BLUES DO BABALU AMARGO

 

 

O corpo dela era tão maravilhoso que parecia não dar falta de um braço.

Não sei se o esquerdo ou o direito, Daniel nunca especifica esse tipo de coisa nas suas histórias, disse que a viu no ônibus e que era linda e que ouvia Sympathy for the Devil no seu MP4 — contou que o volume devia tá bem alto porque cantava aqueles who who, que têm na música, sem se dar conta de que os outros passageiros escutavam e trocavam sorrisos entre si — Era linda, repetiu, e não tinha um braço.

Perguntei se ele foi conversar coa a garota e, com os olhos cabisbaixos, respondeu que não. Acho que eu teria feito a mesma coisa e o arrependimento bateria do mesmo jeito, com os olhos cabisbaixos. Lamentaria não ter sentado ao seu lado, cutucado o seu único braço e me apresentado com um Please allow me to introduce myself, ou qualquer outro verso de Sympathy que combinasse coa ocasião. Fazer o que se não tenho malandragem nem fissura presse tipo de gracejo? Tenho timidez e vergonha na cara — não consigo abordar mulheres desconhecidas e dizer coisas como Garota, seu olhos são lindos, posso te dar um beijo?, além do mais, sou tão feio que não adiantaria nada fazer uma merda dessas. As mulheres que ficam comigo me conhecem e são malucas o suficiente pra gostarem da minha personalidade, ainda mais indigesta que o rosto, ou são apenas um bocado carentes. E, quando Daniel contou sobre a garota no ônibus, confesso que não consegui imaginar uma mulher linda e sem um braço — Vênus de Milo me veio à cabeça, mas ela não tem os dois.

Uns meses mais tarde, eu tava na estante de bebidas do supermercado com uma Vodka na mão, quando escutei a maravilhosa sugestão Posso comprar essa garrafa na fila dos deficientes se tu me convidar pra beber, topa? era linda — loira de olhos azuis e peitos grandes por debaixo de uma blusa branca, sem sutiã. O braço esquerdo lhe faltava. Pegou uma caixinha de suco de laranja e perguntou se eu tinha gelo em casa, que diabo de garota atirada era Letícia — eu queria devorá-la na estante dos sucos encaixados.

A gente até tentou o caixa prioritário, acontece que um bocado de velhas formavam uma eterna busca por moedas específicas dentro de suas niqueleiras minúsculas — a fileira normal, mesmo que com muito mais gente, era mais rápida. De que adiantam essas porcarias de filas? ela reclamou. Mudei de assunto e mesmo assim a convidei pra beber. Juro que eu sentia culpa, não sei direito o motivo, algo relacionado a uma garota daquelas me dar bola e, praticamente, oferecer-se pra mim — se tivesse os dois braços, teria uma fila de caras atrás dela, uma fila muito maior do que a que enfrentamos no caixa sem prioridades do mercado, caras cheios de certezas, com casacos escorados sobre o ombro, assobiando lindas e pacatas melodias enquanto rodopiam a chave de seus carros sports no dedo indicador. A ausência de um braço espanta o interesse dessa estirpe de manés. Sobra pra mim, que sou o oposto dos caras, tão oposto que não sei nem como me atrevo a chamá-los de manés.

 

(Não dirijo, não escoro casacos no ombro, jamais pensei em prestar concurso pra funcionário público, não sei amarrar meus cadarços direito e nem assobiar eu consigo — mantenho minha fama de idiota completo sem habilidade nenhuma. Nada fora do comum para o futuro de um garotinho de ginásio que nunca soube assobiar nem fazer bola de chiclete. Era aí que eu queria chegar, nas boas de chiclete: Só aprendi a fazê-las um dia depois de conhecer Letícia no mercado, não que tenha alguma relação com ela — foi uma prostituta quem me ensinou. A vagabundinha de olhos infantis sentou na minha mesa no bar e perguntou se eu lhe pagava um vermouth. Gostei do jeito quase chic que ela falava vermouth, vêrmú. Ficou conversando comigo aquele papo triste, porém insosso, de todas as putas e, lá pelas tantas, tirou um Bubbaloo morango da bolsinha. Quer dividir? perguntou. Respondi que não. Cê tá bebendo conhaque, o gosto não ia ficar muito bom mesmo. Adoro babalu, ela disse, na primeira mordida sai aquela gosminha, e gargalhou — era uma mina fraca pra bebida, parecia fraca pra tudo, mais osso do que carne — se bobear, a putinha não era nem maior de idade. Olha o tamanho da bola que eu faço, disse antes de inflar o chiclete e deixá-lo maior que o seu próprio rosto. Permaneci em silêncio e sério, nada adequado a situação. Quando o balão estourou, deu outra gargalhada e me provocou coa voz arrastando Duvido cê fazer uma maior. Foi quando disse que nem menor eu conseguiria e ela riu, minha nossa, riu um bocado, divertiu-se muito coaquela informação, a putinha se finava e eu permanecia sério demais. Respirou fundo com os olhos de lágrimas e decidiu me ensinar. Tirou o Bubbaloo da boca e ordenou que eu colocasse a língua pra fora, aquela garota tão triste tava tão alegre que não fui capaz de negar o seu absurdo. Mostrei a língua prela, que a puxou com dedos fininhos e a revestiu coa goma de mascar mastigada pelos seus dentes amarelos. Agora deixa a ponta dela entre os lábios e assopra!, um pequeno balão saiu pela minha boca e estourou rapidamente. A vagabunda me apresentou um sorriso, eu havia conseguido, abriu meu zíper e brincou coas minhas bolas por debaixo da mesa. Nos beijamos com gosto de alcatrão e morango. Delícia de putinha.)

Se Letícia tivesse os dois braços, provavelmente, não daria a mínima pra mim, então, toda aquela minha culpa morria, aos poucos, conforme a gente conversava. Ela preparava sua vodka com suco de laranja e eu ficava me perguntando se seria a mesma garota sem um braço que Daniel viu no ônibus. Podia ser — coloquei Sympathy for the Devil pra tocar, nenhuma reação. Hi-fi, eu disse, o drink preferido do Keith Richards. Ela sorriu breve, vodka pura é muito forte, falou e sentou ao meu lado. Tu gosta dos Stones? perguntei. Não conheço direito, gosto de Bom Jovi — Não era a mina do ônibus, havia, no mínimo, duas garotas lindas e sem um braço andando por aí. Tudo bem que essa curtisse o Bon Jovi, pelo menos chegou até mim.

Largou o copo no chão e me deu um abraço. Ficamos no meio da sala, colados e calados, escutando Sympathy. Até que é legal essa música, ela disse e nos beijamos, who who, minha mente cantava, toquei nas suas tetas enormes, plese allow me to introduce my self, caramba, que seios redondos e gigantes e lindos que eu tava louco pra morrer em cima, ali mesmo, no meio dos dois e coa boca aberta — tive receio de tirar sua blusa, algo me dizia que quando eu visse o toco, que lhe saía do ombro e não se estendia até muito longe, iria brochar. Não saberia como pedir desculpas caso isso acontecesse, aqueles olhos azuis não mereciam um brochada, e aqueles seios!, ondas magnânimas que atraiam umidade dos meus lábios... Os olhos azuis me pediam sexo, triste aquele azul, o mesmo azul do mar de Tim Maia, suponho, triste aquela música, Please to met you, hope you guess my name, azuis da cor do blues, ela puxava a minha camiseta, ajudei a retirá-la, arranhou minhas costas coas unhas vermelho-sangue e depois cravou a mão nos meus cabelos e desceu ao rosto e abriu minha boca com dedos incisivos, lambi os seus dedos, chupei os seus dedos — que brochar o caralho, arranquei sua blusa e sua saia e mandei ver, a música seguia no repeat, Ah, what's puzzling you, é a nutureza do meu jogo, beibe — pensava sempre em não olhar direto para o não-braço, acabei olhando umas quantas vezes, Cause I'm in need of some restraint, who who. Observar aquele toco distraía o orgasmo lá dentro dos meus bagos, ajudava a mim e a ela, há males que também vêm para o bem, tiros de babalu de alcatrão, I rode a tank, held a general's rank, who who, gozamos.

Acordei no chão e Letícia tava em pé de saias vestidas, confessou que ia embora sem se despedir. Levantei pra ajudá-la a colocar sua blusa, ela me explicou que, certamente, não nos veríamos de novo — disse que era uma garota um bocado independente pra se prender em relacionamentos. Lambi e mordi seus lóbulos e sua nuca, nos despedimos, recebi um beijo adorável e dei o último chupão naquele belo pescoço. Como poderia um pescoço ser tão belo? Me arrepiei toda, disse sorrindo — Acho que ri. Acho que falei eu te amo antes que a porta batesse.

 

 

 

 

GARRAFAS VAZIAS

 

E aí, não vai terminar o que começou? perguntei de barriga pra cima e pau em pé.

É que eu parei pra pensar um pouco, ela disse.

Qual é, garota, pensar não vai te levar a lugar nenhum.

E chupar o teu pau vai me levar aonde?

Depois dessa pergunta (intrigante, diga-se de passagem), Wynona caminhou em círculos pelo quarto, pescou o cigarro em cima do criado-mudo, deu mais uma volta e pegou a caixa de fósforos pra acender o fumo — foi mijar coa porta escancarada. Eu poderia calibrar minha canalhice e responder a uma foda inesquecível, é a isso que chupar o meu pau vai te levar! mas pelo nível de álcool que circulava em meu sangue, seria uma tremenda hipocrisia dizer uma coisa dessas, ou qualquer coisa que fosse. Tirei o braço pra fora do colchão e tateei o piso até encontrar alguma garrafa em que restasse cerveja. Resolvi me sentar e tomar mais uns goles — eu enxergava Wynona mijando coas calcinhas beirando os calcanhares e com os seios pequenos à mostra e com o cigarro preso naqueles lábios úmidos que há pouco me davam prazer. Meu pau ainda tava duro e larguei a cerveja pra tomar uma ducha.

O velho truque da água gelada? perguntou com seu sorriso maluco.

O velho truque da punheta, respondi antes de fechar os olhos e mandar brasa numa bronha que homenageava musas históricas do panorama brasileiro — começando pela saudosa Adele Fátima e passando para o trio Sônia Braga-Rita Cadillac-Luciana Vendramini. Foram fodas malucas e selvagens que a gente teve, se eu quisesse algo mais romântico, por acaso, apostaria na francesinha Juliette Binoche, ou em Carla Camurati na década de 80. Sempre planejei um jantar romântico entre eu e Carlinha, que, depois de algumas taças de vinho tinto seco, descambaria em uma noite intensa de beijos no lóbulo, lambidas circulares no pescoço, marcas de dentes na sua pele branquinha e sexo ao ar livre na varanda de uma cobertura do Leblon — a noite carioca lá fora e eu ali, dentro de Carla Camurati.

Wynona seguiu sentada no vaso e eu podia sentir que ela assistia à minha masturbação. Aumentei a velocidade e o fluxo de imagens de gostosas celebridades no meu pensamento e quando a porra se encaminhava, no escuro de minhas pálpebras fechadas para serviços internos, veio-me a própria Wynona mijando pelada com seu Camel na boca — sou assim, gosto de mentalizar gostosas inalcançáveis, mas na hora do gozo sempre apelo pralguma trepada que amo.

Escutei a descarga, Wynona entrou pra baixo do chuveiro e me deu um beijo enquanto uma de suas mãos tocava meu pau recém-murcho. Depois, virou-se de costas e se escorou nos azulejos da parede e eu a enrabei por um tempo longo e gozamos juntos e escorregadios — aquela velha história, punheta antes do sexo sempre ajuda num come together. Saímos do banho, voltamos pro quarto, fumamos umas bolas e bebemos cerveja.

Na época, eu cursava jornalismo e trabalhava na assessoria de comunicação da

Secretaria da Fazenda do Estado. Era um puta emprego burocrático, mas dava pra levar a vidinha de bares, aluguel e contas de luz e água. A mãe de Wynona também mandava uma grana, que somava com seu salário de técnica de enfermagem. Nós dois nos conhecíamos da cidade de Melo, no Uruguai, onde morei por um tempo.

Quando ela veio pra Porto Alegre acabou dividindo o aluguel comigo. Era um espaço minúsculo de uma sala e um banheiro — não tínhamos cozinha nem nada, apenas um colchão antigo de casal, uma geladeira velha de brick e um aparelho de som três-em-um (vinil, fita e CD). Naquele dia, as garrafas figuravam vazias pelo assoalho e escutávamos um disco do Nei Lisboa com os olhos doidos doidos doidos. Wynona fumada era sempre estúpida pra burro, ria por horas a fio sem dizer muita coisa e exagerava qualquer sentimento idiota. Um pouco antes, no início da noite, rasguei seu uniforme de enfermeira insinuando tesão e ela abaixou a guarda. Qual é, garota, tu nunca foi de negar uma foda, falei enrolando outro baseado.

Não é nossa foda que tô negando, Cal. É a vida mesmo.

Preferi ficar quieto, saquei o que tava pegando, acendi o back, coloquei o cd do Nei Lisboa e fumamos calados. Esse lance de ser preciso uma foda negada e um boquete pela metade pra conseguir algo no chuveiro mais tarde — por ciúmes de punheta, ainda por cima — era um bocado estranho. As coisas não rolavam assim antigamente. Ora bolas, quem era ela pra saber algo da vida? eu pensava. Sempre achei Wynona meio burrinha, nossos assuntos não tinham nada de mais e jamais entendeu as canções do Sabina, ou os versos do Dylan Thomas na minha cabeceira. Claro que eu não jogava nada disso em cima dela, até achava um barato. Porra, imagina se fosse uma taradinha tropicalista, fã de Caetano Veloso ou qualquer merda do tipo. No way. No hay como, na real — costumo ser um insulto ambulante presse tipo de garota pró-tropical, mas pra Wynona não — pra ela eu era um cara durão.

Quando nos trombamos, em Melo, ela vivia como uma dessas jovens que ficam pelos bares se atirando pra cima de qualquer homem solitário, contando amarguras da vida e tudo o mais. Eventualmente, nos encontrávamos de porre e transávamos em banheiros ou qualquer coisa que o valha — nunca pensei que fosse me apaixonar por esse tipo de garota e que (pior ainda), como todas as outras, em algum momento, ela passaria por cima de mim.

Agora Wynona julgava sua vida com personalidade suficiente pra negar fogo quando achasse necessário. Não que ela tenha perdido a ingenuidade caipira, muito pelo contrário, apenas tava começando a ficar descontente coa nossa vidinha — talvez aquela coisa de bar e fodas bêbadas com um bocado de caras em banheiros sujos fosse mais atrativo do que fodas bêbadas com um homem só em um banheiro não muito mais limpo. Dá pra entender, não dá?

Acabamos a noite atirados e tontos em cima do colchão. A erva não tinha me caído legal e, além disso, meu estômago tava embolado pra burro — arrastei sua coxa magra e branca, que repousava na minha barriga de cerveja, e levantei pensando em botar o dedo na goela a fim de me recuperar. Não foi preciso. Ao passar pela porta do banheiro, um jato de vômito subiu minha garganta e fez com que minha boca se abrisse mirando o vaso. A tampa tava fechada, bosta, isso que dá trazer mulher pra dentro de casa. Wynona levantou chapada e riu enquanto perguntava se eu tava bem.

Eu pareço bem?

Começou a gargalhar.

Sua maconheira estúpida, xinguei.

Riu ainda mais. Ah, Cal, não fala desse jeito comigo, resmungou dengosa no meio das risadas.

Eu falo como eu quiser. Quem mandou tu fechar a porra da tampa do vaso?

A convivência! respondeu coa voz arrastada e voltou a rir. Ela tava ficando esperta. Merda de convivência, praguejei e tirei a camiseta pra molhá-la na pia e limpar o estrago. Fui eu quem te dei essa camisa, Cal, falou depois que a coloquei no lixo. Era uma boa camiseta coa foto do Keith Richards estampada.

Ei beibe, é só uma camiseta. E, de qualquer forma, depois de todos esses anos, o velho Keith já deve tá acostumado coesse tipo de situação.

Droga, Cal, eu que te dei a camisa! começou a chorar e caminhou em minha direção pra me acertar pequenos socos. Me desenrosquei de seus braços e fui ao quarto vestir uma roupa. Perguntou se eu ia sair e eu disse que levaria as garrafas vazias até a lixeira. Alguém precisa dar um jeito nessa casa, beibe. Talvez, eu vá beber em algum lugar depois.

Eu vou contigo.

Hoje não, beibe, hoje não.

Fica aqui comigo, então, não tô legal.

É que alguém precisa levar esse bando de garrafas pro lixo.

Deixa que eu levo, daí eu volto e tu cuida de mim. Não sai pra rua hoje não, Cal. Ela juntou as garrafas rápida e nervosa, pôs dentro de algumas sacolas de supermercado, colocou o vestido de enfermeira completamente rasgado e caminhou em direção à porta. São três horas da manhã, frisou ao vento, não tem ninguém na nossa calçada.

Observei-a pela porta, tesei nos seus peitinhos de fora lá no meio da rua e no rasgo da roupa e na sua barriga inexistente. Wynona não era bonita, não mesmo, magra demais com um nariz cuspido pra fora do rosto e levemente estrábica — dona de uma voz irritante e aguda pra burro. No entanto, era uma tremenda garota — não vá pensar o contrário só porque não encontro nenhum adjetivo de qualidade para descrevê-la. Afinal, eu adorava aquela mulher e meu pau ficou uma rocha só de vê-la despejar as sacolas no canteiro. Tive que tomar uma atitude. Fechei a porta e girei a chave na fechadura antes dela entrar novamente. Escutei as batidas, o riso emaconhado pedindo preu parar coa brincadeira — me atirei no colchão e dormi.

Acordei com o estômago perfeito, quase contente por ter dado aquela vomitada — eram dez da manhã de domingo e o sol entrou forte pela casa quando abri a porta da frente. A rua tava calma e nem sinal de Wynona por lá. A garota tinha razão, nunca tem ninguém na nossa calçada, e outra; eu não precisava sair pra rua naquela noite. Mesmo assim, as garrafas deviam ir pro lixo. E, na minha cabeça, aquilo tinha uma tremenda cara de final. Uma enfermeira de pés descalços e vestido rasgado caminhando chapada pelo sábado escuro (nada alegre) de Porto Alegre. Combinava com ela, mais uma história pra contar pelos bares, mais um amor bandido na sua coleção de corações enferrujados.

Quanto a mim, às vezes me lembro das suas nádegas.

A bunda de Wynona não era nada brasileira — quase melancólica, eu diria. Pequena e magra e branca, com curvas simétricas porém rasteiras. Quando contesto a nacionalidade de seu quadril, contesto, porque a famosa bunda brasileira, que, com certeza, não nasceu nos nossos pagos e, sim, veio ao Brasil sentada em algum mórbido navio negreiro — é uma bunda que tem vida própria. Que parece ser independente da sua dona. Ou melhor, a mulher é que pertence à bunda. Com Wynona é ao contrário, ela nem de longe pertence a sua bunda. Gosto disso, e gostava de admirá-la de costas indo ao banheiro de manhã cedo, de preferência, quando ainda pensava que eu dormia. Atenção, leitor desatento, uma verdade da vida: bundas ficam muito mais belas e melancólicas quando as mulheres se levantam e ainda acham que o homem, com quem passaram a noite, permanece com os olhos fechados. E não é pelo prazer de assistir a uma bunda sem que a dona saiba, não mesmo! É pelo prazer da fêmea, que, naquele instante, acha que ninguém lhe assiste, que estaria mais solitária, somente, se nem sua bunda lhe fizesse companhia. A naturalidade, meu chapa — a beleza impressa na solidão como uma marca de dentes fincados na pele.

Porra, beibe, tu tem a bunda mais melancólica do velho oeste, eu sempre lhe dizia de um jeito meio que Jesse James, mal abrindo a boca, como se tivesse com preguiça de falar qualquer coisa. Ela ria, aguda e irritante, meu deus, aquela maldita risada que foi embora emaconhada num sábado noturno qualquer.

Esse quarto é pequeno demais pra nós dois, eu disse ao canteiro naquele domingo, a la Jesse James, por suposto. Isso acontece, beibe, chegaria o momento em que tu não saberia mais onde enfiar toda a porra da minha sensibilidade — ah, se ela coubesse nessas garrafas — estão lindas ali, por sinal, escoradas no lixo comum dos vizinhos. Nossa última imagem. Quer saber, fodam-se os vizinhos. Fodam-se os lixeiros, iconoclastas de nossa beleza, logo mais eles virão — um ataque terrorista na minha calçada.

 

 

 

 

CIRCO SEM FERAS

 

 

"Caminheiro que passas pela estrada,

seguindo pelo rumo do sertão,

quando vires uma cruz abandonada,

deixe-a em paz dormir na solidão...".

Castro Alves

 

 

O Grande Circo Paranaense não era tão grande assim, bem pequeno, aliás. O picadeiro tava armado há três quadras da minha casa, às margens do rio Guaíba, e soube dasua existência porque decidi comprar uma garrafa de conhaque e tomá-la no cais do porto — gosto de beber em um lugar específico de lá, bem longe das pessoas que fazem exercícios e dos brigadianos que correm e ciclistas e patinadores e maconheiros e namorados e toda essa gente que não entende a solidão de um cara que bebe Dreher, às três horas da tarde, enquanto olha o Guaíba. Um senhor magro parou na minha frente, fiz questão de não olhar pra ele. Vai tomar um porre, garoto? perguntou. Não respondi nada. Repetiu a pergunta e eu disse que não, ficou me encarando sem entender muita coisa por um tempo e, depois, seguiu seu caminho.

Lá no Uruguai, de onde venho, o povo costuma respeitar a solidão. Aqui não é bem assim, até em bares tem gente que fica incomodada ao avistar um cara bebendo sozinho. As pessoas parecem sentir pena disso. Ridículo. Não tô falando daquela solidão rasa, tô falando de algo que acompanha ad infinitum tipos como eu. Pra se acostumar com uma coisa dessas, é preciso abraçar a melancolia, por isso domo meu estado de espírito com conhaques bagaceiros, filmes do Jim Jarmush, discos do Joaquín Sabina, miojos com salsicha, punhetas rotineiras e amores de mentira. Era o que eu fazia ali bebendo Dreher e olhando pro circo, ainda, fechado.

Duas mulheres saíram de um trailer e passaram por mim em direção a cidade, eram mãe e filha, suponho, e eram lindas. A mãe tinha um rosto enrugado e seios fartos e um traseiro bem torneado e duro e pernas grossas com coxas lindas — mais gostosa do que a filha. Pelo seu corpo, imaginei que fosse uma daquelas equilibristas que se penduram em fios ou arcos suspensos no ar. A filha, de olhos escuros e bunda magra, devia ter uns dezesseis e parecia desanimada. Seus olhos eram lindos, sei disso porque me fitaram — nossa, que olhos confusos eram aqueles, passaria minha vida toda olhando praqueles olhos. Essa era a minha vontade, me mandar dessa cidade chata atrasada sem sal que é Porto Alegre — cair fora junto com o circo.

Eu poderia ser um grande domador de leões, tenho certeza disso, o melhor que o Circo Paranaense já teve o prazer de anunciar — basta um pouco de treinamento e um animal disposto a pular arcos de fogo. Caso contrário, poderia apenas trabalhar limpando a jaula dos elefantes, estendendo a lona, fazendo comida, tanto faz, porque de noite, enquanto o espetáculo tivesse em andamento, ficaria em meu quarto escrevendo poemas e romances de estrada e, por suposto, faria de tudo pra me casar coa garota dos olhos confusos, tão lindos e tão confusos que, se ela fosse personagem das bobagens que escrevo, seu nome seria Soledad. Seguiria a profissão da mãe e teríamos filhos, crianças lindas radiantes selvagens correndo peladas pelos gramados de nossos paradeiros — meu deus, eu acreditaria em felicidade ao lado de Soledad e das nossas crias selvagens e do Grande Circo Paranense. Sei que, às vezes, ela ficaria quieta e fitaria o nada por alguns minutos e tudo o que eu poderia fazer seria pedir desculpas. Perdão, Soledad, perdão por não teres uma vida normal e estabelecida lá fora, mas nós pertencemos ao Grande Circo Paranaense e ele nos pertence, não é algo que a gente possa mudar — ela entenderia, com certeza, mas diabos, como eu me sentiria mal por não ter dado essa chance ao seu futuro. Deus, eu teria tanta pena daqueles olhos pretos que parecem sair de uma música triste e bonita e chata do Chico Buarque. Sabe, nena, Allen Ginsberg acertou, eu lhe diria, o amor é o peso do mundo, pode crer que é. O mundo seria mais leve, Soledad, se não houvesse eu e você e o circo e todas essas nossas crianças selvagens e o amor.

O que fazer, afinal, se toda essa tristeza se reluziria nos finais de tarde, quando

Soledad praticaria no trapézio e eu me sentaria tomando meu conhaque, digerindo as ideias pra escrever mais tarde e junto coas nossas crianças, que brincariam e observariam atentas o treino da mãe. Uma versão realmente guapa de O bêbado e a equilibrista.

Sabe, Soledad, teus olhos são a minha própria confusão.

A bebida descia. Ei Dreher, falei à garrafa, não te assustes, algumas mulheres têm esse tipo de poder — bastou uma olhada pra me fazer acreditar em felicidade, até no amor eu acreditei. Coisa besta, né, Dreher? Soledad me tiraria da solidão, imagine só! Ninguém tira Cal Canalha da solidão, nem Deus, nem a jovem mais linda e triste desse mundo, no duro, nem Soledad. Adiós, Soledad, hasta la vista, nena.

(Isso que a gostosa dali era a sua mãe)

E aí brother, dá um gole desse conhaque?

Nem percebeu que eu tava aqui, não é? falou o cara ao meu lado. Ele trabalhava no circo — o melhor motoqueiro paranaense de Globo da Morte. Não lembro o seu nome (vou chamá-lo de Motoca). O Motoca poderia ser só outro chato tirando minha paz e meus sonhos circenses, não sei o motivo, acontece que eu decidi dar uma chance e um gole pro cara. Muitos são os que pedem um gole quando veem um homem e uma garrafa, acredite, na maioria, flanelinhas e moradores de rua, na maioria, gente que não sabe ser um bom borracho. Bons borrachos, geralmente, não pedem goles. Bons borrachos não pensam que Dommus seja whisky. Eles não pensam nem que uísque nacional seja whisky, embora bebam essas merdas todas na falta de grana, fazer o que?, bons borrachos, salvando raras exceções, tão sempre na falta de grana.

Cê tem filhos? perguntou o Motoca depois de alguma conversa.

Falei que só um garoto. Gregory, o nome dele, Gregory Corso, igual ao pai.

Hah, só mesmo um filho pra fazer um jovem como você beber sozinho numa hora dessas.

Que merda, hein, Motoca, eu invento uma coisinha e tu já vem com todo esse absurdo de filosofia. Grande bobagem, pensei — no entanto, deixei que ele falasse.

Devia trazê-lo ao circo essa semana, as crianças costumam gostar. É a última semana, sabe? Grandes espetáculos acontecem na última semana.

Quem sabe, Motoca, vou pensar no assunto, quem sabe eu traga. Não sei se a mãe dele vai deixar, a gente não vive junto, saca? E, como todas as judias, ela é super protetora pra burro. Chama-se Soledad, bonito nome, não é? Soledad? Um estranho nome pruma judia, porém, muito bonito.

Motoca concordou balançando a cabeça e mandou mais um gole. Mulheres... suspirou antes de acender um cigarro. Era um tipo calado, o Motoca — sabia que não precisava tagarelar qualquer merda pelo simples motivo de estar tomando um trago com alguém. Ao contrário do Brasil, costumo respeitar caras assim.

Sabe, Motoca, o pequeno Gregory adora tigres e leões e esses animais, cês têm isso aqui? Ele apenas deu uma risada amarela — tigres foram proibidos junto com todo o tipo de feras e animais selvagens, me explicou (lá se ia o meu grande futuro como domador de leões). A gente tem pôneis, Motoca concluiu com um sorriso amarelado, uma enorme decepção tomou conta do seu rosto. Eu podia entender seu semblante muito bem.

Grande merda, um circo sem feras (um hai kai, talvez). Como se as leis que tiram a selvageria da urbanização não bastassem — prevejo um futuro onde terei que subir no morro pra conseguir um pedaço de chuleta e algumas batatas fritas, malditos falsos moralistas politicamente corretos. As coisas andam insossas — o universo tá virando um enorme circo sem feras e quase ninguém parece perceber. O Motoca concordava comigo, ainda que não tenhamos falado nada a respeito, sei que ele concordava, por isso bebemos calados, por isso pedi um cigarro e soltei longas baforadas pra contemplar a fumaça — é bom aproveitar a fumaça enquanto não a proibiram também.

Nem elefantes? ainda perguntei.

Nem elefantes, brother, nem elefantes...

Motoca se despediu, see you in another life, brother!, ainda faltavam alguns talagassos pra garrafa acabar e continuei por ali. Esperava que Soledad e sua mãe gostosa voltassem, mesmo que eu não fosse abordá-las ou qualquer coisa que o valha, só queria vê-las de novo. Mais tarde, homenagearia as duas em casa — sabe como é, domar a solidão sem ter dinheiro pra pagar uma puta. Eu poderia entrar em algum bar cult da cidade, aguentar alguma fã de Caetano Veloso por duas ou três horas, ler uns poemas pra ela e, quem sabe, levá-la pra cama. Andava sem saco presse tipo de coisa. Andava sem saco da vida, dos saraus de poesia, das peças de teatro vanguardistas, taradinhos tropicalistas, dos literatos professores que acham que contribuem para a literatura gaúcha, de todos esses circos sem feras e, até, pra programas de televisão eu andava sem saco — talvez se jogar pela janela de um oitavo andar fosse a solução mais digna, porém, continuo acreditando que o suicídio é uma espécie de vocação. Tenho certeza que morrerei de uma maneira idiota o suficiente para simbolizar minha passagem babaca pela vida — tudo bem, ainda sou jovem, uhuu! Vou contar um negócio, leitor, acho que não vou mudar muita coisa.

Minhas mudanças resumem-se a essas simulações da realidade que sempre tô contando pras pessoas — tipo a história que inventei pro Motoca sobre mulher judia divorciada e filho chamado Gregory Corso, que porra era essa, afinal? Pensei numa canção de Sabina, é mentira que mais de cem mentiras não digam a verdade, ele canta. É mentira que faço minhas músicas de amor pensando em você, é mentira que sou um toureiro ainda melhor com um touro de verdade na minha frente... O conhaque chegou ao fim e o dia também e a cidade — faz tempo. As luzes que decoravam a lona do Grande Circo Paranaense acenderam e uma música valdeville soava lá dentro. Não percam a última semana de espetáculos em Porto Alegre! o carro de som anunciava. Sua última chance para ver malabaristas, o grande mágico Kabutz!, inúmeros palhaços, a mulher CONGA e os incríveis pôneis adestrados! Venham, venham, é a última semana do Grande Circo Paranaense.

Acontecem bons espetáculos na última semana, eu pensei.

Levantei do gramado, esfreguei as mãos de barro na calça jeans — uma bituca de cigarro figurava acesa, cogitei em apagá-la coa sola do sapato, mas preferi deixar que restasse em paz.

Era hora de estender o dedo e cair fora dali.

Fui embora, antes do circo.

 

 

 

[imagens © steve allen]

 

 
 
 
Bruno Bandido nasceu em 1990 na fronteira com o Uruguai, vive em Porto Alegre e acredita que é só mais um jovem caipira que leu os livros errados e apanhou para um tabuleiro de xadrez. Prepara o seu primeiro livro de contos, Guia subterrâneo de relações arrasadas. Bloga em brunobandido.wordpress.com e edita o site de contrajornalismo Língua Pop [linguapop.wordpress.com].