A ansiedade perturba o prazer, então eu respiro fundo e tento relaxar. Ergo um pouco a cabeça e olho para diante, sim, tesão louco, não estou sonhando. Os músculos de meus ombros doem, mas eu não me dou conta disso. Apenas a vontade de arrancar as algemas é que me torna consciente de minha prisão e dessa necessidade de fuga. Pau duro. Respiro fundo três vezes seguidas, sinto meu coração acalmar suas palpitações ansiosas e chamo:

 

— Vem pra o papai, vem.

        

Ela me ignora, mas isso faz parte do jogo. Consigo ver suas pernas compridas e brancas contrastando-se ao brilho frio, como o de uma lâmina, do couro lustroso de suas botas de cano longo e salto alto. Encontrando-se com as meias, a cinta liga e o corpete, todos negros, tão negros quanto a minha vontade de inferno. Ela acende um cigarro, o chicote apoiado distraidamente em suas axilas; os cabelos presos num coque, os lábios salientes e vermelhos de batom. Pau duro. Tenho que pedir outra vez, implorar para ser escravizado, humilhado, pisoteado por suas botas, cuspido por sua boca, chicoteado, arranhado, mordido. Pau duro.

        

— Vem, minha dona, me escraviza! Sou teu servo fiel e pequei contra a tua imagem. Mereço a mais terrível das punições. Vem que aceitarei de bom grado.

        

Comecei errado, penso, mas ela se vira em minha direção, segura o chicote com a mão esquerda e apóia o pé minha barriga pouco atlética. Ela se curva e eu grito ao sentir a brasa do cigarro queimando a carne de meu mamilo. Grito, pau duro, de prazer, essa é que é a verdade. A dor existe, sim existe, mas apenas para acentuar a delícia, apenas para provar na prática que o prazer existe, que o outro lado da dor é o orgasmo.

        

— Não, por favor, pare! Não faça isso! Pare!

        

Não tenho certeza, grito por impulso e não sei se falo a verdade. Provavelmente isso também faz parte do jogo, é difícil ter alguma certeza. Ela retira a guimba do cigarro e belisca meu mamilo com as mãos enluvadas, torcendo-o lentamente. Depois lambe, depois chupa. Suas mãos passeiam acariciando os pêlos de minha barriga. Eu estou suando. Doido pra lamber o salto de suas botas, como se eu fosse o rei dos boquetes e aquele fosse o pênis mais gostoso do mundo. Quero a entrega, total e completa, de peitos peludos queimados e abertos.

        

— Você tem sido um menino muito mal, merece um castigo especial que preparei pra você.

        

É a primeira vez que ela fala e isso me dá náuseas. Não o fato de ela ter falado, mas o tom frio que usara. Não, isso não fazia parte do jogo... e eu odeio surpresas. Meu coração tornou a acelerar. Ela subiu na cama e eu senti os músculos de meus ombros se esticarem mais uma vez, as algemas forçando-se contra meus pulsos.

        

— Quero lamber suas botas, minha senhora.

        

Ela estica um dos pés em direção a minha boca e eu deslizo minha língua pela sola de sua bota, chupo o salto. Pau duro. Eu sinto uma vontade louca de gozar naquelas botas, vê-las sujas de esperma. Não sei exatamente o que move essa vontade, sei que o poder que ela exerce sobre meu corpo, a possibilidade dela fazer o que quiser visto que estou completamente indefeso, me deixa excitado. Fetiche, feitiço, pela submissão. Não vejo o chicote, mas a pancada é tão forte e súbita que faz o meu rosto virar para o outro lado, queimando, vermelho, pau duro. Suado. É uma seqüência de chicotadas, percebo depois da quinta ou sexta. Grito, sim, grito novamente, de dor e de prazer!

        

O suor escorre por minhas costas, empapando o colchão, molhando minha cueca branca. As algemas se tornam cada vez mais incômodas, os músculos dos ombros se esticam e se torcem. Ela desce da cama e vai até a escrivaninha do outro lado do quarto, abre a gaveta. Eu tento ver o que ela ta pegando, mas não consigo, são dois objetos pequenos, um parece com (Uma tesoura!) um alicate. Sim, é um alicate! Meu Deus, o que ela pretende fazer com isso?, me pergunto. Pela primeira vez fico realmente com medo, pau murcho, isso definitivamente não faz parte do jogo.

        

— O que você pretende fazer? — Pergunto e minha voz mal consegue sair, é quase um gemido.

        

Ela permanece calada, vem se aproximando e eu vejo que o outro objeto é um grampeador. Merda!

        

— Olha, eu não sei o que você pretende fazer, mas eu não estou gostando disso, isso não faz parte! Então eu acho melhor você pegar as chaves e abrir essas algemas. A brincadeira acabou!

        

— Você tem sido um menino muito mal — é tudo o que ela fala, novamente o tom frio na voz, como um maldito robô, sem nenhuma emoção.

        

— Não, não, não, não — Fico repetindo sem parar, não quero que ela faça mais nada — por favor, não não não não não!

        

Ela segura firme o grampeador e se aproxima de meu rosto. Meus olhos estão lacrimejando, digo:

 

— Por favor, não.

 

O que se segue é demasiado rápido e mal tenho tempo de perceber o que ela está fazendo, apenas sinto a dor lancinante e crescente. Ela estica meus lábios com a ponta dos dedos e clac! Sinto o gosto de sangue entrando em minha boca, meus olhos se arregalam em desespero, mas antes que meu grito pudesse ser dado: Clac! Clac! Clac! Clac! Minha boca está toda grampeada, sinto o sangue descendo pelo queixo, pescoço. Ela sorri.

 

— Isso é grampo usado pra prender couro em sofá. Não tentaria abrir a boca se fosse você.

 

Minha respiração está fora de controle, percebo que se eu abrir a boca, ela se rasgará em vários pedaços, ficará em frangalhos! Toda a carne do meu corpo parece tremer, penso que ela vai me matar, lembro que pedi a mais sádica das dominadoras, paguei caro por isso.   Minha testa está suando em bicas, gotas de suor se alojando em minhas sobrancelhas, quase descendo até os olhos. Ela se afasta e começa a despir minha cueca, meus colhões estão encolhidos, meu pênis parece querer ir para o lado de dentro. Murcho e flácido.

 

— Hummm, hummmmm!!!

 

Me contorço para um lado e para o outro, não tem jeito, ela vira o meu pênis para um lado e prende a cabeça do alicate em uma das minhas bolas, sinto o metal frio encostando lentamente, ela me olha nos olhos. Eu choro e rezo, meu Deus, para que eu não sinta nenhuma dor, nenhuma. Ela aperta o cabo com toda a força, esmagando minha bola, me levando até o inferno da dor, o quase insuportável, uma cegueira momentânea. Só depois do grito estrepitante é que percebo que abri a boca, meus lábios estão em frangalhos, sangue jorra em torrentes de meus lábios esfacelados e eu não sinto mais as minhas pernas. Não paro de gritar, grito de dor, grito por socorro.

 

Ela sorri, eu vejo, os olhos sem mudar a expressão por um único instante.

 

— Eu disse que tinha uma surpresinha para você.

 

E a coisa mais inacreditável do mundo acontece: Ela sobe na cama, encosta a sua cona na minha cara e, sem ao menos tirar a calcinha, mija em minha boca. Um mijo quente que parece não terminar nunca, nem mesmo a dor por causa do contato da urina com minhas feridas abertas eu sinto. Estou em choque.

 

— Logo estará terminado — ela fala após terminar de me dar um banho de mijo — Estou quase gozando.

 

Eu escuto meio ausente, é como se a sua voz estivesse em outro plano. Não consigo nem pensar, até mesmo pensar dói. De repente algo quente e cremoso é despejado sobre a minha barriga, mas o que confirma minhas suspeitas é o odor que se segue.

 

— Meu Deus Senhor, ela está cagando, ela está cagando em mim, meu Deus!, penso, enquanto alguma parte de mim, alguma parte em um outro universo, chora sem parar.

 

Abro os olhos, minha visão está embaçada, mas ainda consigo distinguir o montinho amarronzado sobre a minha barriga, oscilando com a minha respiração, subindo e descendo. Procuro ela com os olhos, mas não consigo encontrá-la. Por um momento penso que ela foi embora e que me deixará ali pra morrer de tanta dor, de tanto sangrar, então a vejo no canto esquerdo do quarto.

 

A desgraçada estava se masturbando. Os olhos fechados, os dedos massageando a sua boceta freneticamente, os gemidos altos. Não consigo olhar por muito tempo e então desmaio, apago numa verdadeira espécie de morte, de fato a morte deve ser alguma espécie de silêncio.

 

Não sei quanto tempo levou até que eles chegassem, ninguém me explicou o que aconteceu. Lembro de abrir os olhos e ver uns homens de branco em minha volta, gritavam, me arrastavam em uma maca. Descobri depois que uma mulher havia telefonado e pedido uma ambulância, provavelmente ela.

 

Estou no hospital agora. Tenho medo de me olhar no espelho, medo de ver o meu pau, medo de fechar os olhos, medo de sair daqui.

 

 
 

 

 

 

         A porcaria do carro foi dar prego exatamente no trecho da maldita BR que mais o assustava: o km 48. Meu Deus, pensou, sentindo-se nauseado, e hoje é o dia 13!

         Tremendo, ele girou a chave na ignição com um pouco de esperança. A porcaria rinchou, peidou, se tremeu toda e parou. Ferreira sorriu.

         — Ótimo. É, é isso. Mas que merda!

         Ferreira era um homem supersticioso e bastante impressionável. Trazia em seu carro uma verdadeira exposição de amuletos e patuás — um trevo de quatro folhas como chaveiro, um pé de coelho e uma figa dependurados no retrovisor, um crucifixo no pescoço e uma Bíblia sobre o painel de instrumentos; para citar apenas alguns — Ferreira amaldiçoou a hora extra, hora extra que acabara por deixá-lo de plantão até o começo da madrugada. Agora estava ali, parado no meio do nada, sozinho, sem entender de carros e com o celular descarregado. Em outras palavras: Ferreira estava com merda até o pescoço.

         — Calhambeque desgraçado — Ele socou o volante, fazendo um barulho com a buzina que o assustou.

         Um carro passou voando ao lado de seu fusca azul, se afastou e sumiu na escuridão da noite. Ele olhou o relógio e viu 00:59 Am se tornando 01:00 Am diante de seus olhos quando subitamente alguém entrou pela porta do carona e sentou-se ao seu lado.

         Ferreira gritou. Sentado no banco do carona estava um homem, Deus, com metade da cabeça esmagada e todo sujo de sangue. Sua roupa tinha marcas de pneus e pequenos pedaços de uma coisa branca e molhada. Um cheiro de carne podre invadiu o carro.

         — O que está esperando? — Disse ele tentado parecer simpático apesar de seu estado decrépito — Mete o pé na tábua, pô!

         Ferreira gritou de novo, tão alto que até seus ouvidos protestaram, tentou desesperadamente abrir a porta do carro, sem sucesso.

         — Qual o problema? — perguntou calmamente o intruso — Eu só quero uma carona, tá legal, Brother?

         Ferreira tentou falar, mas só conseguiu emitir um grunhido.

         — Vambora, vambora, vambora, meu irmão! Tá esperando o que? Eu não tenho todo o tempo do mundo não!

         Sem falar nada e tremendo, Ferreira girou a chave na ignição, o carro pegou sem nenhum problema, ele passou a primeira e foi em frente. Suas mãos tremiam enquanto agarravam o volante com força. Mas que diabo!

         — Tá ligado que eu tô morto, né? — falou o carona, tentando puxar assunto — Me chamo Guga, e você é o Ferreira, o Ferreira é o que você é, é sim.

         — É... — Ferreira falou com a voz trêmula — Vai pra onde?

Guga deu uma gaitada.

         — E pra onde mais eu iria, cumpade, ao Shopping? À boate mais próxima? Vá se foder!

         Ferreira engoliu em seco.

         — Têm cigarros? — perguntou o morto.

         Ferreira sorriu sem desviar os olhos da estrada.

         — No porta-luvas — ele estava começando a se acalmar — Eu estou tentando parar, mas também quero um — E acrescentou: — Devia parar, isso pode matar você.

         Guga gargalhou como um vilão dos filmes de agente secreto que tanto assistia quando criança.

         — Você é um cara engraçado, né? Eu gosto de caras engraçados. Mas Ferreira é um nome sério, não é pra você. Seu nome agora será cara engraçado, é, é sim.

         Ferreira sorriu.

         — Por que está fazendo isso? — Perguntou para o vácuo.

         Guga abriu o porta-luvas e tirou uma carteira já quase no finalzinho de Free light.

         — Você fuma essa porcaria? Isso é cigarro de maricas, vá tomar no cu! — E jogou o maço pela janela.

         — Quero dizer, por que eu? — Ele estava quase chorando — Por quê?

         — Ah, num chora não, cumpade! Puta que pariu!

         Ele puxou uma carteira de Hollywood do bolso da jaqueta de lona preta e um isqueiro. Acendeu em sua boca rachada e suja de terra.

         — Toma, chorão — Fumaça saía por sua cabeça quando ele tragava.

         — Por que isso tá acontecendo?

         — Cara, esse carro é um lixo. Não consegue correr mais que isso não, é, bacana?

         Ferreira irrompeu em um choro descontrolado, estava nervoso, achava que havia enlouquecido ou que iria morrer. Uma urina quente desceu por sua perna, molhando o jeans e o estofado do carro.

         Guga arregalou o único olho que tinha, o outro não passava de um amassado ensangüentado e escuro sobre a órbita invisível, e gritou apontando para as pernas de Ferreira:

         — VOCÊ MIJOU NAS CALÇAS, MEU IRMÃO!

         Começou a rir descontroladamente, pequenos pedaços de carne soltaram de sua cabeça desfigurada e deslizaram pela jaqueta de lona.

         — Cara, eu nunca tinha visto isso na minha vida! — Depois completou — Nem na minha morte!  

         Ferreira respirou fundo e fechou os olhos, se acalmando e tentando fazer com que o seu novo amiguinho sumisse, provando que tudo não passava de uma alucinação louca causada pelo cansaço, mas assim que fechou os olhos, ouviu:

         — Que merda é essa? Olha pra estrada, caralho, você vai acabar nos matando!

         Guga uivava de tanto rir, para ele suas piadas eram as mais engraçadas do mundo. Ferreira achava que não.

         Eu devo ter dormido no volante e estar inconsciente em algum lugar perto daqui, com a cabeça sangrando e com um terço do carro enfiado em alguma árvore. Há-há, só pode ser isso.

Não era. No fundo Ferreira sabia que aquilo estava realmente acontecendo.

         — Que espécie de cara você é, algum babalorixá, pai de santo? — Perguntou Guga, olhando para os amuletos espalhados pelo carro.

         Ferreira engoliu a seco. Meu Deus, por que comigo, por quê?

         — Seguinte — falou Guga e Ferreira olhou com o canto dos olhos —, eu vou ser bastante franco com você, cara engraçado, eu vim falar com você porque tenho uma missão...

         Mas antes que pudesse completar irrompeu em uma gaitada que doeu até os ouvidos de Ferreira. O defunto filho da puta estava morrendo de rir.

         — Eu sempre quis dizer isso, cara, que demais!

         — Pode crer.

         Guga olhou para a janela.

         — Relaxa, não vou te incomodar por muito tempo, estamos quase chegando.

         Ferreira tentou lembrar onde exatamente estava indo e chegou à conclusão que não fazia a menor idéia. Resolveu perguntar.

         — Você não me falou para onde estava indo.

         Guga jogou a bituca do cigarro pela janela.

         — Puta merda, é mesmo! — Ele bateu na cabeça e Ferreira pode ouvir claramente o barulho de uma coisa molhada sendo espremida — Pare no próximo bar que eu vou lhe pagar uma cerveja.

         Ferreira sorriu e respondeu trincando os dentes.

         — Pode deixar, Gu-ga...

         — Que há, você não bebe?

         — Uma cervejinha de vez em quando.

         Guga pareceu satisfeito e se recostou na cadeira.

         Seguiram em silêncio por um tempo, Ferreira mergulhado em orações e Guga olhando a paisagem, até que ele quebrou o silêncio.

         — Pare ali antes daquela curva, okay?

         Ferreira não pôde acreditar.

         — Hã? Ali na frente? — Mal podia conter a felicidade em sua voz.

         — Mas é claro que é ali, mermão, tá vendo mais alguma curva?

         Ferreira meneou a cabeça afirmativamente.

         — Pare ali que eu preciso mijar — Completou Guga.

         Ferreira começou a rir. Quer dizer que defuntos mijavam? Filhos da puta!

         Freou o fusquinha azul metálico e esperou. Guga colocou uma perna do lado de fora e então disse:

         — Se tentar fugir eu te pego, tá ligado?

         Ferreira fez que sim, Guga desceu.

 

Ele não podia se conter, pedia, com toda a fé que acreditava ter, para que tudo o que pretendia fazer desse certo. Olhou para o lado e viu o defunto filho da puta assobiando distraidamente enquanto tirava água dos seus malditos joelhos podres.

Era a sua chance.

Sua única chance.

         Tremendo e acariciando o crucifixo do peito com uma das mãos, Ferreira deu partida no carro. Guga olhou para trás, Ferreira estirou o dedo médio pra ele e pisou no acelerador. Ainda teve tempo de ouvir:

         — Não faça isso, SEU FILHO DE UMA PU...

         O fusca de Ferreira seguiu em frente o mais rápido que podia. Seu coração batia forte, suas mãos tremiam e ele repetia sem parar: obrigado, obrigado, obrigado, meu Deus! Olhou para o retrovisor e teve a impressão de ter visto o seu antigo carona com o polegar estendido na direção contrária, procurando outro "cara engraçado" para se divertir. Respirou aliviado, nunca saberia exatamente o que tinha acontecido. Ferreira abriu o porta-luvas e lembrou que o filho da puta jogara fora o seu cigarro.

         — Merda.

         Não tinha importância, pensou, só precisava se preocupar agora com o cheiro. O maldito cheiro de carne podre do defunto filho da puta!

 

 
 
 
 

(imagens ©f. lemos | morula)

 

 

 

 
 

Roberto Denser (João Pessoa/PB, 1985) já foi açougueiro, vendedor de sandálias magnéticas e ator. Abandonou o curso de Letras para fazer Direito e, atualmente, trabalha naquilo que ele define como "um romance psicodélico". Gosta de filmes e livros de terror, histórias em quadrinhos e cerveja com batata frita. Tem medo de Clive Barker e aranhas, mas adora Stephen King