E V E N T O

 

tome um aquário,
recorte
a nudez —
frase que se inunda
de não-água

 

na pressa
se inscreve
— em líqüido —
o flagrante sem peixe, 

  

o estranho de ser fogo
e o resultado dos hífens

 

tome o desenho
da tocha,
que combustão
se há de

 

 

 

 

 


D E S E N H O

 

cabras dançam rotas verticais
     
a crosta da montanha 
contorna metonímias

 

a lápis crayon,  a
sombra sobre o
pêlo, sobre a pele
na espessura de um ensaio

 

que a luz teça a hipótese da
sílaba, — e o prisma ondulado
se consume

 

algum teor de amido
se estenda
                                       
nas bordas do bunker:
a tentativa de vôo
para a inexistência da asa

 

 

 

 

 


Á R I A

 

roçar o ambíguo,
impróprio
ludo provisório
(todo)

 

para erigir
o gene fricativo,
resinas e desvãos

 

suma do solo
em planície
imberbe

 

no linho da franja,
captar a jato
um tropo

 

colorir crustáceos
a bico de pena  ou
(re)digitá-los,
sóbrios

 

conectar a ilha,
palha no dedo, maçã

 

madeira para flauta,
cântico e raiz

 

tema para sopro,
pedra de fonema

 

 

(imagens ©paul taylor)

 

 

Beatriz Helena Ramos Amaral (São Paulo, 1960). Bacharel em Direito pela USP, em 1983, e em Música pela FASM, em 1985, estreou em literatura em 1981, com o romance Desencontro (Ed. do Escritor), obra adotada em vários colégios para análise literária. Publicou, depois, os seguintes livros de poesia: Cosmoversos (Ed. do Escritor, 1983), Encadeamentos (São Paulo: Massao Ohno, 1988), Primeira Lua (São Paulo: Massao Ohno, 1990. Haicais, em colaboração com Elza Ramos Amaral), Poema sine praevia lege (São Paulo: Massao Ohno, 1993), Planagem (São Paulo: Massao Ohno, 1998), Alquimia dos Círculos (São Paulo: Escrituras, 2003), Luas de Júpiter (Belo Horizonte: Anome Livros, 2007. Em 2002, publicou o ensaio biográfico Canção na Voz do Fogo (São Paulo: Escrituras), focalizando a trajetória artística da cantora Cássia Eller. Beatriz Amaral coordenou, na Secretaria Municipal de Cultura, em 1994, o ciclo "Clarice Lispector — 50 anos de estréia", em 1996, o ciclo "Poesia 96" e, em 1997, "Visualidades, Sonoridades, Movimentos da Poética Contemporânea". É Promotora de Justiça do Estado de São Paulo. Teve poemas premiados no Concurso Vinicius de Moraes (1985), no Concurso de São José dos Campos (1994) e obras jurídicas premiadas no Concurso Melhor Arrazoado Forense, promovido pelo Ministério Público, em 1991 e 1992. Desde 1996, pertence à Diretoria da União Brasileira de Escritores – UBE/SP, tendo sido Secretária-Geral da entidade no biênio 1996/1998. Em 2005, obteve o grau de Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP. Tem resenhas, ensaios, artigos e poemas publicados em várias revistas e jornais (Folha de São Paulo, Dimensão, Zunái, A Cigarra, O Escritor, Ângulo, Revista da Biblioteca Mário de Andrade, entre outros). Tem participado de exposições de poesia e realizado leituras poéticas com o citarista Alberto Marsicano. Mais em sua página pessoal..

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