Lâmina-só

 

 

— Um poema?

— Feito a fé de Kafka...

— A fé de Kafka?

— Sim. "Uma guilhotina, tão pesada, tão leve".

— ...

— E pronto para fazer desabar num átimo os mais sólidos pontos de vista.

 

 

 

 

 

 

Luz do chão

 

 

ao poema que pede

tuas pernas só pra quebrar

e tuas inefáveis penas

idiossincráticas

 

dá a indecorosa intercorrência

da escassez mundial

de cores

 

dá o que falta ao poema

consistência de matéria de coisa chã

ou de vento ar: que é a coisa mais concreta e mais azul

 

lembra-te, poeta:

contra as certezas aéreas do poema se ergue a espinha

de sísifo

da diarista

que brande derrota dia após dia pela porta

dos fundos

 

ao poema extremo e mínimo

repórter do desvão bolorento do privado

coração elíptico dos modernos comendadores

dá então aqueles

roteiros roteiros roteiros

e a bulha infernal da estação

às fatigadas horas de sol

e a afásica carne de engrenagens

de ferruginosa luz do capital

 

dá a opressão sempre literal

sempre feita

de tétano e cortante lata

contra o poema empalhado

 

ouve, então, (o poema ouve, não duvides!) alguém

ouve a meio da rua ou dentro do corpo:

"vai lá, mata ele, mata bem, mata todo, lincha bem".

 

 

 

 

 

 

Golpe de dados

 

 

A noite é leve

a noite é púbere

a noite (e seu tempo)

breve de ar

flutua

até

que o destino (ou o diabo)

lança de longe peras, caroços de pêssego,

nódulos de dor e perigo e pedras no seu peito

macio de noite, de feminil areia, de princesa negra;

glóbulos de peso de planeta, de massa de relâmpago.

 

Rasga-nos, então, suja e incendiária

pelas costas (mas necessária, material),

outra face da vida, em lâmina velha,

cega e branca,

enquanto buscávamos,

na lua, nas estrelas, na luz, no breu,

cheirar os cabelos da felicidade.

 

 

 

 

 

 

Fotografia de família

 

 

Se quisermos, é descer à escuridão.

 

À mesa, diante de retratos,

algo denso, imenso peso,

a contundir a carne fantasma da esperança.

 

Vir dali pra cá do tempo,

boeing elefante e asteriscos de fogo,

o movimento entre o vime: violência.

Estourar da moldura. Evaporar de amor.

 

Apavoro.

 

Para onde fomos, retrato, após?

E que é destes mortos de tinta, que gravitam bêbados

o sol turvo da inconsciência?

 

 

 

 

 

 

Dicotomia

 

 

O corpo:

cápsula de angústia

em que o tempo ganha

forma.

 

A alma:

válvula de escape

em que o tempo foge

da forma.

 

E eu lá no meio, sem dialética, sem saber que diga ou faça!

Joelhos e sonhos no milho da dicotomia.

Corpo de castigo, dividido; alma fechada, a céu aberto.

 

 

 

 

 

 

Porto seguro contra um futuro incerto

 

 

O dinheiro nunca dorme

Seu ser sem miolo

Estira os olhos bem abertos

Sobre a carne dos homens

Sobre o espírito das coisas

 

Nunca dorme o dinheiro

Alerta a sua alma vaga

Poética sem palavras

Escava os cantos do mundo

Com mil membros eretos

 

O dinheiro nunca dorme

Bate o seu felino coração

Seu léxico de platitudes

Reverbera ódio e fascínio

Seu vampiresco beijo persuade

 

Nunca dorme o dinheiro

Massa bruta sem sombra

Seus dentes de divino metal

Roem e massacram o tecido da vida

Viram as vísceras das nuvens e do devir

 

 

 

 

 

 

A flor e a crise

 

 

o vestido verde o melhor

já não é tão bom assim

 

o hábito de esconder-se

assimilado pelos calçados 

também exauridos de nãos

 

os currículos anseiam a liberdade

do lixo ou da fogueira ou do desdém 

 

o corpo de fêmea é qualquer coisa leve

oscila sombra entre automóveis

portas e mais portas não se importam

 

ser dócil e duro entregue à duradoura

busca que é busca e mais busca

 

há um pensar de pura carne e

ao meio dia ninguém chamaria

esta fome de existencialismo

 

morangos, poemas e açúcares mofaram

numa boca que arfa e não se diverte

 

mas atravessa vermelha e brava

a cidade que anoiteceu sem luar

sem estrelas em desatino mercadoria

 

 

 

 

 

 

Verso

 

 

Ficar com aquele

que se perdeu,

solto sopro, luz e líquido,

potro entre os dedos abertos,

onde trêmula vive a idade.

 

Ficar com aquele que é vão,

é vida pura energia grito

cicatriz no chão exposta vida;

o cântico chinfrim da queda.

 

Ficar com a plástica suja,

Enérgica, da matéria monetária,

o cheiro quente, úmido, doído,

de coitos luciferinos,

de costas exfrutadas,

de dores negras e atavios.

 

Dizer o que o ouvido

receita, reclama

e rejeita

vindo de dentro do próprio

corpo dos tambores de dentro

do navio negreiro do mundo.

 

 

 

 

 

 

Desejo de setembro

 

 

que assim fosse

outra vez

meu coração:

 

a mera ameaça

de chuva

basta

para a grama secretar

sua verde obsessão

 

 

 

 

 

 

Garça

 

 

forma-linha

isenta do caos

eis a garça entre desgraças

alva entre o verde

das garrafas de guaraná

no raso do Lago

Paranoá

 

estranhada dos eco-problemas

como um poema pós-utópico

ela finca sua magra e bela pobreza

sua magra e bela bandeira

branca de puro mastro

 

infensa ao futuro, ao presente, ao passado

mas não talvez à História

sua frágil altivez é...

 

...é o que deu pra arranjar

para corrigir um pouco o curso

e o ranger

da destruição

a que chamamos civilização

 

                  

 

 

 

 

 

 

 

 


Alexandre Pilati nasceu em Brasília, em 1976. É poeta e professor de literatura brasileira na Universidade de Brasília (UnB). Publicou os livros de poemas sqs 120m2 com dce (2004), prafóra (2007), e outro nem tanto assim (2015) e Autofonia (2017). Mantém a página www.alexandrepilati.com para a divulgação de seu trabalho na literatura.