Tempo de migração

 

 

Tirou a roupa ignorando os botões e os olhos do homem à sua frente. Tantos anos esperando, não se permitia preliminares, impressões ou delicadezas. O quarto encheu-se do cheiro proibido — adultério premeditado. Andando devagar, nocauteou-o com sua nudez.

Espremido na parede ele mal respirava. Seus olhos pregaram-se nos seios que arfavam. Duas acusações sumárias à sua ausência medrosa em tantos anos. Noites e noites ele sonhara com aquele momento e agora se via ali preso a dois mamilos intumescidos a oferecer-lhe o prazer de uma tarde. Uma tarde era tudo o que ele tinha. Tudo que conseguira roubar à sua vidinha comum de gente comum. Mas o que era o tempo quando a febre lhe tomava de uma forma tão completa que o corpo oscilava entre o divino e o profano?

Ela era pura insanidade. Uma mulher madura, de corpo farto em tentações, resolvida e pronta para viver o que o momento lhe propiciasse. Com a urgência que a vida colocara no que antes era doçura. Oito anos desejando-o fizeram mãos, bocas e urgências caírem sobre ele. O homem subjugou-se às vontades da mulher, raivosa de tanto desejo contido. Os lábios sussurraram todos os palavrões guardados nas gavetas que o tempo de espera empilhou dentro dela. Não havia carinho. Nem amor. Só carne. E sangue gritando nas veias. As unhas abriam caminho no corpo dele, alternando salvação e perdição. Entre suas pernas, a sofreguidão da boca dele, beijando pelos e umidade, fazendo-a gemer no intumescimento de um clitóris expectante.

O som estridente do telefone invadiu o quarto. Ele paralisou-se debaixo dela.

— Preciso atender.

Ouvindo apenas a própria obsessão, ela prendeu-o com pernas, braços e dentes. O telefone insistiu. Metálico, insensível, contundente, dilacerando todos os planos construídos ao longo de tanta espera.

— Deve ser lá de casa. Desculpe, mas preciso mesmo atender.

O macho naufragado nas profundezas do mar que o tragou debateu-se até vir à tona. Os olhos dele refletiam medo. O suor escorrendo-lhe pelo rosto respingou na admiração dela. O homem descortinou-se. Era apenas um homem. Da espécie mais comum. Todos aqueles anos de espera caíram sobre ela como um tempo perdido.

Empurrou-o e entregou-lhe o telefone. Sentou-se e viu-se refletida no enorme espelho que cobria a parede. O corpo brilhava ainda com o querer represado. Não se permitiria sair dali inteiramente frustrada. Ignorando-o e à sua tensão, entregou-se ao prazer solitário.

Por um tempo que lhe pareceu séculos, já renascida, abriu os olhos. De pé, diante dela, desejo em riste, o homem a olhava como um sobrevivente de alguma guerra santa. Os olhos brilhavam como se querendo queimá-la. Calmamente, saiu da cama. Olhando-o nos olhos e calando-lhe as palavras, vestiu-se. Em gestos lentos, foi-se.

Bateu a porta do passado e olhou o bando de andorinhas voando em formação triangular. Fazer o verão em outras paragens — era o tempo de migração.

 

 

 

 

 

Em nome da vida

 

 

 

Os pés lhe doíam quase tanto quanto a barriga. Rasgados pela caminhada de dois dias. Caminhada inútil. Encontrara apenas portas que se fechavam.

Olhou o céu. Espantou-se com o riso aberto do dia azul. Deu-se conta de que há muito não se sentia assim tão debaixo do céu. Perdera o hábito das coisas cotidianas. Desde que mandara para o inferno a desgraçada que escolhera para ser a mãe de seus filhos.

O rosto da mulher chegou reluzente diante dele. Tinha dezesseis anos e a inocência brincando nos olhos de gata. Pagou ao pai dela para carregá-la. Deu a nesga de terra que tinha e o que havia economizado para comprar sementes. Trocou com prazer. De dentro da sua alma vinha a certeza de que ela nascera para ser mulher dele.

Menos de dois anos na cidade grande e a certeza era outra. Que ela não prestava ele desconfiava. Mas encontrar um desgraçado na sua cama isso nunca, nunca pensava possível. Fora uma única vez, mas podia ler nos olhos dos vizinhos que havia mais. Não quis saber. Passou fogo nos dois. E faria de novo. E pagaria de novo naquele inferno onde vivera os últimos doze anos.

Uma fincada na barriga trouxe-lhe todos os cheiros e gostos que lhe eram proibidos. Por dentro dele a necessidade de enganar o bucho o fez sentir-se perdido num redemoinho. Precisava de qualquer coisa que lhe pesasse lá dentro e matasse aquela dor. Olhou em volta. As pessoas passavam por ele como se fosse um poste. Ou uma pedra no caminho. Ou um nada. Pedir ele não sabia. Nem roubar. Tinha princípios. Fora criado na santa igreja católica. Não era porque tivera que matar a filha da puta que iria rasgar a fé que sua mãe lhe ensinara.

Era mesmo um idiota. Ele já estava perdido para Deus. Um pecado a mais não lhe faria diferença. Olhou a loja de comida. De lá vinha o cheiro de carne misturado com o que ele lembrava de um bom copo de cerveja. Fazia dois dias que a porta do presídio fechara às suas costas. Dois dias de um inferno pior. Um inferno onde ele não cabia. Onde não havia mais espaço para gente como ele.

De cabeça baixa, continuou descendo a rua. A fome revolvia-lhe as entranhas. Dos pés vinha o martírio de Cristo. Não conseguia mais pensar. Parou. Na imobilidade pesada, apenas o cheiro de comida vindo do restaurante em frente. Precisava comer. Nunca imaginou sentir tanta saudade do baguá servido na prisão.

Entrou. Sem comando próprio, suas mãos obedeceram à ordem imperiosa da fome. Fecharam-se. Num golpe seco estilhaçou o vidro que o separava da sobrevivência. Aquela invasão lhe garantiria a sobrevida do momento e mais uns meses de almoço e jantar na cadeia. Agarrado pelas costas, pensou: se reagisse o tempo de prisão seria ainda maior. Com dois movimentos dos braços fortes garantiu comida para o resto da vida.

Ignorando a agitação que causara, sentou-se no chão. Tranquilamente, devorou tudo que pôde antes que a viatura parasse na porta. De cabeça erguida, entrou e sentou-se no chão do veículo. Dessa vez, não se sentiu gado sendo levado. Dessa vez, escolheu o matadouro.

 

 

 

 

 

O pulo da gata

 

 

O mundo continuava gotejante. Suas roupas também. Tirou os sapatos pensando no emaranhado em que se transformara sua cabeça: cabelos e pensamentos encharcados. A chuva fora tão inesperada quanto inesperada era a sua reação. Deveria estar irritada. Fora uma grande produção pensando no ditado: o que fica é a primeira impressão. Mas estava aliviada. A chuva lavou seu senso de obediência às convenções. Ou talvez o alívio fosse de outra ordem. Ele a olharia e a dispensaria. E a culpa seria da chuva.

Entrou no shopping, dividida entre vontade e necessidade. Foi direto para o banheiro. Torceu os cabelos, ajeitou as roupas e saiu sentindo os pés escorregando dentro dos sapatos. Exatamente como vinha se sentindo ultimamente: escorregando na vida. Olhou o movimento à sua volta. Ali dentro era um mundo à parte. Nenhum sinal da chuva que enchia as ruas lá fora, nenhum sinal de emoção em ebulição no rosto das muitas pessoas que iam e vinham. De tempestade, só suas emoções borbulhando insegurança.

Tirou da bolsa a foto em cinza e preto, pensando na tinta da impressora que acabara. Seria possível reconhecer alguém naqueles borrões? Tomara que não. Balançando os cabelos molhados, foi direto à praça de alimentação. Parou no lado oposto da única mesa onde havia um homem grande e de terno.

O primeiro olhar dele foi de indiferença. O segundo, uma surpresa hesitante. O terceiro virou um largo sorriso que logo em seguida transformou-se em desculpas gentis. Levantou-se e puxou-lhe a cadeira. O riso continuou no olhar, colocando fogo no rosto dela e um gemido de expectativa em suas entranhas.

Duas horas depois estava ela novamente na chuva. Dessa vez, com a certeza de que a faculdade estava garantida até o final do ano. O lugar era seu. A partir do dia seguinte seria acompanhante oficial de um executivo italiano. E que se danasse o sonho idiota de apenas se deitar por amor. Amor ela inventaria.

 

 

 

 

 

 

[imagens tisseur de toile]

 
 
 
 
 
 
Lourença Bella. Mineira das terras vermelhas de Drummond, passou pela academia de onde saiu professora. Foi só o inicio. Pisciana que é, descobriu-se muito mais aprendiz. Abandonou a sala de aula, passando a trocar conhecimentos fora dela. Depois de anos trabalhando com Educação, virou a mesa. Foi aprender as regras do mundo empresarial onde se equilibra até hoje. Da academia guarda ainda a fome de conhecimento. Especialmente de si mesma. Por isso, escreve.