas soa fantasmal. A qualidade de fantasma, sua força é de fato irromper como mudo grito.

Ela era uma mulher alta, magra, de ossos como clavicórdios quebrados, pálpebras estufadas, mãos engelhadas. O cabelo: uma touca frouxa de fios de prata. Se a harmonia foi o eixo em torno do qual me subsumi, pelo contrário, esse mesmo eixo, que a tudo esterilizava, era, por seu lado, absolutamente descontínuo. Tenho de delimitá-lo: a incapacidade de desenhar um retrato. Se o fosse desenhar - iria escarificar a folha de papel com tanta violência e disparidade, o lápis de carvão em pedaços. Mostraria a qualquer um, que me diria: não vejo nada além de uma cova.

Foi desse pleroma que me alimentei desde que vim ao mundo. Se fosse dada aos bebês a capacidade de discernir seus pais biológicos, digo que, se a houvesse visto pela primeira vez, teria me suicidado por asfixia. Talvez antes mesmo de ver-lhe o nenhum rosto. Só a cavidade denteada de seu sexo abúlico, respirando o cheiro de túmulos, me faria arroxear. Isso me lembra, agora - não sei se contado ontem ou hoje, ou há poucos instantes - do caso de um bebê preso pelo útero da mãe. Sem que os médicos nada pudessem fazer, terminou estrangulado.

Esse exemplo me permite penetrar mais profundamente em meu passado à busca de subsídios para a teoria. Uma mãe que, mesmo antes do filho nascer por completo, o estrangula, não deveria, após o parto, ir diretamente ao patíbulo? Essas me parecem a princípio as consciências mais devoradoras e aniquiladoras da saúde. Mas, observando melhor, com a ajuda de instrumentos mais eficazes, é possível observar, naquilo que nos parece o mais brutal assassinato, a origem da graça. Pois, analisem: a mãe que estrangula o próprio filho antes de nascer por inteiro, só o faz, pelo menos para mim, por compaixão, por ter consciência, nesse instante fugaz, de que mantê-lo vivo seria a mais dolorosa forma de subjugá-lo à harmonia. Seria estrangulado, ao longo de uma vida inteira, por cada mínima fração de segundo. Deveria, em contrário, ao que todos pensam, ser abençoada e elevada aos céus.

Eu, por meu lado, não tive a sorte de ter sido estrangulado logo que nasci. Mas atinjo, aos quase quarenta anos, uma forma mais livre. Um homem que teve por infinitas vezes a corda no pescoço é um homem, como todos os criminosos, muito desconfiado. A marca da corda no pescoço é apavorante de se mostrar à luz do dia. Se evita uma aproximação mais íntima dos outros, qualquer ruído apavora. Corre-se como louco se alguém chama. Pensa: onde estão os esbirros? E seu peito bate de amargura doce à sensação de que um punhal pudesse escoimá-lo com a última sentença.

Podem me condenar? De fato, podem. As pessoas com quem convivo não sabem de nada. Mas, se soubessem? O juiz, toga e peruca à moda antiga, soaria o martelo; e os jurados: culpado! Cadeira elétrica. Fluído letal na corrente sanguínea. Ou, a harmoniosa leveza de um patíbulo. A espinha dorsal partindo como galho tombado pelo curvar dos frutos. O outono dos fracos tem o peso do luto.

Pois, se soubessem. Mais ainda: se chegassem a descobrir que a saúde começa onde nasce o assassino. Essa é a máxima de minha teoria. Uma teoria exige princípios que derivem uma síntese, na maior parte dos casos. Minha síntese consiste em: só construindo um patíbulo para aqueles que sempre nos levaram suspensos pela corda, é que se pode, por princípio, rir. E o riso possui a consistência de folhas correndo por um lajedo de túmulos na estação fresca. Não é um quadro da mais absoluta incoerência? Mas, quando se pode extrair incoerência do absoluto?

Construí esse patíbulo, por muitos anos. Talvez, desde que meus olhos se cegaram de luz. Começou como um brinquedo, que evoluiu ao longo do tempo, sempre ingênuo, da mais absoluta falsidade. De outros brinquedos combinei as pernas, a plataforma, o madeiro, a corda, o banquinho. Aplainei com perfeição estrados para a platéia. Erigi o corpo jurídico. Proferiram a sentença. E a máquina, certeira, leve, como sopro, um vento morno purificador dos pulmões, apenas tombou o banquinho, e ela...

Por princípio, continuo escondendo minha mais bela obra ao mundo. Porque no dia em que mamãe partiu-se como um palito de dentes, a platéia urrou. E, ah, mais, sabem? Mantenho a mesma cena. Tê-la enforcado foi a exigência para me tornar um homem. E o brinquedo, praticamente construído, agora é real. Conservo tudo em seu lugar. E quando volto para casa, posso vê-la pendurada: os clavicórdios secos e sonoros. Pois sabem, que ela canta? Mas como poderei lhes dizer isso: que sua música me é como a mais doce acusação?

 

 

[Do livro inédito Os dias são feitos de vertigem e música]

 

 

 

 

 

Leonardo Vieira de Almeida. Mestre em Literatura Brasileira (UERJ) e Doutorando em Estudos de Literatura Brasileira (PUC-RIO). Autor do livro de contos Os que estão aí (Ibis Libris, 2002), e de contos publicados no suplemento literário Rascunho, do Jornal do Estado do Paraná, jornal Panorama e nos sites literários Paralelos, Bestiário, Cronópios, Bestiário e pequena morte. Co-autor do livro À roda de Machado de Assis: ficção, crônica e crítica (Editora Argos, 2006). Também é tradutor e vive no Rio de Janeiro.

 

Mais Leonardo Vieira de Almeida em Germina

> Na Berlinda (Conto)