Instalação da Coletiva 'Visões da Liberdade' | Beatriz Abi-Acl | Galeria do PIC (Pampulha Iate Clube) | BH | 2004

 

 

 
 
 
 
 


 

O poema

 

 

(1° movimento - estrofes iniciais)

 

 

a beleza tem leis

que as palavras apagam

quando grafam seu gênesis

no princípio da página

 

e revelam que o belo

surge brusco e sozinho

como sonho ou delírio

nas pupilas da linha

 

(não há luz que construa

nem engenho que gere

sua flor na brancura

insondável do cérebro

onde pétalas lusas

ditam versos inéditos)

 

ela anula a estrutura

cinde a lira do logos

parte o fêmur do número

ri do rosto de Apolo

e na mão do arquiteto

crava o da(r)do do acaso

 

Razão

 

 

Considero que nenhum poema nasce na hora, lugar, circunstância ou evento no qual parece nascer. Como o arcano da vida está além da genética, o mistério da poesia está além do poeta. Rastro, vestígio, vulto vago no invisível: eis tudo que podemos (racionalmente) descrever.

 

Descrevo-os.

 

"Poética", em seus três movimentos e dezoito estrofes, trata do mistério da criação, afirmando que a razão lógica, por si só, é absolutamente incapaz de alcançar ou tecer o belo. A Beleza antecede, transcende, impera, legisla e guia inefavelmente todo trabalho poético.

 

Meu primeiro insight racional do poema foi seu verso inicial. Surgiu de repente, num flash, quando estava em casa, no quarto, diante do computador, trabalhando em outro poema. Repeti, duas ou três vezes, em voz baixa: "a beleza tem leis", e senti ressonância na alma. Abri então minha pasta de rascunhos, anotei o verso e analisei sua estrutura, para ver se tinha alguma qualidade estética, como sempre faço. Gostei bastante do ritmo, da métrica breve (hexassílabo), da localização das tônicas, também das assonâncias do /e/, da aliteração do /l/, e da combinação entre a oclusiva bilabial /b/ e a linguodental /t/. Notei, por exemplo, nos simbolismos fonéticos:

 

a)     que o /e/, repetido quatro vezes no verso, representava as inúmeras leis;

b)     que sua tonalidade sempre grave (ê), indicava a interioridade profunda dessas leis;

c)     que, como "beleza" e "leis" têm a mesma tônica (/le/), as leis emanavam de dentro da beleza: be-le(is)-za;

d)     que o fato dessa tônica em comum aliterar o /l/, consoante cujo simbolismo sonoro-cinético é a fluência (deslizar), e o sonoro-tátil a leveza e a doçura, indicava que essas leis nasciam/deslizavam suavemente do interior da beleza,  partilhando de sua essência doce-leve;

e)     que o /b/ e o /t/, por sua vez, como consoantes fortes e marcantes, destacavam a natureza imperativa das leis.

 

Grifei os fonemas, fiz apontamentos, fechei o arquivo. Desde então, diariamente, trabalhei no poema — que só concluí dois meses depois.

 

Sobre as razões/motivações subconscientes que podem ter "originado" o verso, e depois o poema, situaria meu fascínio pelo tema da Beleza, origem de toda verdadeira Arte; minha paixão pelo mistério do ato criativo; minha preocupação contínua com a beleza da forma poética, causa de leituras e estudos...

 

Dentre essas leituras, inúmeras influíram e podem ser percebidas ao longo da obra: a Poética de Aristóteles, a Ars Poetica de Horácio, os paradigmas de várias escolas ou movimentos de vanguarda, as poéticas de Mallarmé-Valéry-Cabral, a poética do surrealismo, as disputas entre apolíneo-dionisíaco, razão-emoção, construção-inspiração...

 

Descrevo ainda os vestígios de dois poemas, lidos semanas antes: um de Archibald MacLeish e outro de Czeslaw Milosz, ambos intitulados "Ars Poetica". E minhas reminiscências das frases impactantes que li/ouvi na época, ou das quais sempre gostei. Frases de Aristóteles, Rimbaud, Valéry, Eliot, Ungaretti, Creeley, Bandeira, Gullar, Cabral, etc., sobre a poesia ou o fazer poético, que ainda costumo anotar, ler, reler.

 

Sei que para além desses rastros haveria certamente outros a citar, fragmentos inconscientes de minha história pessoal e/ou intelectual, formando um complexo mosaico sob os versos.

 

Porém, indico ao leitor, como verdadeira e última origem deste poema (ou, na minha opinião: de todos poemas), o próprio mistério do ser humano, na sua imemorial relação com o belo e a linguagem. Uma relação que remonta, talvez, àquele primeiro olhar... do primeiro homem... sobre a primeira mulher, ao primeiro crepúsculo contemplado sobre a terra, ao primeiro poeta que proferiu a palavra: "Beleza".

 

 

junho, 2011
 
 
 
Adriano Wintter. Nasceu e reside em Porto Alegre/RS. Foi um dos vencedores do FEMUP 2010 (Festival de Música e Poesia de Paranavaí/PR). Tem poemas publicados na revista Aliás e no Jornal Poesia Viva. Edita o blogue http://adrianowintter.wordpress.com.
 
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