Cenas

 

I

 

sacos de lixo

ao chão

o pó

de passos

perdidos

homens caminham

em nenhuma

direção

 

 

II

 

restos

pútridos

alimentos

expostos

ao tempo

aos homens

vielas

e a água

da chuva

 

 

 

III

 

o semáforo

fechado

automóveis

atravessando

o canto inócuo

de pardais

a solicitude

daqueles

que esperam

 

 

IV

 

edifícios

opostos

enfileirados

calçadas

devolutas

presença inóspita

da lua

cães ladram

ante os ruídos

dos ratos

 

 

 

 

 

 

Pombos

 

No banco da praça,

entre mulheres

e crianças,

o homem lê.

Presença enfática

dos pombos.

 

 

 

 

 

 

O homem

 

Uma xícara

de café

e os dedos

entrelaçados

na mesa

a garçonete sorri

austero o homem

agradece

 

 

 

 

 

 

O sinal

 

No outro lado

da rua

mãos dadas

palavras

confidenciais

o casal aguarda

o sinal para

atravessar

 

 

 

 

 

 

Dias sem sol

 

Observação de fatos

que não convergem.

Uma vida por viver

e que não pode ser ignorada.

Inoperância do caos.

Dias sem sol

ao revés da madrugada.

 

 

 

Nihil

 

A propósito de nada

tudo se torna relevante.

Um olhar esguio,

uma pílula,

— ódio ao remorso

de amar.

 

 

 

 

 

 

Finis

 

"O homem morre sem ainda saber quem é".

Murilo Mendes

 

 

Nada convém à espera

da última justificação.

 

Tudo é limite.

 

 

 

 

 

 

*

 

As colisões do amor

e suas conseqüências.

 

Chagas da derelição.

 

 

 

 

 

 

Poética

 

Estabelecer relações.

Determinar ações.

Provocar reações.

 

Contrapor ao impróprio

seu antônimo.

 

Mover todos os dedos

e procurar agulha

no palheiro.

 

 

 

 

 

 

A poesia

 

A folha de papel:

branca

imaculada.

 

Vômito de palavras,

a poesia:

hemorragia lingüística.

 

 

 
 

 

(imagem ©michael artell)

 

 

 

 

Hilton Deives Valeriano. Formado em Filosofia pela PUC/Campinas. Leciona na rede estadual de ensino. Vive em Hortolândia-SP. Tem poemas publicados no Jornal de Poesia e Sibila, entre outros.