terra forte, lebara Seu da Lira

7 versos plantei 7 roseiras

cada amor que colhi, mira

devolvi pro destino, veja

 

e esse pavor me inspira

é um vício mesmo ou viço da cidreira

fé na planta, beabá do caipira

o bicho do marafo se corteja

 

eis minha mão escapando amor

e um coração sol a se pôr

poema toma corpo com suor

 

de bonito tem mais, se mais tivesse

e conforme o lirismo aparece

cada dia de um jeito sai a prece

 

 

 

 

 

 

Ilícito

 

nem tudo o que é lícito é honesto

Digesto, 533 a.C.

 

 

musa, que pode ser de qualquer rio

que verbo é essa carne que sussurra?

latente força elástica, uma jura

ou promessa quebrada por injúria

 

de quantas dúvidas o amor fugiu

direto ao encontro de nova armadura?

ó musa, pega leve com a surra

que a carne é fraca, e curto o meu pavio

 

rima quietinha, amarra o pulso absurda

abafa a voz no escuro, morde a corda

seu verbo que me inspira é o que te corta

 

respira, musa, e solta o ar, fica rubra

recolha meus sonetos e descubra

o amor olhando tudo atrás da porta

 

 

 

 

 

 

Cilada Cinderela

 

quando le dije si quería bailar conmigo

se puso a hablar de Jung, de Freud y Lacan

Kevin Johansen, Cumbiera Intelectual

 

 

estou aqui pra ouvir atentamente

invente sua farsa cá pra nós

conte uma fábula, estou a sós

fica à vontade, senta, fala, mente

 

ouço alerta seu pedido urgente

um socorro de herói ou monstro atroz

a donzela é seu lobo ou a vovó

bruxas, fadas ou cavaleiro errante

 

me diz se isso te aflige, Cinderela

me engana que depois te dou uma bala

só rodeia a galinha, Zé Ruela

 

bela, a festa miou, desveste a gala

desperta logo, limpa essa ramela

resgate-me do conto de salvá-la

 

 

 

 

 

 

Mezuzá

 

vai, devolve pro mar esse segredo

a conchinha onde guarda suas tristezas

aquele medo que espanta princesa

fugindo de outro príncipe mais cedo

 

cruza as pernas na areia, cruza um credo

as mãos no peito, faz silêncio e reza

agradece ao céu por cada surpresa

e devolve pro mar esse segredo

 

atenção nessa conversa

onde vai onda vem levando areia

e trazendo umas lágrimas submersas

 

assim balança o mar e pulsa a veia

a vida segue e faz a trilha inversa

foi princesa, e voltou mulher, sereia

 

 

 

 

 

 

Sombra fresca

 

amar é ilha deserta e indefesa

não tem boia nem tubarão nem rede

quanto mais mexe mais afunda e fede

depois tem que limpar, vai dar despesa

 

e olha, tem outra coisa, viu princesa?

esquece o coqueirinho, tá? Nem pede

é suar ou chorar pra matar a sede

faz na areia, e sem sombra, a fortaleza

 

pois é, depois me conta no que deu

se cê se pegou com o Demo ou com Deus

se valeu o crendospai que nunca reza

 

eu, que sou teu amigo, já aviso

se previne, que o amor é bom por isso

abraça essa armadilha onde está presa

 

 

 

 

 

 

Fiado

 

bem sabe o gato a cujas barbas lambe

ditado medieval

 

 

noves fora, um trocado às vezes sobra

após tanta planilha calcular

castelinho engolido pelo mar

agora eu fico aqui fumando a cobra

 

se na conversa fiada que te dobra

dessas que a gente estica bar em bar

depois que o fio rebenta no tear

é o fiado da conversa que te cobra

 

então tô de butuca no contrato

e deixo no balcão da vida um troco

porque já vou saindo do sufoco

 

o sapo que engoli entalou no oco

onde o rato morreu cresce bigato

salva o peixe do bigode do gato

 

 

 

 

 

 

Para rapazes sem vícios

 

aquele papo de viver sozinho

rima batida em meu cotidiano

eu coleciono passos como enganos

e levo na carteira alguns santinhos

 

mesa pra um, às vezes não cozinho

mais um freguês levando outro cano

diz que é Fulano amigo de Beltrano

faz que perdeu as chaves no caminho

 

só me vejo falando com estranhos

ofereço chiclete, bala, Alpino

cão sem dono exibindo os bons caninos

 

à noite chego em casa, tomo um banho

lavo as mãos, fecho o dia, tiro os ganhos

volto pra minha vida clandestino

 

 

 

 

 

Lucas Puntel Carrasco nasceu em Rio Claro (SP), no Natal de 1979. Publicou Pindá, a menina do mar — sonetos para uma infância caiçara, que em 2007 lhe rendeu o prêmio ProAC, da Secretaria de Cultura de São Paulo. Trabalha em projetos editoriais para revistas, agências e editoras de São Paulo e Santa Catarina. Colabora, entre outros, com a Companhia das Letras, CosacNaify e Almanaque Brasil. Editor e pesquisador do songbook PretoBrás, o livro de canções e histórias de Itamar Assumpção, também publica no Sonetário Brasileiro, de Glauco Mattoso. Prepara sua edição artesanal de Coisa-feita, sonetos simpatias amuletos (Água Forte Edições, Curitiba).