erotimeditação

 

 

Abaixa as calças, abaixa! Abaixa-as! As calças abaixadas. Pega nele, pega! Pega-o! Não tens cuecas? Que nunca te sintas apertado, já dizia a minha mãe. Era em relação a um outro assunto, mas não importa. Acabou-se a roupa e a figura dele pegou no falo e o pensamento começou. Era noite cerrada e o cansaço acumulado estava a transformar os ossos em gelatina com febre.

Um falo ergue-se nas sombras da divisão acolhedora.

 

De golpe, as mãos seguram a ponta humedecida, aromatizando desejos. O seu toque luxuriante, acompanhado por um movimento quase imperceptível de suspiros. Uma sensação de violência surge, quando o prepúcio é estimulado até junto dos pêlos em rodopio. Os arrepios meditativos, que se somam por intermédio da relação com os dedos, são como carícias de língua.

Sem surpresas, a boca aberta, o nariz cálido, as orelhas amoladas sob suspense, atreladas à respiração em controlo, uma respiração como um ritmo de folhas que entram e saem do mar, em compasso de jucundidade. Na verdade, as surpresas caracterizam-se por um significado velho.

 

A figura do falo erguido bebeu muito, durante as horas da tarde. Tarde e a más horas. Tudo parece errado, menos o falo embebido e atirado ao ar, sacudido, qualquer coisa mais com "do", no final, pois o português é criativo.

A marcha que leva a que a mão, que se condensou, incite o falo é repleta de energia e incremento. Cima, baixo, para cima, para baixo. Pouco quantiosos sons, pequenos acordes de aglutinação, que apaixonam do mesmo jeito que as gotas de cacau tornam a cair, num lume que as tenha afogueado. A força que se vê a sair do falo lembra um fumo saboroso a obter escapadela através de uma chaminé alta. Vigorosa.

 

E o ânus, ai, o ânus! Ou cu. O cu.

A figura do falo está de pernas cruzadas, no centro de um tapete multicolorido, aliás, felpudo e com marcas de batom. Por conseguinte, as marcas do objecto de maquilhagem seduzem os dedos, de modo a que se arrastem nelas e, depois, a que toquem nas nádegas, sentindo o interior do ânus, em uma dança na sua centralidade d(e) os abismos primeiros, na sua origem. Vê-se um vórtice de energia que inverte o rumo em prol de um abraço às entranhas, em sinfonias de vitória, estalando, martelando. Em séries de rodopios, o dedo maior acelera a fundo: no vidro da viagem, a sensação de que a individualidade começa na sua própria descoberta erótica.

 

De notar que os músculos do pescoço não estão tensos, porque não existe velhice. A velhice é uma corda desconvocada e, aliás, apenas existe cordas em rituais fora de tapetes multicoloridos. Não existe velhice, em estado húmido, não existe em meditativo, com certeza, porque tensão jamais se agarra a este tipo de juventude fálica. Mais, dir-se-ia que o pescoço não existe, que a respiração tão bem dominada levou à abstracção do pescoço, restando um subtil elo de névoa.

 

Todo o roçagar e arfar do mundo!

 

A respiração é, ordenadamente, uma transmissão e uma retransmissão de dados; é uma tomadia de essências, na essência física com barulhos e estalidos que nos desmontam com provas de amor. Respirando, de olhos fechados, com os dedos a percorrer o comprimento do falo húmido, uma humidade metálica que estremece, a figura do falo vê sãmente os seus órgãos, as suas fibras, os seus tendões, como estes funcionam, como estes se alegram com tal energética meditação. A energia vital percorre o ser e limpa as impurezas e as platinas.

 

Arfando como um poeta que escreve nas sombras, a ginástica do ceptro de carne resulta em um bombear de fluidos, na instalação central das ancas-Artes; dir-se-ia, um motor de carnes de sóis.

Continuando, os músculos pélvicos contraem a um ritmo especial. Agora, é todo o corpo que sente aquele bombear. Em resultado, um concerto de tambores com formas fálicas, em que os estalidos estrondeiam (em) cores e anéis estrelados.

 

Todo o roçagar e arfar do mundo!

 

A mão direita, enquanto a esquerda se concentra na dança "selou-motion" com o falo, percorre o umbigo, tocando notas de piano invisíveis. Sentir os abdominais — definidos, suados e entre brilhos vários — com tesão é uma correspondência com uma conjugação rápida e irrepreensível, ao verbo "abdominar"!

Um fio quase transparente — de olhos fechados, parece de ouro (quase transparente) — faz comichão na ponta do falo. O orifício do caos. Não obstante, a vontade impera sobre a vertigem das horas, cuja tatuagem é o caos. Entaladas igualmente na pele caótica da vida, as linhas das costuras fálicas aquecem até uma temperatura que converte todas as visões e todos os movimentos respiratórios em impressões alucinantes, porém elegantes. Cheira a cetim e a cona com batom, verdade seja dita.

 

De facto, as palavras enojam a autenticidade do prazer, porque transportam o seu vínculo de destabilização. Os signos e as falácias da língua fascista não dão hipóteses de felicidade, somente abrandamento cardíaco.

Sim, sim, há queda e une-se um quilo de ultimatos libidinosos em cima da meditação fálica. Gemidos e sopros triunfam; catarses e nirvanas em que não existe nada, senão engrandecimento (amoral). O erotismo e a meditação em comunhão, um objecto estético que nos educa e expulsa, naquele encontro entre fluidos e sons e cores e cheiros de pensamento. Do pensamento (amoral).

 

Ao jeito de registo fotográfico, o aparecimento de um propulsor na base do falo, por causa da forma da mão que excita. Em simultâneo, uma ardência desde as veias até à cabeça, onde igualmente existem veias… e existe ardência e existe cheiro caramelizado ou, pelo menos, silvestre. O sexo é silvestre, silvas e madressilvas, no lugar de pêlos.

 

Todo o roçagar e arfar do sexo!

 

A esta distância, descrevendo o prazer em crescendo, os novos ângulos novos: os testículos assaz erectos, quais bolas de caramelo e café. E uma amêndoa pigmentária do cu, que atrai uma colher gelatinosa com as bolas de caramelo e café. Que forte gozo nos cristais anais, recebendo a concentração saborosa. Com virtude, há suspiros calmos, eruditos, a não se largarem dos efeitos dos dedos. A sodomia é o prato mais apetecido da Arte, sendo em metáfora ou não, mas todos gostamos do cu e de cu, uma vez que o idolatramos, em todas as esquinas e em todas as festas de gala, etc. Contemplar um ânus é ser sodomita ou activar a sua natureza, ver é fazer. Um ânus contemplado lembra um vaso-escultura; as formas anais com(o) certa subtileza e, ao mesmo tempo, como símbolo de confiança directa, ajustável ao exercício físico…

 

A mão direita é uma obstinação. Consequentemente, os abdominais são pela mesma apalpados, visitados, visto que representam a labuta, a Arte, assim como a alimentação rica a par do pôr e do nascer dos satélites naturais.

Desta feita, a figura do falo está em harmonia com o mundo, cuja conquista se prende com a ritualização absoluta — em tentativa — de um prazer, o seu exercício, o de estar e continuar vivo. No fundo e no topo, rezar é manter o falo na mão, em dominação, em humidade amotinada.

Não! Não existe um pequeno orifício para fornicar. O falo fornica o mundo inteiro, o inteiro interior do mundo, que não é um orifício pequeno, nem sequer se trata de um orifício. Neste momento, já não espreita e já não sai qualquer fio quase transparente — ou de ouro (quase transparente) — do falo. Os líquidos querem-se unidos aos espaços microscópicos, onde se levantam até aos espelhos da alma, ou seja, os olhos. Faíscam, pudera; são os líquidos a queimar entre nuvens e dobradiças.

 

A situação basilar é a de que a figura do falo aprende a permanecer em regozijo e indulgência — quer em inglês, quer em português —, o que se relaciona directamente com o limbo que se nos presta, em cima de um tapete. Sobre o tapete multicolorido, os músculos todos concentram-se e concentram-se num só músculo: o músculo engrandecido do prazer com o coração e, ainda, com os músculos da alma num só sinal: musculatura erótica. Os sons dos músculos lembram motores aeronáuticos lubrificados, onde se evidencia o tratamento de fluidos do falo em riste, aliás, apontando ao céu que não se vê, porém imagina-se. Por outro lado, estamos no nível primeiro do indivíduo, logo outros se adivinham.

 

Todo o roçagar e arfar do sexo! Todo o roçagar e arfar do sexo! Falo-vulcão.

Todo o roçagar e arfar do sexo! Todo o roçagar e arfar do sexo! Falo-vulcão.

 

Não ejacula. Não! O esperma é corpo de aminoácidos, por exemplo. Ejacular, não ejaculo, não o quero. A figura do falo não se vem, mantém-se. Espera! Ora, gastar-se o génio do exercício é que não, assim, deste modo, não, com este texto a escrever-se. Meditar não entronca, não rima, com ejacular. Nem escrever. O falo do texto comporta-se como um vulcão que não quer ser fotografado, sujo, ejaculado, frouxo. Sabeis uma coisa? O branco não se gasta, não se abandona, canaliza-se e espalha-se, no interior. O interior inteiro em branco. A branco, porém branco iluminado de prazer.

Os espasmos trazem o sentido de felicidade. A mente limpa, a mente cura os poros do corpo, por onde se escapam os vapores do álcool. Uma mente limpa e tranquila, num quase método milenar que se enche de vaidade e veias fálicas.

Sabeis outra coisa? Com certeza! O exterior não existe para o branco, porque o interior é tudo, o todo. Não obstante, o branco espalha-se no interior do corpo, não no interior do tapete. Do mundo. O interior do texto, o interior do sexo, o da meditação, os interiores, vá, BRANCO.

 

As cores? As cores do rosto da figura do falo são as cores do tapete, mas o tapete passa a ficar incolor, inominável. O grande contraste entre o interior e o exterior é dado através do jogo das cores, vencendo, perpetuamente, o interior. E o falo é uma bateria feroz de sentimentos que se encaixam em sabores terrestres, porque a meditação é terra.

 

Aquele em meditação vê buracos a descer, rápidos, entrando na glande húmida e febril, artística, comprimindo-a como se fossem tecidos mais duros do que uma parede. Os buracos são acastanhados, os buracos são roxos, os buracos são buracos-sangue, que dão mais um milénio ao falo, isto é, uma astralidade nova. Agora, as mãos apertam tudo: falo, cu, pêlos. O BRANCO é rio interior. Com efeito, o que não sai, dentro fica, embora se espalhe pelo sangue, viajando até ao cérebro, em acção sábia, de vetustez e calmaria humanas. Aí, no cérebro, edifica-se: uma forma cristalina, igual a um gato, que se evade às paredes, perfurando-as, a miar.

 

No fim e no início do mundo, nós meditamos. A meditação está connosco no nascimento, assim como na morte, ainda que haja sempre dor. erotimeditação é a serpente ouroborus que se transforma num falo diferente, que depois é a caneta com que escrevo. A tinta sai do ânus e é deleitosa de tanta paixão, sendo que a mão que a segura é toda a cona que lemos, que masturbamos (mais em todos os tempos verbos) com disciplina.

 

Uma boca aberta, um nariz, um corpo nu e orvalhado, duas mãos que possuem a tranquilidade, olhos de ideologia, ouvidos que não captam estupidez, um caralho poderoso, em uma alcova que dá mais vida. Mais vida! A revelação do sublime-directo é grossa.

 

A figura do falo balança o tronco como um ser hipnotizado que tentou desconstruir convenções sociais. Conquanto falhada a missão, vê-se debaixo da influência de meia dúzia de passos de mágica. A vida assim o ensinara: tentar, ainda que haja falha e passe a integrar o bolo de uma qualquer convenção. O tapete ainda é seu.

No interior da figura do falo, o BRANCO cria mais vida. Apertando o caralho, os pêlos púbicos envolventes, levanta-se do tapete… tantas as coisas que vão acontecer.

É de valor procurar alterar-se o estado das coisas, já que terá valido a pena. Se compreender a ordem das coisas resulta e liga (a) um sorriso, então alterá-la será um grito apaixonado, de onde se extrai orgasmos de originalidade, cujo efeito é ajustável à genitália.

 

Por fim, o mundo dá de si, entrega a sua graça. A mão da aurora, por fim, embala o grosso caralho. Em torpor, o chão é amigo. Vamos dormir, jovem!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[imagens ©alejandro maestre] 

 

Mosath nasceu em Vila Nova de Famalicão (Portugal), em 1987. Autor de Eviscerar Mistérios, As Estátuas e Recintos Possuídos OU O gozo de Um demónio, estuda por terras do Douro e dança por terras do Minho. Estudante, trabalhador e criativo, no fundo, um agente das Letras, um ser hedonista quanto baste, disciplinado quanto baste, com espírito de acção, casado com a Vida. O erotismo que é do e no Amor é vertido na sua criação, quer em poesia, quer em prosa. Criativo e meditativo, frui corpos femininos até que se incandesçam entre o sono e o sonho.