Quero ser outro

 

 

Érico e Flávio eram grandes amigos desde a infância.

         Rebelde, Érico era do tipo que jamais escondia sua impetuosidade natural — mas desejava ser comedido como Flávio.

         Flávio, calmo, fala pausada, era aquela constante suavidade transparente, mas quisera desde o princípio ter o caráter semelhante a um espírito tempestuoso, como o seu amigo.

         Não muito após o chegar da vida adulta, morreram sem jamais ter se encontrado novamente, permanecendo neles sempre o desejo de um ter a vida do outro. Curiosamente, um era o outro.

 

 

 

 

 

Quanta beleza

ou

Foi a lua que roubou minha sonolência

 

 

Gostaria de saber quanta beleza caberia naquele detalhe que permiti escapar... Por falta do detalhamento, fui incapaz de chegar junto à miúda fresta da janela, e em tão pouco espaço liberar toda euforia sufocante capaz de preencher um detalhe mínimo como aquela fresta...

Desço as escadarias sem fim — me canso — chego logo — me canso e paro. Busco apoio numa pequena mesa que ostenta enfeites — preciso respirar. E começa a história de um garoto que, do lado de fora da janela, me vê pela fresta e conta a todos minha história, como conto aos outros a história dele. Um pequeno detalhe (nota deste que vos escreve!): as contradições e erros são propositais. Uma é minha, a outra é do garoto do lado de fora...

 

 

 

[Do livro Eram os deuses escritores?]

 

 

 
 

 

 

 

Agora que me habituei a estar só

 

 

Você nunca vai saber que eu a vi naquela noite de lua cheia... embora zelasse pelo silêncio (sei que tinhas medo) ouvi teus pés descalços caminhando lentamente, pisando suavemente e o suave ranger do chão de madeira, misto de som de pele lisa junto à madeira frouxa daquela casa nas nuvens, uma casa, ninho de amor, onde as plantas cresciam do lado de fora e adentravam-nos pelos ouvidos com o vento da madrugada, adentravam-nos os poros, a vida que pulsa entrando e saindo todo o tempo, num fluxo-devir-vida, vida, vida...

         Saio.

         Aproximo-me da janela.

         Vejo você descendo as escadas.

         Um longo vestido rosa com manchas (creio que flores) brancas adornavam tua perfeição, teu corpo perfeito, os longos e lisos cabelos negros, disseram-me que te machucaste muito, por isso relutei em vê-la de perto, guardei para mim as melhores lembranças daquilo que foi o melhor e o pior de mim, de ti, de todos, dos momentos, das lágrimas, especialmente das lágrimas que derramaste e da angústia que sentias em nome de um outrem que juravas — te completaria.

         Observo-lhe especialmente as ancas em suave movimento de vaivém — movimento perfeito, harmonioso, junção perfeita de humanidade, as ancas e as coxas douradas que nos tiravam o sono, sim, a nós todos que lhe desejávamos, respeitávamos e amávamos, especialmente, e observo-lhe descendo as escadas rumo ao seu desejo de morte, rumo a um prazer de morrer, um desejo misto de dor e suor, a lua cheia no céu, uma ligeira neblina e o teu casamento com o mar, sei que por onde andas, terás sempre a junção inaudita de céu e mar atrás de ti, logo tu, Gabriel e Lúcifer, amor e desejo, o seco e o molhado, o amor e o ódio, as dualidades todas não caberiam jamais em ti, logo tu, veja só — que és linda, e sempre será, e sempre terá como doce companhia o horizonte azul misto de céu e mar atrás de ti, como a enfeitar-te, como se isto fosse necessário.

         Observo-te ainda da janela, por entre as brumas, a névoa, cenário misto de fúnebre e vital, a lua clareando tal cenário, e te vi se ajoelhando na terra que ainda não havia virado jardim. Não choravas, mas sua expressão era de dor e eu te via, com o rosto elevado em direção à lua, teus olhos fechados, enfiavas a mão dentro da terra fofa, certamente a terra por fora era fria, mas enfiavas a mão na terra, a terra quente por dentro, e tua expressão de dor foi se transformando em redenção, sim, eu via o momento de tua morte, via-te morrendo enfiando a mão dentro da terra, querias talvez se unir novamente à terra, retornar de onde viestes, manter para sempre teus olhos fechados, enfiavas a mão na terra sob a lua cheia, abaixaste a cabeça, enfiavas cada vez mais a mão côncava na terra, e erguias novamente o rosto em direção à lua, tua morte e tua redenção, e eu te olhava ainda dentro da casa, confuso, pensei que podia te salvar, mas aquele era um momento somente seu, eu tocava suavemente com a mão direita (a mesma mão que enfiavas na terra) o parapeito de madeira daquela velha casa nas nuvens e te observava, fazendo o que não sabia o que fazer, e via tua morte e desejava também morrer, para acompanhar-te, para morrer junto de ti, para comungar de um momento que fosse onde eu pudesse dizer sim, dizer sim, dizer que realmente te amo e que realmente necessito de ti, mas restava-me apenas observar-te e lhe deixar partir, não vou pôr culpa na inexorabilidade das coisas, num amor fati, mas nosso fado se consumou, e te observava, agachada, enfiando-se na terra, morrendo, me deixando, deixando em todos uma imensa saudade que não passa, claro, jamais passará e guardaremos sempre as melhores e mais amorosas lembranças de ti, eis o meu sereno relato.

         Hoje peço-te perdão, mas sei que querias morrer, necessitavas daquilo, necessitavas da completude, o mundo era um fardo deveras pesado para tuas costas morenas, teus divinos cabelos negros soltos ao vento, peço apenas que permita-me lembrar-te com desejo, desejo de viver, desejo de vida em mim e em ti, ainda me lembro de sua expressão de prazer (é a expressão que quero guardar, a expressão de dor, preferi esquecer) e do prazer que senti ao vê-la, embora nunca soubesse, nunca soubesse, talvez nem mesmo venha a saber o que ocorreu, o que não ocorreu, mas desceste das nuvens em direção à terra, e morreste, e peço-lhe mais uma vez perdão, só desejo me lembrar de você como eras — linda.

         E a lua se fez tua filha.

 

 

 

(imagens © amilcar de castro)

 

 
 

Jason Manuel Carreiro nasceu em Edmonton, província de Alberta, no Canadá. Reside em Belo Horizonte, MG. Filho de mãe mineira, "amineirou-se" de corpo e alma, e atualmente, além de escritor, é mestre e professor de Filosofia na PUC Minas. Publicou O Estranho e o Diferente: uma questão de alteridade (Ensaio, Prêmio Sylvia Resende Costa, 2002); Eram os Deuses Escritores? (contos, anomelivros, 2004). Mantém o blogue O Esvaziar das Nuvens.