O Valor do Poema

Armindo Trevisan

O livro de poemas de Cláudio Portella obriga-nos a refletir sobre a função da poesia numa sociedade como a nossa, em que - no dizer do conhecido historiador da arte pré-histórica, André Leroi-Gourhan -, as rações emocionais do grande público são produzidas por uma minoria de comunicadores de massa. O individuo, diz ele, se dispensa de pensar e sentir. Tal autodemissão da sensibilidade e das reflexões pessoais acaba por empobrecer as pessoas, já empobrecidas pela concentração de renda, e por outros fatores conjunturais.

Portella parte de si mesmo, de suas vivências pessoais. Não as superestima, nem as minimiza. Tenta extrair delas lições de vida e até mesmo... "lições de abismo", no sentido de que se ocultam verdades explosivas debaixo de fatos aparentemente triviais. Que ele se sirva até mesmo do deboche para denunciar a hipocrisia das relações sociais, é compreensível. Vivemos numa sociedade que tende para a baixaria. Daí, também, o toque de ironia presente na maioria dos seus poemas. Não é, a rigor, uma ironia de alguém que vê as coisas "por cima"; o poeta não se exclui da crítica que ele mesmo faz. Sob esse ângulo, podemos dizer que sua abordagem é simpática. Retoma um gênero que procede das cantigas de escárnio e maldizer, passando pelos achados e exageros de Bocage e Nicolau Tolentino, desembocando no poema-piada do Modernismo. Em tudo isso, cumpre ressaltar a inegável originalidade do poeta, que se relaciona com Leminski e outros autores da mesma estirpe. Portella anda, às vezes, sobre uma corda bamba, a um milímetro do clichê jornalístico. Nos seus melhores momentos, porém, ele não só se salva de tal perigo, como nos surpreende com composições maduras e convincentes. Na minha opinião, um dos melhores poemas de Entorpecentes é Fotonovela. Há outros poemas notáveis, como O Desinteresse de Francis Ponge ou A Forma de Tirar o CD e Pôr o Vinil.

A leitura do livro de Portella deixa um sentimento curioso no leitor: o de que o poeta, que é no fundo um lírico inato, não quis revelar-se como lírico. Preferiu disfarçar-se num jogral divertido, zombeteiro e até ferino. Talvez seja esta a maneira de ele afirmar que os sentimentos humanos não são mercadoria barata. Talvez seja esta uma forma de humanismo às avessas.

Vale a pena dedicar atenção aos poemas de Portella. A sua autenticidade e a sua consciência profissional o tornam merecedor de leitores.