*

 

Composição.

Cena típica de um domingo típico:

Dois gatos pela sala.

Uma velocidade para cada fato.

Ainda sentado, girando na cadeira sem parar,

tempo ao tempo,

observo o felino ajeitar-se na almofada.

(Os gatos têm o hábito de afofar o lugar onde deitam como se fosse terra).

A sala vazia no mesmo lugar de sempre.

Mas quase nunca é vazia, a sala.

Incenso de jasmin.

Doce de profundo.

Enjoativo quase.

E eu pude sentir.

Que o cheiro esse é o mesmo cheiro das ruas da minha cidade.

Minha cidade sempre me invade nos meios das tardes de domingo.

Com acerolas.

Pitangas.

Hibiscos vermelhas.

Folhas verdes pelo jardim.

Vozes de crianças que se propagam ao fundo dos acontecimentos.

Bem-te-vi.

(Esses mesmos que, anunciando alguma boa notícia, insistem em aparecer).

Algumas moscas voando sobre a fruteira.

Os limões abandonados.

A água parada do aquário sem peixes.

E o silêncio dentro dele: silêncio de aquário.

Silêncio aqui fora também, onde não tem água.

Silêncio seco de um domingo de coisas lembradas e esquecidas.

Tenho tudo misturado e dois gatos do lado.

 

 

 

 

 

 

*

 

Aceito o desafio de expor a carne da palavra.

Eis-me:

...

Reticências antes do princípio que era o verbo.

Silêncios.

Ventos nas tardes.

Pontes.

Desesperos engavetados.

Quelóides.

Asfixia.

Não bastando-me em mim,

transbordo.

Deixo que toda a palavra exposta me invada.

Fluidez pura.

Nado a favor da correnteza.

Nascente primária.

Depois,

ao fim,

me sai o cuspe.

E o peito se esvazia.

 

 

 

 

 

 

*

 

Volto.

E a claridade nos envolve e cega.

Aqui dentro, dentro em nós,

existe uma chama que queima sem incendiar.

Fogo silencioso,

ardendo aceso.

Em que tarde na Pamplona isso vai acabar?

Há um vento sempre a acabar com qualquer resquício de faísca.

E o sol lá fora não ilumina aqui dentro.

Aqui dentro existe apenas um secreto clarão.

Que me alimenta,

mas que não posso enxergar.

 

 

 

 

 

 

*

 

Lembra-te que o passado já passou.

Está ultrapassado.

E mesmo que de nós em nós

um pouco ainda tenha ficado,

do cheiro,

dos gestos,

do jeito,

dos sons,

lembra-te que o passado é passado.

Está guardado em mim fotografado.

Mas ficou para trás.

E não volta.

"O passado é uma roupa que não nos serve mais".

 

 

 

 

 

 

*

 

Eu tenho um coração que sangra.

E pulsa.

E cheira.

E mastiga a dor.

Um coração-liquidificador.

Um sentimento incolor.

Meu coração é de Vênus.

E ama.

E ri.

E sente solidão.

Coração extra-terrestre.

De sentimento por vezes indubitável.

Instável.

Variável.

E inconsolável.

Meu coração defunta-se.

Meu coração estranha-se.

E caminha.

E percorre.

E degrada-se por si só.

Meu coração confunde-se.

Meu coração sustenta-se.

Coração liquidificado batendo triturado.

 

 

 

 

 

 

*

 

Reflete de ti para mim tua cara pálida.

O mesmo rosto que em mim já vias.

Desde quando eu nem sabia.

Se era tu ou eu.

Se era quando foi tudo um breu.

O que só no escuro eu entendia.

Que meu cabelo era teu.

E que teu olhar era o meu.

 

 

 

 

 

 

*

 

Quem é aquele que sou eu parado ali na frente?

Frente a frente comigo mesmo.

Quem é aquele que sou eu parado ali na frente?

Frente à essa imagem a esmo.

Antes tivera sido.

Bonita como um coro de crianças.

Quem é aquele que sou eu parado ali?

Quem é aquele que sou eu parado?

Quem é aquele que sou eu?

Quem é aquele que sou?

 

 

 

 

 

 

*

 

Eu vi você chorar por mim

E em segredo

Uma lágrima sua confessou

Que o sonho dela era apenas ser colorida.

 

 

 

 

 

 

*

 

Vês que teu corpo quase sempre acaba preso

Nesse labirinto de portas.

Quando consegues fugir,

teu braço te saúda.

Então vês que és somente tudo

E um pouco de cada.

És pés,

e um pouco de mãos.

És partida,

partida e meio.

Disseram-me que te encontras

Na segunda porta torta.

Encontro-te então,

bem à minha frente,

nesse espelho habitado de imagens tuas.

Tu e tua imagem novamente descaracterizada

Me pedem perdão.

E embriagamo-nos de lágrimas.

De perdão.

Lágrimas.

Perdão.

Lágrimas.

 

 

 

 

 

 

*

 

É tarde, pequena.

Tuas mãos ainda têm vida.

E teus olhos não querem fechar.

No espaço em que te fechas

Não sabes se é noite apenas.

Ou madrugada

(as madrugadas sempre são noites, tu dirias)

Apoias no peito

As mãos de dedos e unhas curtas

E descobres que o coração,

além de bater,

canta.

Que canta teu coração, pequena?

 

 

 

 

 

[ imagens ©flikr ]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ulisses Borges (Torres/RS, 1981). Desde quase sempre gosta de escrever. Por volta de 13 anos, queria ser Rimbaud. As artes, em geral, sempre o atraíram. E mais especificamente a literatura e a poesia. Mas de todas as formas de expressão, a escrita sempre foi a que melhor o traduziu. Por isso, dessa forma, segue tentando [seguirá sempre] traduzir-se. Atualmente, estuda Letras, e vai pelo seu caminho. O que virá, ele não viu.