Histórias do Povinho de Deus

Festa em Tabuí. Dia da padroeira Santana. Povão cotovelo com cotovelo na praça, frente da matriz. Todo mundo olhando prum lado só, chegando a ficar na ponta dos pés, ver se via na estradinha única da chegada e da saída algum sinal de poeira. Esperando senhor bispo dar os ares de sua graça na visita anual. Poerinha que vez ou outra aparecia na curva da estrada provocava frejo danado. Cada qual queria ser o primeiro a beijar a mão do homem santo, chegado de Deus. Vários alarmes falsos. Vários é... vários não é...

Depois de tempão danado, povão suando suor grudento misturado com poeira, fedendo mais que subaco de aleijado, crianças berrando de fome, de calor e de agonia da espera, eis que apareceu uma poeirinha mais avantajada. Uma manchinha cada vez crescendo mais. É o homem!... É não!... É!... Não é!... Era.

Duas horas e um punhado de minutos de atraso e lá vem chegando a chimbica do homem santo, íntimo do Padre Eterno. Chimbica mesmo. Um fordinho que já naquela época, parecia peça de museu. Senhor bispo tinha perdido a cor avermelhada do rosto e o branco dos poucos cabelos que circulavam a careca. Todo bazé. Poeira quissó. Vinha sentado no banco de trás da chimbica, balançando as banhas, mãos cruzadas sobre a pança, dedos polegares circulando um sobre o outro pra cá e pra lá... Cara de poucos amigos, suando por tudo quanto é poro debaixo daquela negra batina também bazé de poeira. Olhinhos pequenininhos demonstrando sono, mas vermelhos e melecados de tanta poeira.

Assim que o chofer parou a chimbica no meio do povaréu e correu do outro lado para abrir a porta pro patrão bispo descer, o povão, aplaudindo e gritando vivas para o recém-chegado, abafou o homem de vez. Cada qual querendo tocar no homem santo, beijar-lhe a mão, dar-lhe tapinha nas costas. Enquanto o chofer guardava-lhe as retaguardas, ele discretamente empurrava um, beliscava outro, pisava no pé de outra, emitia comentários depreciativos pra mais outra, limpava na batina empoeirada as costas da mão melecada de beijos, e nome feio não parava de sair daquela boca de louvar a Deus. Povão mais afoito descobriu que o homem não estava para brincadeira não. Estava era a fim de brigar com quem lhe atravessasse o caminho. Arredamento geral.

Padre Anacleto leva a autoridade conterrânea à casa paroquial para um santo banho e um almocinho rápido onde senhor bispo trucidou só um prato de macarronada, um frango assado com farofa e meia panela de couve com angu antes de correr pra igreja. Mais de três horas de atraso para começar missa com casamento, crisma e batizado.

Igreja era um bafo só. Poeira, sovaqueira, xixi azedo, tudo contribuindo mais para o mau humor do bispo. Povinho de Deus tão apertadinho que nem podia olhar de lado. Se alguém tirasse o pé do lugar estava condenado a ver a cerimônia num pé só.

Três horas e meia de atraso começa a reza do senhor bispo.

— Dominus vobiscum!

— Articum ispritutu ô!...

Povinho maneiro danado de poliglota o de Tabuí. Respondia ao bispo na ponta da língua, como se entendesse tudo.

Chega a hora do casamento. Noivos e noivas, ansiosos que acabasse tudo aquilo a fim de chegar mais depressa na hora do vamos ver coisas. O senhor bispo começa umas instruções misturando língua pátria dele com dialeto do povinho de Tabuí. Sotaque brabo daquele santo homem das estranjas.

— Minha gente... benvenuti tuti vocês qüi nesta casa, a casa de Dio, onde tuti il mondo tranca a língua e não fala do vizinho. Aqui ninguém mete o pau no vizinho, nem in frente nem in trás. Aqui se ora...

E vai por aí a fora.

Chegando ao primeiro casal — logicamente aquele era um casamento comunitário - o bispo avisa pra noivinha espevitada, distraída, sonhando com o que ainda não aconteceu:

— Dona moça ripita comigo tudo qui voi parlare!...

— Sinhô?!...

— Parla comigo, va bene?

— Nhor?...

— Fala com eu, sua surda!

— Nhor sim!...

— Diga: Eu...

— O sinhô!...

— Sinhô não, sua burra!...

O homem tava ficando nervoso outra vez, todo vermelhão.

— Comicemos de novo novamente, porcamiseria! Diga: Eu...

— Eu... soltou a moça toda insegura.

— Ti recebo, meu amor!

— Tirei sebo, meu amô!...

— Ma che! Num é tirei sebo não, sua mula! É ti recebo! Parla, sua antona!...

Noivo nem sabia onde colocar a cara vendo todo mundo olhando pra sua imaculada noivinha. Toda vermelhinha, já com cara de inaugurada. Os outros casais num treme-treme danado, vontade de dar no pé, arrependidos de estarem ali para serem compromissados pela autoridade. E o casamento continua por aí a fora, com altos e baixos.

Aí chega a hora do sermão. Senhor bispo esquece um pouco a raiva de estar no meio do cheiro daquele povinho e resolve dar uns conselhos depois de ter lido uns pedaços da santa Bíblia.

— Minha gente!... Meu povo!... Triste do homem que vai per il camino da perdiçon...

Zé Brole fica com a pulga atrás da orelha e cutuca no Gerardantonha cochichando no ouvido:

— Ih sô! Escuta o home! Veja só o que o santidade tá ensinando!

— Meus irmãos!... O homo que vai per il camino da perdiçon por livre vontade está condenado al fogo eterno. Il camino da perdiçon é sempre il mais facile, il mais prazeroso, il mais curto... mas é o que leva mais depressa a il fogo dos quintos dos infernos! Meus irmons! Sigam o camino mais longo, que exige mais sacrifícios, mas que leva à salvaçon. Fujam do caminho da perdiçon!...

Zé Brole e Gerardantonha cutucam um no outro, pegam cada qual seu chapéu, ficam de pé indecisos, sem saber se vão ou se ficam. E quem estava por perto não pôde deixar de ouvir o primeiro perguntar pro segundo:

— Cê entedeu o mesmo que eu entendi? E agora, sô? Cumé que a gente vai pra casa?... Cumé que a gente vai pra Perdição? Ou a gente nem vai mais?

Negócio é que o senhor bispo, por desconhecer a geografia da região, ignorava que no sertão de Tabuí tem uma roça muito movimentada chamada Perdição.

 

 

 

 

 

Nós Sofre Mas Nós Goza

A jardineira que carregava o povo de Tabuí era desengonçada. E põe desengonçada nisso. Mas o dono da dita cuja, o Vivaldino, homem caprichoso e cheio das invenções, sempre tava arrumando uma melhoria na sua máquina de ganhar a vida. Arruma daqui, arruma dali, a coisa foi melhorando. O máximo mesmo foi quando ele inventou de colocar uma porta na traseira da dita cuja e uma catraca com o cobrador no meio do corredor. Povo de Tabuí ficou tão orgulhoso da sua empresa de transporte que nunca mais a jardineira viajou de banco vazio. Todo mundo queria experimentar a novidade que, segundo se dizia, sem tirar nem pôr, era igual aos coletivos de Bel'Zonte. E Vivaldino, vivo pra danar, ganhando dinheiro. Carregava gente, galinha, porco, bode, pato, ovos, saco de carne, abóbora, tudo, em troca de uns trocados.

Foi aí que um dia entrou o velho Honorato com sua cara metade, a Honorina e mais umas muquiças na jardineira. Indo pra Tabuí. Se ajeitaram como puderam. Jardineira quase desmontava nas subidas e descidas. Ar parado. Sol do meio-dia. Calor de matar. Fedentina braba. Poeira sufocante deixando todo mundo meio bazé. Honorina, de pandu cheio, vendo aquilo tudo, sentindo aqueles cheiros, vendo as árvores passando de carreirinha, ouvindo a conversa mole do Tõe Carapina, com bafo de cachaça misturado com cheiro da gasolina, começou a sentir tonteira. Honório não teve conversa e soltou o verbo:

— Pára! Pára! Pára aí, Vardino!

Vivaldino, todo cheio de paciência, pára a condução, olha pra trás e pergunta:

— O quê que foi home de Deus?

— É a muié qui tá cum pobrema, sô! Nóis vai descê um tiquinho! Péra aí!

Desceram. Honorina respirou um ar mais puro, sem poeira e fedentina, e melhorou.

Toca a jardineira. Tõe Carapina, com a garrafa da Providência no bolso traseiro, de vez em quando dava uma bicada para molhar a palavra. Soltava o verbo e ficava mais bêbado e chato, contando potocas e piadas sem graça e até inconvenientes. Ninguém mais tava agüentando sua conversa mole na parte traseira da jardineira, de pé e trocando as pernas.

Aí é que entrou a madama. Gente fina, com jeito de cidadã. Todo mundo viu. Sapatos de salto alto. Batom vermelhinho nos lábios. Bolsa das mais chiques no ombro. Vestido verde, longo e decotado. E um perfume!... ôta perfume! Daqueles que atraem qualquer nariz.

Madame, toda dengosa, com passo de veada e nariz arrebitado, não olha pra ninguém. E tava injuriada sentindo a capiauzada silenciosa de olhos pregados nela. Tõe Carapina, o bebum, de butuca e de boca aberta, foi seguindo a recém-chegada pelo corredor da jardineira. Acontece que a madame, ao fazer força para passar na catraca, se descuidou um pouquinho e deixou escapar um sonoro pum.

Todo mundo volta a olhar para a distinta, agora, com cara de surpresa e reprovação. Mas nem precisava. Ela já não tinha onde botar a cara. Vermelha como um pimentão maduro. Pum todo mundo solta, mas, assim, vindo de uma madame, ele tinha uma cor muito especial. Ela passa pela roleta, passa pelo Honório mais a Honorina e vai lá pra frente, sem nem olhar de lado, tonta de vergonha.

Mas voltemos ao Tõe Carapina. Passa também pela roleta e vem vindo meio cambaleante. Cai aqui, cai acolá... Senta no colo dum negão que lhe dá um chega pra lá. Aí vem pra bem junto da madame e, todo serioso, dá mais uma bicada na Providência e, meio consolativo, fala bem alto, pra todo mundo ouvir:

— Dona madama! Fica com vergonha não, tá? Hic!... óia, todo mundo peida, sá! Óia, motorista peida, cobradô peida, hic!... eu peido, aquela véia peida... hic!... fica com vergonha não, tá?

Madame não tinha onde colocar a cara. Honorina, quando viu ser citada como "aquela véia" que peida e os passageiros olhando para ela com cara de riso, não agüentou. Passou mal outra vez. Chamou o juca com todo o entusiasmo. Uma parte do vomitado lambuzou o vidro e a outra foi misturar-se à poeira da estrada. Honorina cutuca no Honorato e gunguna umas coisas tampando a boca com a mão. E o velho outra vez põe a boca no mundo:

— Pára! Pára! Pára aí, Vardino! A muié tá com pobrema de novo!

— Que que foi dessa vez?

— É que ela foi lançá e gumitô a dentadura!

— Foi longe?

— Não... foi bem ali acolá lá atrais! Dá uma macharré pa trais, dá Vardino!

Vivaldino engata uma marcha-ré na jardineira que volta sacolejando de má vontade uns cem metros.

— Pára! Pára, Vardino! Foi aqui!

Honorato desceu. Procurou a danada da dentadura tempão danado enquanto a Honorina ficou dentro da jardineira tampando, com a mão, a boca murcha. Depois de um bom tempo, volta o Honorato, meio triste e com cara de nervoso.

— Uai, Honorato, num achô a dentadura não?

— Uai, sô! Inté que achá ieu achei! Mas num é que a rodera passô in riba e ismigaiô ela?

 

 

 

 

Esmeraldo em estado interessante

Esmeraldo vivia à cata de emprego. Situação braba. Filhos passando fome, comendo do pão que o diabo amassou. Mas não desistia. Entre uma canjebrina e outra, recebia uma negativa de trabalho e ia em frente.

Até que um dia Esmeraldo faz concurso para merendeira na escola do Estado e é aprovado. Mesmo com os poucos conhecimentos que tinha. Só faltavam os exames médicos. Embora um pouco avariado, mal das pernas e meio perrengue, achava que conseguiria enganar o médico. Mas e os exames de laboratório? No Laboratório Cademicróbio deram-lhe uns vidrinhos para colocar as necessidades durante três dias seguidos.

Esmeraldo pensou... pensou... chamou a mulher:

— Ô muié, manda a Ritinha fazê as necessidade dela nos vidrinho! Ela tá fortona, já é grandona e sem doença... Aí eu passo nos exame, né?

Assim falou, assim foi feito. Urina e fezes da Ritinha foram levadas para exames de laboratório como se fossem do Esmeraldo.

No dia da entrega dos resultados, todos os que tinham passado nos exames estavam lá. Satisfeitos. Cada um rindo mais arreganhado do que o outro. Esmeraldo também foi. Agoniado, estranhando porque não chamavam logo seu nome. Foi aí que apareceu a enfermeira.

— Sô Esmeraldo, o dotô tá lhe chamano!

— Ahn?!... Ieu?... É pra já, dona moça!

Esmeraldo, cismado, carente, suando frio, fedendo bafo e com sovaqueira, entra na salinha do médico. Preocupação qui só. Olha cabreiro e perguntativo pro médico, doido pra saber o motivo de ter sido o único honrado com o chamamento doutoral.

— Estou espantado, seu Esmeraldo! Muito espantado! Já fiz e refiz seus exames, com vários testes, e dá sempre a mesma coisa!...

— Já sei, sô dotô! Carece cerimonha não! Levei pau, né?

— Acho que sim, meu amigo. Pelo menos o senhor está grávido!

Esmeraldo só teve tempo de levar as mãos à cabeça e exclamar antes do desmaio:

— Ai, meu Deus do céu!... Minha Ritinha!...

 

 

 

 

Novidades da Cidade Grande

João Geada. Velhinho roceiro. Morava no Pindura Saia, a umas três léguas de Santa Maria do Tabuí. Branquicento. Sistemático. Caladinho e trabalhador. E tinha que trabalhar muito, pois, na base do silêncio, conseguiu, com a sua Jandira, fazer quase uma dúzia de barrigudinhos. Tratar de toda aquela cambada não era fácil.

Certo dia velho Geada inventou de ir à capital. Visitar Bel'zonte vez primeira. Fazer umas comprinhas. Isso vinte ou trinta anos atrás. De trem de ferro. Achou tudo muito bom, muito importante, muito bonito. Cada predião danado. Povão medonho na rua. Uma carraiada de dar gosto. Tanto movimento que o velho Geada tava até ficando agoniado. Mas uma coisa deixou o nosso amigo muitíssimo impressionado: o picolé. Gostou exageradamente daquela pedrinha fria que derretia e que tinha um pauzinho enfiado no trazeiro. Chupou um, dois, uma dúzia.  De gostos e cores variadas.

— Ô trem bão, sô! Tem base não! Vô até levá uns pra Jandira e pros minino, uai! Imbruia uns vinte aí, ô moço!...

Saiu satisfeito com o pacote de picolés dentro de um saco, junto com uns troços que tinha comprado — açúcar, farinha de trigo e de mandioca, fubá e polvilho azedo — e foi pra estação pegar o trem. Viagem de mais de cem quilômetros. Deixou o saco perto da porta do carro de passageiros e procurou um cantinho pra se sentar. Queimou um pitinho, deu umas proseadas com uma velha gorda que o espremia no canto do banco e um coque na cabeça dum neguinho que pisou no calo do seu mindinho do pé.

Numa certa hora, João Geada resolveu dar uma esticada nas pernas e foi ver se estava tudo em ordem com o seu saco de bugigangas. É claro que os picolés tinham virado água, molhando tudo que tava no saco, derretendo até o quilinho de açúcar que viajava junto. Tudo melecado e a água melada escorrendo. Velho Geada entendeu nada. Ficou foi brabo. E mesmo sendo um homem caladinho e tímido, não levava desaforo para casa. Foi por isso que, fulo da vida, gritou pra todo mundo ouvir:

— Cambada de viado fedaputa ! Além de chupá meus picolé, inda mijaro no meu saco!...

 

 

(imagens ©david williams)

 

 

 

 

 

Eurico de Andrade é professor e jornalista em Brasília. Nasceu em Bambuí-MG. Procura registrar no papel as tantas e tão boas histórias/estórias que o povo conta. Aguarda um editor para publicar seus livros.