Pequena História

     do Nascimento do Mundo

 

 

O verbo se fez. Dizem que surgiu do hálito do homem, um sopro na terra. Antes da terra o homem, antes do homem o vento, antes do vento Idea que se fez verbo. Idea abriu os olhos para dar origem às coisas e pensou o mundo, a princípio, dividido em dois azuis: um azul de sombra e um azul de luz. Então, inventou a Morte e a Eternidade, a Caverna e a Inteligência. Idea, embora não soubesse, havia de separar o mundo em dois iguais. Disse: — Acima de mim as alturas, a região celeste. Fixou os astros. Para o céu pensou a Paz e todas as criaturas aladas, como um primeiro sopro da alma disse "Pássaro" e o som desta palavra trouxe o Vento.

Idea viu que o Vento, nascido do Pássaro, era em abstrato. Ser em abstrato talvez tenha sido a intenção da palavra Pássaro, mas o Vento queria também ser palavra e não apenas som de Pássaro. Fez-se então a Vontade e para que o Vento pudesse ser visto e se mover entre as coisas, Idea criou as Nuvens. As Nuvens, nascidas da Vontade e do Vento, logo quiseram ser mais que suas formas. Das Nuvens surgiram, então, Desobediência e Desordem. Já que as Nuvens existiam em razão do Vento, Idea concedeu-lhes a Terra para que fossem também palavra. A Terra sabendo-se palavra dura, sendo apenas a contradição das Nuvens, quis ser pátria para o Pássaro, teria que acolher o Vento. Então Idea pensou para a Terra também a Água.

Tão distante dos astros, sendo apenas o seu espelho, Água reclamou à Idea o seu sentido, foi então que se criaram os peixes à semelhança dos pássaros. O Vento é o que move as águas. Criaram-se os Cavalos Marinhos e toda sorte de plantas e seres viventes, que logo quiseram astros para animar seus azuis, foi então que Idea valeu-se de duas palavras para medir o céu do mar. Fez-se a Estrela Marinha.

A Terra atribuía sua dureza ao Sol que lhe corava em seus vermelhos. A Terra Chorou ao conceber Pedra. Foi para seu consolo que Idea criou a palavra Sede, e fez a água ser-lhe útil. Pensou toda a sorte de Verdes e Marrons e deu-lhe o mar, o rio e o lago, as árvores, os cavalos e a Ilha. Elegeu o Sol, a Lua e os outros astros para dar ritmo a tudo, surgiram as Estações e a Música. Para dar-lhes sentido casou-as com o Tempo.

O Tempo, sonhando-se Deus, riu do Homem que o mede, vive enciumado de tudo que existe, é o pai de Necessidade e Solidão. Concebeu-as para justificar o seu nome.

O Homem, embora pense ter surgido depois de tudo, é o próprio Verbo. Nasceu da vontade que Idea compartilhou com o Vento de não ser apenas em abstrato, mas existir.

 

 

 

 

 
 

 

Poética

 

 

o vento cobre o barro

o oleiro faz do vaso o vazio

opala derramada

sobre o negro dos olhos

 

o barro cobre o vento

o oleiro faz do vazio o vaso
o outono desfaz-se em folhas

 

 

 

 

 

 

Então nasceram os astros

 

 

chegaste com o vento

como se cavalgasses num potro de luz

vieram todos os astros

as flores  e o canto dos pássaros

disseram os teus azuis

 

olhaste

o cosmos e o mundo tornaram-se esferas

 

teus olhos desenharam o sol e as manhãs

e dos limões deitaram o verde no mar

o verde  é  teu hálito

sumo que sopra nos ares a maresia

 

a tarde é o teu sopro morno no poente

 

a noite é teu olhar sobre as amêndoas

é a lua tornar-se marrom nos teus olhos

é a vida imersa nas  sementes

 

 

 

 

 

 

Poema para as vozes da Ilha

 

da faca dizes que negue o corte
do mar que afie seus metais
na geometria do peixe

o mar ouve tua voz
canto que anuncia o branco às velas
e os mastros obedientes
à rota do vento saudoso da terra
o mar ouve
o metal dos metais dos sinos
timbre e som de asa
pássaro-voo de garça
nascido do vento que te deseja terra

o mar
em teu nome
silencia
o metal de estrela em estrela marinha
que todo brilho diga da faca
o peixe em sua geometria

o mar
em teu nome
dissolve o metal em suas águas
onde cavalos marinhos são em lua e prata
lua que agora é branco e branco de ágata
branco de espuma que se deita na terra
tua praia

o mar
sabe do medo
dos metais nervos e veias
que te fazem sangue e terra
o mar
ilha de um pássaro pousado
diz do sol
que traga lume novo à tua casa

o mar
em teu nome
pequena Ilha pátria
banha verde as ramas
traz o cheiro das algas
pelo vento na maresia

o mar
é teu verbo
tempo humano do que não se adia

 

 

 

 

 

 

A noite se fez

 

então os potros de luz

cavalgaram

e os azuis

agora só marinhos

trazem uma loba

para a noite que teu sopro inventa

teu hálito

sopra as estrelas para o mar

e a loba com sede

bebe o pó de estrelas das tuas águas

 

o sal

pó de estrelas

acende os peixes

se branco

peixe em geometria de faca

se metal

faca em geometria de peixe

 

branco ou metal guardas

para a fome em tuas águas?

 

 

 

 

 

 

Então é primavera

 

 

no branco-lírio dos olhos

é noite

primavera de astros

 

firo os pés em estrela marinha

flor de pedra

                 vermelho coágulo

 

sangro fome de pássaros

 

 

 

 

 

 

Veneris Dies

 

 

os ventos sopram chuva branca

pombas em voo sólido

navios de pedra

sonorizam o silêncio das horas

ventos sopram a tarde sépia

asas de borboletas quedas da aurora

as folhas rugem eloquência de mar exilado em Chipre

amor

chuva dos olhos em ilha

 

 

 

 

 

 

Estudo do vento para uma bailarina

 

 

o vento sopra a tarde para o sol

pólen de rosa e violeta sideradas

mar em mármore azul e véus de nuvem

talhar do vento para uma bailarina nas águas

 

em dança de peixes sem asas

sonha a bailarina coisas pássaras

— porque sonho de pássaro nas águas?

— é culpa do mar ser espelho?

 

em sua noite de casa

traz a bailarina sapatilha e sal

rastro de mar por dentro

cobre de branco o chão onde passa

branco de pombos e de asas

vestígio de um poema antigo

da espuma quando se deita na praia

 

o telhado é quatro águas

é negro em sua noite de casa

dança a lua em véus de ágata

sombra e borrão de cal

o telhado da casa é quatro águas

sonha a bailarina coisas pássaras

 

— como pousar

                 bailarina nascida das águas

se peixe se vento se asas?

 
 

 

 

 
 

 

Noturno do Silêncio

 

 

houvera barcos na solidão aquosa dos olhos

azul branco vermelho alternaram-se náufragos

mares recortaram-se em verdes cubos imersos

na água movente do copo

na orla das pálpebras peixes recém-emergidos

quedaram-se sem fôlego

liquens azuis trouxeram primavera à estática

exatidão dos barcos

simularam céus afloraram-se istmos entre

um barco e outro

um risco azul contornara o traço esfumado

dos olhos

as mãos ornadas de vento sopraram saudade

sobre o silêncio salino das pedras

barcos cores mares peixes líquens pedras

cantaram teu nome

 

 

 

 

 

 

*

 

a lua dissolve-se

em chuva láctea

desceu à terra para resgatar

dos versos

a poeta

que já não tem olhos

lua crescente

barca branca

náufraga

em sua taça

 

 

 

 

 

 

Natureza Móvel com Peixes Vermelhos

 

 

o mundo faz-se do olhar

espaços sugeridos pela diagonal

planos sem volume

dissolvem-se na memória 

 

as mãos lentamente

erguem a escritura das ondas

 

o olhar afoga-se

por entre o anil do céu

e o musgo das árvores

compõe-se o quadro dos amantes

navega-se sobre as águas do ar

plumas semeadas de olhos

 

o navio alça-se pássaro

lança-se em águas etéreas

a âncora faz-se ânfora

os corpos entrelaçam-se

na trilogia do sonoro do diáfano do móbil

na ânsia do toque

os olhos

mergulha-os no aquário

com peixes vermelhos

 

 

 

 

 

 

Natureza Móvel com Cavalos Brancos

e Vermelho de Orvalho

 

                             

cavalos brancos trotam terra seca

ramagem galhada de arvoredo

as abissais profundezas do peito

 

o céu escorre azul

sobre o vermelho coágulo do barro

a terra seca ara-se de orvalho

às cegas seguem úmidas as horas

 

o céu

salina o som insípido do tempo

salmea o acorde das cordas de sol

matiza violinos-sépias

sangra o galope das veias

sobre o branco crina dos cavalos

 

 

 

 

 

 

Ulisses e o Silêncio das Sereias

 

 

nos olhos mulher cindida em azul e carne

carne em mudez de matéria

pedra

Ulisses ferindo os pés em geografia marítima

nos olhos o sangrar da memória

lâmina sulcando os mares

enunciando ilíadas odisseias inventários

catálogos de navios gregos

nos olhos o sumo dos mares ondulando os lábios

em sílabas aliterações cores sinestesias

e fruto envelhecido das vinhas

nos olhos a geometria dos ventos

marulhando folhas em fúria

o verde quedo das folhas anunciando o outono

o estio

o não orbitar o tempo

nos olhos

 

 

 

 

 

 

O vento vivendo na casa

 

 

vento e mar talharam-se no meu corpo

cessar tua estação em mim foi impossível

 

sorvi o sumo que sopra nos ares a maresia

roubando-te estrelas marinhas para emprestar à noite

siderei-me no teu céu sem vestes

tingindo-me azul têmpora tronco e membro

 

colhi versos nos teus olhos

coisa pássara

pousados nos girassóis

violinos deitaram adágio sobre a terra de ti

casa de sementes imersas

lírio

e orvalho

 

 

 

 

 

 

Liturgia

 

 

o  teu tempo pássaro qual nave de astros

fez do teu nome lume e terra

mastro e madeira e carne do teu braço

onde  quiseste mar

havia um verde deslembrado

em um  mar sem memória

teu verbo amanhece a liturgia das hóstias

dizes aurora

e as esferas riscam o vermelho e o sol

dizes hora

e o vinho se faz em azul nuvem e mormaço

consente ao raso dos teus olhos

barcos

o  primeiro sal

o primeiro lago

 
 
[imagens©calliphora]
 
 

 

 

Jacineide Travassos (Carpina/PE). É bacharel em Crítica Literária (UFPE), Licenciada em Língua Portuguesa (UFPE), mestra em Teoria Literária (UFPE/USP) e doutoranda em Literatura e Cultura: Estudos Comparados (UFPB). Escreveu dissertação sobre a obra de Clarice Lispector intitulada A Logofania em Água Viva de Clarice Lispector (inédita). Tem poemas publicados em revistas literárias como Zunái, Cronópios, Entretanto e Crispim. Consta nas antologias Invenção Recife, editada pelos poetas Pietro Wagner e Delmo Montenegro e Todo Começo é Involuntário — A Poesia Brasileira no  Início do Século 21, organizada pelo poeta Claudio Daniel pela Lumme Editor. É autora do Livro dos Ventos (poesia, 2009). Professora universitária, coordena as Pós-Graduações em Literatura Brasileira e Arte e Linguística e Ensino da Universidade Salgado de Oliveira, e atua também como professora do Ensino Médio na Escola Parque. Escreve no blogue Livro dos Ventos [http://aodisseiadepenelope.blogspot.com].