A DANÇA

 

Isto aqui é música: você tem

que arrancar do vento um jeito

de fazer o pensamento dançar, corpo

vagando congelado

sobre a superfície, a fina membrana é uma blindagem

branca, protege você

do mistério

e aí se pode ler 'vazio, plenitude,

entreposto, cais

de rejeitos, entropia, qualquer

coisa'. Isto aqui é música, o pensamento

tem que dançar com seus sapatos

cinzas até que apareça

uma rasura na pele

do mistério que seus olhos

estão tocando neste instante, esta

aí, em suas

mãos, e isso seja roteiro,

mapa, acesso

ao que vibra em suspensão, como se respirasse,

muito além da fronteira

dura.

 

 

 

 

 

 

FALADO

 

não deu pra fazer o retrato falado do mundo, meu amor

 

retirando as escamas da imaginação (repara o brilho

de prata, fugidio, antes de mergulhar

na sombra, sem a menor possibilidade

de sonho) sobrou esta substância

informe, espessa e sem mágica

que a gente depois pendura em ganchos

nos incêndios sucessivos (onde quem se queima

somos nós) das palavras.

 

 

 

 

 

 

35. (das 'Notas marginais')

 

Até parecem normais estes dias

atravessados por índices, deslocamentos de rotas, planos,

conversas à mesa, canções antigas,

retratos, desafios, mas

você está solto no mundo, caçador

em desamparo na selva

de antenas ('no meio do caminho', ele disse), interrogando a noite

que contabiliza desastres no seu curso,

e aí, neste hiato, percebe em toda órbita

uma ficção

que sua solidão engendra, nas horas expectantes,

na sua urgência de ritmo

e, diante da impossibilidade de poesia,

resta colecionar imagens do pavimento em sobressalto,

este aí, o mesmo

que seus pés agora estão reconhecendo

numa carícia bruta, lenta,

surda, recorrente.

 

 

 

 

 

 

37. (das 'Notas marginais')

 

Instantes de maravilha que você captura, vertiginosas

lâminas de tempo em suas mãos, você não sabe o que fazer, seu dia

se perde no lixão que vaza dos calendários, cemitérios

de dejetos, ferros-velhos — mas a História

não acabou, nem a sua, se debatendo contra a pedra

(particular, intransferível) que obtura o peito

opresso sob a chuva fina e ácida do pensamento. Pensar,

pensar com os olhos

frios, enquanto na retina

se inaugura o caminho novo sob os mesmos

pés de ontem, de

anteontem. No limite

da fissura.

 

 

 

 

 

 

81. (das 'Notas marginais')

 

Mundo estranho, miragens

em movimento sob o sol

natural, vasto mundo plano

e você deu tantas voltas ao redor

sem perceber qualquer falha, seguindo

sem cosmologias no universo

circunstancial, acidental ("se calhar,

se calhar", alguém disse), restando

amorfo como este século de luzes

intermitentes, ou como quem errou

de endereço indo ao lugar

certo, ou devorando miragens

à margem de todo sentimento,

em larga escala, em alta

rotatividade, ou bancando

um vinho forte para cada alma

que sobrou dentro de sua cabeça

depois da grande

explosão.

 
 
 
 

AMOR AMOR

 

derramo assim em sua boca

lábara palavra líquida ardente lava espessa ao fim

luminescente rum leite de sílabas sabor

de duro travo um pouco amarga

eu sei você diria

mas não que apague o último sorriso

e o que me capta o olhar

em que se foram enfim

se foram

lábia de constelações na sua boca

acende

 

 

 

 

 

 

ANTES DA TREVA OS NAUFRÁGIOS,

 

angras retinas onde

em mim sangra a neblina in-

tensa em que a noite ancha

se inclina

ao brilho fátuo (sobre) de outros olhos-mina

de estrelas-lumes

(mira) onde sobejam

escolhos

luz artificial (intrusa) sob a (mesma) neblina

oscila

 

 

 

 

 

 

(LÁ) DENTRO

 

em ti retinam sombras

e a luz-espaço

entre a razão já deslocada

a um deslugar onde há

esperas todas desarrumadas esperas

ilícitas azuis

faustas esperas burilando outras

esperas desmesuradas e

ásperas assim

assim

esperas

 

 

 

 

 

 

EXISTIR
 
séquito de naus (súbitas naus) de rizes esporadas a pro-

mover o arresto

inapelável arresto malgrado todo zêlo

e o orbitar da coleção de coisas

despiciendas

 

 

 

 

 

 

ANTES DO APOCALIPSE

 

ao que de dentro da névoa retorquiu

mínimo
impenetrável
o Afogado:

"já não me cripta mais

o que te acende num meio dia de sombras devastadas

onde plantavas simetrias da Verdade

e eu

lívido arauto das estrelas frias

fixas ancestrais orava incréu ao vento peregrino:

ensina-me a passar

ensina-me a passar" 

 
 

 
 

CARNE DE PESCOÇO

 

Me ancoro na Virtude, amo o Vício

e o Caminho já não me captura.

Perdi o senso e ainda que sentisse

o mal na pele, ao largo da Ventura,

contra a Natura e em franco desespero

barganharia um tácito armistício.

Largo a Fortuna, a previsão, o esmero,

e ando sorrindo aos cravos do suplício.

De fato, em nada mais eu acredito

e, assim, destilo em gotas a ironia

— quer no sentido lato, quer no estrito.

Recolho as armas, ponho o meu pijama

   e vou sonhar com a Musa, esta vadia,

   que (há muito tempo já) não mais me engana.

 

 

 

 

 

 

TRAJETO

 

Entrar (, violento, abrupto como cápsula

de metal, nave que incandesce enquanto

cai no ar denso, metáfora brilhando

rubra na escuridão do céu, diáspora

em que não se sai, antes se mergulha

no nada até rebentar no chão qual

semente e, assim, germinar) no real,

cair (, precipitar-se numa fuga

pelo abismo, voluntário mau passo

no vazio, deixando o chão que o arranha-

céu alçou, artificial e estranha-

mente, ao antes impossível espaço

   dos pássaros, verter-se até o fim

   como quem não vai se encontrar) em si.

 

 

 

 

 

 

MANDALA

 

Como um cachorro amarrado a um poste

por seu dono, como um cachorro preso

à trilha circular onde há um mesmo

rolar das horas até que o estoque

do tempo esgote, no fim, pulando casas

como um dado fadado a uma roleta

já viciada, assim como a cabeça

na vertigem de orbitar desusadas

trilhas, pela emoção mortal do salto

no abismo, e como se ainda voltando

a de novo saltar e ali querer, nos

círculos infinitos (quando calmo),

   apagar o sentido dispersando

   quintessências no quinto dos infernos.

 

 

 

 

 

 

NO ALÉM DO LABIRINTO

 

'Agora o mar, um útero, me aguarda

gelado, e o choque logo transformado

em asfixia ( e dela, num só passo

áspero e rápido, ao balé que as algas

fantasmagóricas desenham na água)

não assusta, nem antes o sol claro

contra o azul infinito recortado

com seu halo, nem a visão das vagas

e das terras ao longe que eu tanto

quis um dia conhecer, nem a brisa

que do calor do sol me distraía'.

Tudo isso pensava ontem quando

   olhava seu rosto e algo me vinha

   do futuro, num susto, e você ria.

 

 

 

 

 

 

CIRCUNSTÂNCIA

 

Você não vem novamente. Alegou

desta vez a chuva intermitente há

dias persistindo sobre os telha-

dos da sua cidade e da minha. Sou

refém de um animismo primitivo

e me queixo às coisas quando, em repouso,

penso dizerem verdades que ouço

e simulo crer, como no destino

ou na maior parcela das pessoas:

é uma solidão este tumulto

que me ladeia. Em vão, frente à arisca

face do amor, quero o abismo e todas

   as suas vertigens, filme inconcluso

   onde estou só, sem luz, sem roteirista.

 

 

 

 

 

 

NO ESPELHO

 

Se você tem algo, de fato, a escrever

sobre o tempo, perceba que ainda uma outra

vez ele passou de vez sem que você

soubesse que a chance de dizer as poucas

coisas que lhe foram caras, na esperança

vaga de que tais palavras sustentadas

pelo poema possam, na sua dança,

tatuar em outro corpo a mesma marca,

está perdida: o mundo segue algum

desvio, desesperos portáteis, vãos,

gomorras sem o olhar de um deus, distopia

e corrosão do século vinte e um,

   dessublimações, falsa anunciação

   que lhe afunda em soul, sexo e melancolia.

 

 

 

 

 

 

MARÍLIA DE DIRCEU, HEIN?

 

Eu dei a ela todos os fracassos

da minha biografia inconclusa:

ela não tinha vocação pra musa

e eu de poeta quase nenhum traço.

No entanto, me persegue uma confusa

voz, que pelo soneto erra o compasso

e troca as pernas entre os erros crassos

que ancoram nesta página obtusa.

Eu dei a ela os vacilos que eu dava

e ela só me deu — zangada — um prazo

(ah, quanto estrago em minha corda bamba)...

No fim, cansou de ver que eu não mudava,

   me pôs de vez pra fora do Parnaso,

   saiu batendo a porta — e foi pro samba.

 

 

 

[imagens ©paulo lacerda | balé 22 segredos, palácio das artes, bh]

 

 

 

 

 

 

 

Aldemar Norek (Rio de Janeiro/RJ). Poeta, letrista e arquiteto, nem sempre nessa ordem. Escreveu uns três, quatro ou mais livros de poesia (Notas Marginais, Circunstância, No lugar onde você está, Aproximações, etc.), entre outras inutilidades. Nunca publicou. Tem muitos fracassos em sua biografia, mas não gosta de falar disso e, além do mais, não é a melhor pessoa para falar de si mesmo.
 
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