©david muir
 
 
 
 
 
 
 

Nossos mortos estarão sempre conosco. São parte da herança que nos cabe em meio ao desatino de viver.

 

Quando ergo a mão, trazendo-a até o rosto, e faço os dedos correrem pela sobrancelha, mal terminado esse gesto, lembro que ele não me pertence, pois o aprendi com meu pai, acostumado a repeti-lo em seus momentos de preocupação.


O odor de fumo que se desprendia de meu avô materno, o desenho de sua nuca, no qual prestei atenção certa noite, quando, ainda criança, sentado no banco de trás do carro, fomos buscá-lo na Vigorelli, seu olhar de imutável bondade, todos esses tesouros trago comigo, repetindo a mania infantil de carregar os bolsos do calção cheios de bolas de gude, figurinhas, balas e, lá no fundo, a flor murcha, colhida ao voltar da escola para oferecê-la à minha mãe. Um dia, eu talvez repita também o sorriso torto desse avô, naquelas tardes em que, condenado pelo derrame à poltrona da sala, ele nos recebia com um alegre palavrão, enquanto cruzávamos a porta da casa humilde na Colônia.


As mãos e os braços de minha bisavó paterna, apoiados à grade de seu sobrado na rua do Rosário, acompanhando o vaivém das pessoas, pronta a criticar os políticos, sua voz arguta, metálica como o cinza-esverdeado de seus olhos — tudo ainda vive em mim, ecoa em todas as palavras, em cada parágrafo desta crônica.


Somos apenas memória, nada mais. E esta herança que nos molda, muitas vezes sem darmos conta, já pertence a outros, já se repete nas escolhas de nossos filhos, na voz do amigo íntimo, na súbita tristeza da mulher que, vivendo há anos conosco, tornou-se parte de nós.


O modo de sentar à poltrona, a ênfase que concedo às palavras, o sono que chega ao entardecer, a festa de observar a lua cheia erguer-se entre as nuvens, libertando-se da silhueta dos prédios, a maneira de meus pés deformarem os sapatos que acabo de comprar, tudo é apenas memória.


Mais fortes que o altar dedicado aos antepassados, no qual o incenso queima diante da estatueta do Buda sorridente, mais intensos que os fantasmas reencontrados no sótão do sobrado, altivos, pálidos e silenciosos em sua marcha de abandono, os que morreram estão vivos nesta unha encravada, pois não a aparamos como nos ensinaram na infância, na calva que se desenha lentamente, enquanto nosso fim se aproxima, no timbre de nossa voz ao gemermos de prazer ou pedirmos desculpas. Nada nos pertence inteiramente. Nada começa ou termina em nós. Somos apenas um elo frágil na cadeia cega da vida. Nada mais.




[Publicada, originalmente, no jornal Bom Dia Jundiaí, em 8 de dezembro de 2006.]

 

 

 

 

março, 2007

 

 

 

 

Rodrigo Gurgel é escritor e editor. Escreve resenhas críticas para o Rascunho e é cronista do jornal Bom Dia Jundiaí. Edita o blogue Rodrigo Gurgel.
 
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