O Caminho
Os pés descalços,
Impermeabilizados pelo sangue,
Feridos e impotentes.
Como as folhas de outono
Ou o brilho da primavera.
A saudade o permeia,
O contradiz, o emputrece.
O caminho sem volta,
A plenitude do olhar
Inóculo e obscuro
Das pedras do caminhar.
Incrédulo
Vejo a noite pela janela
Como quem vê o envelhecer da alma.
Observo a calmaria,
O choro dos infelizes,
O brilhar da madrugada,
O sopro no olhar
E não vejo ninguém.
A TV não sintoniza,
O rádio já não fala,
O cérebro não mais pensa.
A luz da vela me atrapalha.
México, Israel,
Palestina, Iraque.
Já não tenho mais notícias,
Já não me importo mais.
Estou cego, estou surdo.
Em que me transformaram?
O que eu me tornei?
Já não entendo mais.
Fecho os meus olhos...
Adeus
Escriba
O que esperar
De tintas e pontas
De pena num papel
Que não se pauta
Como num pensar,
De olhos mordazes
E pétalas de orvalho
Caídas em vinho
Cor de sangue
Nas pálpebras
De um brindar?
O levantar de um gole,
A dor maleável,
Que se torna tênue
A um diáfano olhar.
Pétalas Negras
Oh pétalas negras
De rosas deslumbradas
Víis ao delirante crepúsculo
Que permeia o teu olhar.
Fazei das palavras
Uma arma, como a poesia
Que distrai os fósseis olhares
Caídos e cobertos de sangue.
Corroídas palavras,
Nebulosas mentes
E tempestuosas mãos.
Guardai os sentimentos do mundo,
Fazei a súplica do amor,
Tornai verossímil a nossa alma.
...
Há dias difíceis
Desenhados no percorrer
Das lágrimas
Que vão de encontro ao peito.
Nos linfáticos olhos,
Coração lacunar,
Pensamentos fluidos.
No esmaecer das horas,
A lua permeia o olhar,
A chuva umedece
A estrada vazia
E o caminho cheio de dor.
Sem título
Meus olhos estão tristes.
O vermelho do sangue
Parece névoa a neblinar
Caminhos opostos,
Horas desiguais.
Não tem para onde seguir,
Nem para onde olhar.
A escuridão me devora,
O chão se abre
E as tormentas soam.
Ouço a canção mais bela,
O som do escuro
O som do nada
O som da morte
O som do silêncio.