Kabal

 

 

"Fode".

A pergunta era quase sempre feita com um pequeno gesto, geralmente a leve inclinação de uma sobrancelha, mas às vezes podia ser a contração de um dos músculos da face ou mesmo um jeito de olhar. A resposta, sempre sumária, categórica:

"Fode".

"Não fode".

A depender da garota que suscitara a pergunta.

Kabal era assim, uma espécie de Sherlock Holmes do cabaço. Olhava pra qualquer garota do bairro e após alguns segundos era capaz de dizer se ela fodia, se ainda era virgem ou se "já brincava".

"Não fode. Mas brinca".

Brincar significava que a garota apesar de ser virgem já era iniciada na arte do boquete. Claro, não era preciso dizer que ela também batia punheta, isso ficava subentendido. "Quem pode o mais, pode o menos", dizia Kabal, citando algum advogado.

Eu sempre ficava impressionado. Tinha 13 anos e Kabal era um deus pra mim. Ele tinha 18.

Quando voltei ao bairro onde cresci — que se chama Tibiri e a história que se conta sobre isso é que essa palavra significa "foder por trás" em alguma língua indígena e que tem esse nome porque certa vez uns franceses chegaram nela guiados por um índio e ao darem de cara com dois outros índios, um dos quais enrabava o outro atrás de uma árvore da terra que se estendia diante deles, gritaram C'est quoi ce bordel?, que é como se diz Que porra é essa? em francês, e o guia respondeu, apontando e pulando de felicidade: "Tibiri! Tibiri!".

Os franceses devem ter interpretado que ele se referia à terra e não ao ato dos sodomitas, e o lugar acabou adotando esse nome.

 Então, dizia, quando eu voltei a Tibiri para visitar meus pais, que ainda moravam lá, fiquei sabendo por acaso que Kabal estava no leito de morte. Fazia mais de vinte anos que eu não via Kabal ou falava com Kabal ou mesmo pensava em Kabal, mas saber que ele estava para morrer me fez passar o dia inteiro pensando nele e em nossa adolescência.

"O que ele tem?".

"Ou drogas, ou AIDS".

Kabal era o tipo de cara que hoje costumam chamar de pegador, mas que na época chamávamos apenas de garanhão, porque transava com muitas garotas e depois não dava a mínima pra elas. Kabal fazia isso para deixá-las ainda mais loucas, o que funcionava muito bem, e não havia nenhuma em Tibiri que não conhecesse Kabal.

Não lembro como nos conhecemos, nem como começamos a andar juntos, mas tenho a impressão de ter sido na escola ou de eu ter feito algum favor pra ele, dado um recado a alguma garota ou algo desse tipo. Foi nessa época que ficamos amigos. Andar com Kabal fazia com que eu me sentisse o cara, e ele me ensinou muitas coisas sobre como pegar uma garota de jeito, como falar com uma garota ou como ignorar uma garota ou mesmo como se comportar diante delas.

Nessa época eu também desenvolvi uma espécie de obsessão para saber se essa ou aquela garota era virgem ou não, e foi então que descobri que Kabal tinha as respostas, bastando apenas que eu apontasse ou mencionasse uma garota para que ele me dissesse qual era sua condição cabaçal. Foi com tristeza que certa vez ouvi um peremptório "fode" ao apontar para uma garota pela qual estava apaixonado e Kabal percebendo o que se passava me disse simplesmente para cair fora e tirar aquela puara da cabeça.

Puara era uma de suas palavras favoritas, e quando ele usava significava não apenas que a garota fodia, mas que fodia muito e com qualquer um. Fiquei triste, mas segui seu conselho. Eu sempre seguia os conselhos de Kabal.

Kabal se apaixonou uma vez por uma garota mais velha chamada Ana, o que deixou todo mundo perplexo principalmente porque ela não correspondeu a isso. Ana tinha dois anos a mais que ele e era muito legal, todo mundo gostava dela. Foi nessa época que Kabal ficou conhecido como Romântico e começou a vestir preto e a andar deprimido por aí, com um inseparável caderno de capa mole no qual copiava versos de Vinícius de Moraes e dizia que eram seus.

Ao vê-lo se aproximar ao longe cabisbaixo, o pessoal costumava se acotovelar e dizer de forma desdenhosa Ixe, lá vem Romântico.

Era o mesmo pessoal que antes louvava Kabal.

Foi uma época difícil para Kabal e pra piorar o seu pai morreu de cirrose e todos nós fomos ao enterro do pai de Kabal e encontramos lá um Kabal vestido de preto e expressão resignada e pela primeira vez percebi que Kabal parecia um poeta de verdade. Eu tentava explicar a Ana que Kabal a amava, mas Ana não dava a mínima e dizia que não tava nem aí para Kabal.

Não sei quantos meses Kabal ficou apaixonado por Ana, mas lembro que ao não saber mais o que fazer para conquistá-la ele tentou um suicídio estranho que deixou todo mundo sem entender: cortou um dos pulsos, só um, com uma faca de serra. Kabal obviamente não morreu com essa tentativa, mas acabou com os tendões de sua mão esquerda.

Ana riu loucamente quando lhe contei a tentativa de suicídio fracassada de Kabal e foi a primeira vez que eu a vi como uma má pessoa.

Um dia, Kabal simplesmente superou a rejeição, foi até minha casa no fusca que seu pai deixara de herança e disse que de agora em diante não ia sobrar cabaço em Tibiri, pois Kabal estava de volta, motorizado, e precisava recuperar o tempo perdido. Não deixou, contudo, de andar com seu caderninho de poemas, mas agora não mais copiava Vinícius e sim escrevia alguns de sua autoria. Eram poemas horríveis, com rimas ainda mais horrorosas, e eu aos poucos decidi retribuir a Kabal tudo o que ele me ensinara sobre garotas lhe ensinando um pouco sobre poesia. É verdade que eu não era poeta, mas lia poesia e sabia diferenciar uma boa poesia de uma poesia ruim como a de Kabal.

A primeira vítima da nova fase de Kabal foi Mestre Splinter.

Mestre Splinter era uma garota com cara de rato.  Tinha 22 anos, uma irmã dez anos mais nova que passamos a chamar de Splintinha, e sua característica mais marcante era mesmo a cara de rato. Não lembro como ela foi apresentada ao nosso grupo de amigos. Quero dizer, sei que foi na missa. Nós íamos bastante à missa porque era uma das melhores maneiras de conhecer garotas e alguém nos apresentou Mestre Splinter depois que a missa terminou. Também não lembro o nome dela porque a partir do momento que nos apresentaram e ela se foi, alguém do nosso grupo disse caralho, parece o Mestre Splinter!, e a partir daí para nós era sempre Mestre Splinter. Para imaginar ela, basta pensar num rato sem os pelos e os bigodes de rato, e uma peruca loira: prontinho, você imaginou Mestre Splinter.

 

*

 

Foi Kabal quem disse: Ela é gostosinha.

E alguém respondeu que por deus, não, que seria como foder com um rato gigante, ao que outra pessoa comentou Santa Tartaruga! imitando a voz do Miquelângelo, e todos nós rimos.

Duas semanas depois Kabal tirou a virgindade de Mestre Splinter no meio da Feira à noite, sobre umas caixas de papelão. Nunca entendi a escolha do lugar por Kabal, mas Mestre Splinter não parece ter se importado.

Um dia Mestre Splinter descobriu que nós nos referíamos a ela como Mestre Splinter e nunca mais falou conosco.

Também por essa época uma garota chamada Ângela se mudou para Tibiri. Ângela chamou a atenção de todos os homens do bairro não porque era morena, alta, magra, com uma postura de modelo e cabelos cacheados do tipo que não se vê mais hoje em dia, mas porque seu rabo era o rabo mais bonito que os homens de Tibiri já tinham visto. Não era um rabo comum, era grande, duro e bem desenhado e era como se fosse uma escultura feita por deus.

Ângela silenciava discussões quando passava, e uma vez algum dos caras comentou que, como um trem, ela não tinha como passar despercebida.

Todos os caras do bairro, não importava qual fosse a idade, sonhavam com o rabo de Ângela. Ângela tinha 16 anos.

Uma vez ela passou por nós e eu ergui ligeiramente a sobrancelha e Kabal virou-se e disse:

"Não fode".

Fiquei me perguntando quem seria o sortudo que conquistaria Ângela, mas Kabal interrompeu meus pensamentos dizendo que ele ou comeria aquele rabo ou não se chamaria mais Kabal.

Fiquei triste, pois eu também sonhava com o rabo de Ângela — e com todo o resto de Ângela também —, mas eu não tinha nenhuma chance nem contra Kabal a pé, nem contra Kabal motorizado.

Uma semana depois, eu estava em casa lendo quadrinhos quando Kabal chegou buzinando. Kabal estava triunfante e havia um brilho louco em seus olhos, ele também estava suado.

"Comi", disse Kabal. "Comi o rabo dela. No fusca".

Então Kabal explicou que acabara de deixar ela em casa e que não fora tão difícil quanto pensava que seria. Sua estratégia consistira em: chamar pra sair, sair, levá-la pra algum canto ermo — não faltava canto ermo em Tibiri naquela época —, e sarrar, ir ganhando terreno aos poucos e repetir isso até, um dia, conseguir convencê-la a lhe dar o rabo.

Kabal explicou que depois que começaram a dar uns amassos no carro ela, provavelmente por ser muito inexperiente, ficou tão excitada que faria qualquer coisa que ele pedisse, e Kabal pediu para comer o seu rabo ali mesmo, no banco de trás, e ela simplesmente ergueu aquele monumento divino e Kabal simplesmente o comeu, após cuspir no pau e no rabo dela.

"Ainda tô com o pau melado de merda", disse Kabal.

Kabal também disse que chegou a pensar que ela não era mais virgem, mas percebeu que era mesmo — ele sabia dessas coisas — e que foi o melhor rabo que ele já comeu.

Kabal espalhou o seu feito pra todos os nossos amigos, e nossos amigos espalharam o feito de Kabal para seus amigos e assim por diante e Ângela passou a ser conhecida como No Fusca.

Sempre que ela passava com seu rabo não mais tão interessante, alguém dizia:

"Lá vai No Fusca".

E sempre que ela voltava:

"Lá vem No Fusca".

E o apelido pegou tão bem que ela ainda era chamada de No Fusca quando voltei ao bairro, mais de vinte anos depois.

"Dona No Fusca", diziam os mais novos.

"Dando no fusca", os mais velhos.

Depois de ter comido o seu rabo, Kabal não quis mais saber de No Fusca e No Fusca ficou um tempo sumida. Quando voltou a aparecer ainda tinha o rabo mais bonito do bairro, mas estava mais magra.

Foi nessa época que me afastei de Kabal. Não foi algo que planejei, nem vingança por causa do que ele fez com No Fusca. Simplesmente nos afastamos.

Não fui visitar Kabal em seu leito de morte, nem procurei saber se morria por causa de Drogas ou de AIDS, mas antes de viajar de volta eu passei na casa de Ana e uma mulher gorda feito o diabo me atendeu e eu demorei a descobrir que ela era Ana e ela demorou descobrir que eu era eu.

Ana me convidou a entrar e disse que não reparasse a bagunça e um monte de crianças destruíam o ambiente. Ela me ofereceu um café e perguntou o que eu andava fazendo e eu disse que viera visitar os meus pais e ficara sabendo que Kabal estava para morrer, ao que ela me corrigiu dizendo que morrera no dia anterior, e que minha informação estava desatualizada.

"Então o enterro será hoje?", perguntei e ela respondeu que sim.

"Você vai?", ela perguntou e eu respondi que não.

Ficamos em silêncio e eu entreguei o café e disse bom, tenho que ir, mas posso te fazer uma pergunta?

Ana disse que claro que eu podia fazer uma pergunta e eu perguntei bom, por que naquela época você nunca quis saber de Kabal quando todas as outras garotas eram loucas por ele?

Ela pensou um pouco antes de responder e disse que sabia que ele iria chutá-la tão logo conseguisse o que queria.

"Simples assim?", perguntei.

"Simples assim", disse ela.

A verdade é que eu esperava alguma revelação mirabolante sobre os motivos que a fizeram ser a única garota da época a não cair nos encantos de Kabal, e saí de lá decepcionado. Quando entrei no carro, a angústia em mim falou mais alto e eu decidi ir ao cemitério me despedir de Kabal, mas o coveiro me explicou que tinha um enterro ali marcado para o fim da tarde e ainda era o fim da manhã e eu dei de ombros e voltei pra casa sem me despedir de Kabal, perguntando-me quantos rabos mais Kabal teria comido desde que nos afastamos, e se algum deles foi o causador de sua morte por causa da AIDS, se é que havia sido AIDS mesmo.

 

 

Santa Rita, 18/04/15

 

 

 

Uma Noite de Eterna Duração

 

 

Foi com horror que li a notícia da morte de Floriano Amarga em minha timeline do Facebook. Com a respiração paralisada e o dedo deslizando pela tela do smartphone, me certifiquei de que não era nenhum engano, nenhum hoax, que Floriano Amarga, o grande Floriano Amarga, estava morto: overdose de remédios, suspeitava-se, somada a uma quantidade elefântica — o jornalista usava exatamente essa palavra, elefântica — de cocaína. Pensei na tragédia (a morte de um jovem é sempre uma tragédia, assim como a morte de um gênio, e Floriano Amarga era ambos), e na quantidade de cocaína necessária para entorpecer a tromba, e os ânimos, de um elefante.

Floriano Amarga, o ator, o ganhador do Oscar e do Globo de Ouro por sua interpretação alucinante de Antonin Artaud no filme homônimo, que chocara a Academia com sua atuação delirante, sua reinvenção de um homem atormentado pela loucura, e pelo câncer no cu.

Dois meses antes eu havia encontrado Amarga. Um triste e pálido Amarga, que desceu de seu quarto no Copacabana Palace, onde se hospedara dias antes, vestindo roupão e sandálias havaianas, a barba por fazer, e perguntou, em um espanhol perfeito, mas cuidadoso, se eu podia lhe arrumar um cigarro. A princípio hesitei, paralisado pela admiração que nutria por aquele grande ator, e pela recomendação da administração do hotel de que só deveríamos dirigir a palavra aos hóspedes, sobretudo os célebres, quando por eles solicitado. Eu estava em meu intervalo, fumava, estava frio para os padrões cariocas, e ele simplesmente parou ao meu lado e me pediu um cigarro.

"Che, pasame un cigarrillo?".

Passado o susto inicial, enfiei a mão no bolso da calça e lhe estendi meio maço de Marlboro e um isqueiro Bic recém-comprado, que não justificava o orgulho com que o exibi. Meu coração batia em ritmos que até então me eram desconhecidos, e não consegui dizer nada além de um "claro, señor Amarga" e um inexplicável "muchas gracias, señor Amarga" (mais tarde me perguntei por que diabos lhe agradecera se fora ele quem me pedira um cigarro). Ele retirou dois, acendeu um, tragou, então me devolveu o isqueiro e o maço, e ficou olhando para o vazio, em silêncio.

"Parabéns pelo Oscar, señor Amarga. Artaud é um dos meus filmes favoritos, e autores também.", falei em português, devagar, esperando que ele entendesse. Ele assentiu, me olhou dos pés à cabeça, como se me visse pela primeira vez, e então perguntou em portunhol se nos obrigavam a trabalhar com aquele chapéu ridículo todos os dias.

"Sim, señor Amarga, somos obrigados a usar esse chapéu em serviço".

O grande ator voltou a assentir e eu percebi que seus olhos lacrimejavam.

"É um trabalho de merda", disse ele, voltando a fitar o vazio.

"É sim, señor Amarga", falei sem me dar conta.

"Então você gosta de Artaud?", perguntou ele depois de algum tempo.

"Sim, señor Amarga. Muito".

"E de quem mais você gosta?".

"De muitos outros, señor Amarga. Gosto de Van Gogh, Rimbaud, Baudelaire, Thomas de Quincey, Chatterton, Heinrich von Kleist...".

"Bando de putos", disse o señor Amarga e eu voltei a me calar.

"Que diabo de ascensorista é você?".

"Desculpe, señor Amarga, não entendi sua pergunta".

"O que você faz aqui?".

"Sou ascensorista".

"Trabalha no elevador".

"Sim".

"E que diabo de ascensorista é você, que conhece Artaud e cita nomes como Kleist e Thomas de Quincey?".

Baixei a cabeça e encarei os sapatos.

"Não vá me dizer que todos os ascensoristas, porteiros, recepcionistas, cozinheiros e garçons desse hotel são eruditos que gostam de putos malucos ou suicidas", disse o señor Amarga, "Ou que isso é algo comum".

Permaneci em silêncio, achando o comentário do señor Amarga preconceituoso e pensando nos meus colegas de trabalho e nos assuntos que costumavam puxar comigo — coisas como o resultado do clássico entre os times locais, a violência urbana, a reviravolta no roteiro da novela — nas poucas oportunidades que tínhamos de entabular alguma conversa.

"Sou escritor", eu disse.

Ele não demonstrou surpresa.

"E que livro você escreveu?".

"Nenhum, señor Amarga, ainda não escrevi nenhum. Digo, escrevi alguns contos, mas não fui além disso".

Ele assentiu, deu um último trago no cigarro que estava quase no filtro, acendeu o outro na ponta, jogou a guimba sem qualquer cerimônia e tragou o novo cigarro.

"Você é um puto de merda, é o que você é", disse o señor Amarga.

Pensei em lhe dar uma resposta, talvez até mesmo um soco, mas optei por ficar calado. Olhei para o relógio e vi que meu intervalo acabara, precisava voltar pro elevador.

"Preciso ir, señor Amarga", falei, "há mais alguma coisa que eu possa fazer pelo señor?".

Ele assentiu e perguntou apenas:

"Como é teu nome, puto?".

"Francisco Lima da Silva, señor Amarga".

"Como o Papa?"

"Sim, señor Amarga, como o Papa."

"Boa noite, puto", disse ele.

"Boa noite, señor Amarga", eu disse.

E assim nos despedimos, e eu fui ao banheiro, onde me lavei e joguei no rosto um pouco de colônia que levava num pequeno vaporizador, depois voltei ao elevador e me ocupei durante algumas horas com uma antologia dos poemas de Pessoa. Era o turno da noite, o único que me permitia folhear algum livro e escapar da insônia que há quase duas décadas me acompanhava. Cumpri meu dever e, ao término, fui pra pensão que alugava no Botafogo e tratei de recuperar minhas energias antes de enfrentar mais um dia. Não consegui dormir, então abri meu notebook velho e assisti, pela quarta ou quinta vez, minha cópia pirata de Antonin Artaud — O Filme, me perguntando como Floriano Amarga, um ator tão brilhante, que incorporara Artaud com tamanha paixão, podia ser um completo filho da puta.

No dia seguinte, ao chegar ao Hotel, o gerente me chamou em sua sala, me deu um envelope e disse que o senhor Amarga havia lhe pedido para que me entregasse pessoalmente aquele mimo, como agradecimento por meus serviços. Agradeci e fui para o meu posto, onde, tão logo me vi sozinho, abri o envelope e retirei um cheque nominal no valor de 10 mil dólares e um bilhete que dizia apenas: "Peça demissão, puto, e vá escrever alguma coisa que preste".

 

 

 

 

[imagens ©jörg heidenberger]

 

 
 
Roberto Denser. Escritor paraibano radicado na cidade do Rio de Janeiro. Ex-estudante de Letras e bacharel em Direito, trabalhou como ajudante de açougueiro, vendedor ambulante de sandálias magnéticas, professor de português substituto, agente censitário e jornalista freelancer. Publicou o livro A Orquestra dos Corações Solitários, onde reúne contos sobre a solidão inspirados nas músicas dos Beatles, além de contos em jornais, revistas e antologias. Mais: www.robertodenser.com.