A poesia de Adriano Wintter é um desafio e ao mesmo tempo um elogio à sensibilidade e à inteligência do leitor, a começar pela linguagem de que se serve: palavras aparentemente soltas, irregularmente espalhadas no espaço da página, nenhum sinal de pontuação, nada que se assemelhe a (ou tenha a aparência de) frases, orações, períodos guiados pela boa lógica. Desafio e elogio: as frases, as orações e os períodos aí estão, camuflados, e o leitor saberá encontrar a lógica não ostensiva que os articula. Com isso, caso já não o soubesse, descobrirá que a "boa" lógica é sempre unilateral, quando não falsa.

Exemplo: Ágrafo, título de seu primeiro livro, é o que não dispõe da escrita para se expressar. Mas resta saber se, no caso, estamos diante de uma falta, porque a habilidade da escrita ainda não foi adquirida, como nos povos primitivos, ou diante de um excesso: a escrita dominada com uma desenvoltura tal que nos convence a dispensá-la. O título é uma chave certeira para a sua decifração, e deve ser lido à luz da "dialética negativa" de que fala Adorno: "ágrafo" e simultaneamente "não-ágrafo". O que se escreve, o que não pode ser escrito e o que se desiste de escrever — tudo reunido numa só palavra. Mas escrever "ágrafo" já é aceitar o domínio da forma escrita. Por isso o poeta afirma, logo de início: "falar / é atar faltas / à palavra". Mais explícito ainda: "o absoluto / não tem voz / nem traço / é ágrafo".

Esse "absoluto" é outra chave, decisiva. O leitor certamente estará à procura de algum sentido, alguma lógica, para o que em princípio lhe aparece como enigma indecifrável — "partes sem um todo", como diz, da Natureza, Alberto Caeiro. Mas o poeta adverte: não faça concessões, não se satisfaça com pouco, não aceite o primeiro sentido, a primeira lógica com que se deparar. Jamais desista do "absoluto", procure-o com afinco, mesmo sabendo que talvez não o encontre nunca.

Para isso, Ágrafo se oferece como quebra-cabeças, pedaços e fragmentos que precisam ser reunidos para que formem uma figura. Ao contrário, porém, dos quebra-cabeças convencionais, que só exigem um pouco de paciência, este pede que suas partes sejam reunidas de várias maneiras, a fim de que venham a formar não uma, mas muitas figuras, todas procedentes e válidas. Aí não dependerá só de paciência, mas também da inteligência e da sensibilidade do leitor, convidado a participar do enigma não como decifrador, mas como coautor.

Equivale a pôr os pés, de repente, numa cidade estranha (não estava no roteiro, não temos nenhuma informação a respeito) e simplesmente sair caminhando. Aceitar o desafio de enveredar por suas ruas, praças, becos e avenidas, sem rumo, sem destino, apenas pelo prazer da aventura, pelo fascínio do desconhecido, pela indescritível sensação da expectativa. Há um risco, é verdade: cidades desconhecidas podem esconder perigos, ciladas e armadilhas. (A poesia ágrafa também). A excursão previa, depois de percorrido o roteiro todo, voltar para casa, para a familiaridade e a segurança do já conhecido. O que fazer, então, quando nenhum roteiro nos guia? Apenas isto: enfrentar o desconhecido. O pior que pode acontecer é desistir de voltar para a tranquilidade da casa, deixada no ponto de partida, e ficar por lá, porque de repente encontramos o que procurávamos, sem saber que o procurávamos: a essência que se esconde além do que as palavras conseguem dizer, a beleza absoluta com a qual já nem sonhávamos.

Ágrafo, didaticamente, ensina: não vale a pena "encontrar" o que você já sabia que estava ali, à sua espera; não vale a pena montar o quebra-cabeças sabendo de antemão que uma e apenas uma figura vai ser composta. Só o que vale a pena é multiplicar os caminhos e as possibilidades, para que as muitas figuras apareçam, na medida do seu empenho.

E o leitor não estará sozinho, entregue à própria sorte. A linguagem do poeta, com o brilho das suas associações inusitadas, servirá de guia:

 

o mundo empurra

o eu

do poeta

para

o abismo

[...]

o verso

é um compêndio

de quedas e gritos

[...]

clara adaga

de ágatas

no corpo

das sombras.

 

Os roteiros são muitos, já sabemos, e podemos dar um exemplo. As sete partes que compõem o livro parecem desenhar um caminho que em tudo se assemelha a um enredo convencional, com começo, meio e fim. Primeiro, a descoberta da palavra ("a mais inocente e a mais perigosa das dádivas", como diz Heidegger); depois, com ou sem a ajuda da palavra (ágrafo e não-ágrafo), a busca de um sentido, não só para esta ou aquela, mas para todas as coisas; no apogeu da trajetória, o encontro do único sentido absoluto oferecido à criatura humana: o amor; em seguida, a lembrança da morte, a consciência da inexorável passagem do tempo, que leva a concluir (mais um erro): "o amor é inútil", "nunca houve amor"; por fim, o ciclo se cumpre, a vida e o amor renascem, eterno retorno:

 

junto aos cabos do amor

e às cordas da aurora

eu subo ao círculo azul

do recomeço.

 

Esse enredo tem seu ponto culminante — o encontro do amor — na terceira e na quarta partes, intituladas respectivamente "Laudes corporais" e "Os poros revoam". Aí temos o retrato da mulher amada, feito de flashes rápidos, fulgurantes, como este: "é beleza / a bala / que a pele dela / dispara". Tal retrato percorre todas as partes do corpo feminino e vai da "curva sísmica da tua face" (o poeta agora se dirige à mulher) até "a rosa selvagem do teu calcanhar", passando pelo

 

oásis silente do teu ventre

onde dançam nuamente

caravanas de sedas

e tribos de lírios

ensolarados.

 

Mas, diferentemente do caminho proposto pelos grandes retratistas da Renascença (de cima para baixo, do Céu para a Terra, do espírito para a matéria), as partes do corpo feminino, em Ágrafo, vão aparecendo em desordem. O olhar do poeta vai e vem, às vezes de cima para baixo, mas também de baixo para cima, pois sua meta é compor um retrato que permanentemente se refaz, sempre outro, mas sempre igual a si mesmo. Como a vida.

Se o leitor ler ou reler Ágrafo à luz desse esboço de roteiro, não terá dificuldade em reconhecer e aceitar algum sentido, alguma lógica para a figura que então se forma. Mas que isso não o iluda, o enigma ainda não foi decifrado, estamos longe do absoluto. Tal roteiro é só um, dentre vários possíveis, exatamente à espera de que o leitor os explore, colaborando para que outros sentidos e outras lógicas aflorem à superfície da escrita. Assim é Ágrafo, poesia de notável qualidade.

 

São Paulo, janeiro de 2016.

 

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Prefácio do livro Ágrafo, de Adriano Wintter

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dezembro, 2016

 

 

Carlos Felipe Moisés, ex-professor de Literatura na Universidade da Califórnia (Berkeley) e na Universidade de São Paulo, é poeta (Noite nula, Disjecta membra), ensaísta (O desconcerto do mundo, Frente & verso) e tradutor (O poder do mito, Tudo o que é sólido desmancha no ar).

 

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