Fazer poesia não é fácil. E escrever sobre o que talvez nem seja poesia é mais difícil ainda. Quero falar sobre um poeta da minha geração. Um poeta que faz poesia quando se afasta da poesia, querendo misturar a poesia com as artes visuais. Ele que é um poeta do som, porque realiza performances com uma poética das mais radicais. E o faz com a certeza de quem está caindo no abismo. O abismo de um sol, quebrando o conceito até mesmo das vanguardas.

Imagem. Pensamento. Som. Três palavras básicas para a construção da linguagem poética estão presentes na obra-prima Anu de Wilmar Silva, também autor de Yguarani, que acabou de sair em Portugal, pela Cosmorama Edições. Poesia que mais parece escultura. Poesia que mais parece construção de uma língua (ou será desconstrução?). Poesia que mais lembra a gramática de uma língua que nasce. Escrevo aqui sobre esse trabalho, mas escrevo com a cabeça arrebatada pela beleza daquilo que não se explicaria. Difícil explicar o inexplicável, porque para entender o que falo seria necessário ver um poema que seja do livro e perceber que se trata de um enigma-imagem, que existe para ser contemplado. Wilmar Silva é um exemplo radical de poeta que não se rende, mostrando que a poesia é um campo minado, em explosão.

Sete anos depois da primeira edição, em 2001 (Orobó Edições, Belo Horizonte), Anu recebeu, em 2008, uma segunda edição, agora pela Confraria do Vento, editora do Rio de Janeiro, com um projeto gráfico simples, para abrigar uma estética complexa. O editor e poeta Márcio-André afirma no prefácio "Este livro nos apresenta um mundo novo, uma nova forma de pensar a poesia, e ainda dispomos de poucos críticos verdadeiramente atentos para perceber o que oferece. É um livro ousado, que ainda não foi lido com ousadia". Fabrício Carpinejar escreve na quarta-capa: "o poeta não facilita o endereço do ninho criativamente ele formula poemas como xilogravuras papel prensado sobre a matriz de tinta só tocando as partes elevadas da linguagem".

Pode ser um engano, mas acredito em Anu não apenas como um livro de poesia, mas um movimento capaz de mudar os modos de fazer poesia. E mudando os modos de fazer poesia, o poeta Wilmar Silva quer mesmo é interferir na cabeça do leitor, puxando as pessoas para uma escritura que tem a liberdade como alicerce de criação. Mas uma trama de letras que pede um leitor inteligente, capaz de perceber a busca de uma totalidade biológica, onde língua e poesia são a mesma coisa, em constante supressão de letras e sílabas. Anu tem a força de um poeta que parece não suportar mais a poesia, então, ele tem que inventar uma saída, descobrir uma forma para continuar a sua inspiração. Uma inspiração construída com os instrumentos de uma ciência. Anu é o pensamento falado da pós-modernidade. Anu vai representar no futuro a morte das vanguardas, e vai representar também a passagem entre os séculos XX e XXI.

Sou um dos muitos admiradores de Wilmar Silva, um dos mais interessantes poetas da atualidade no Brasil, e que deveria ser muito mais conhecido.

 

 

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O livro: Wilmar Silva. Anu. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2008.

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outubro, 2009

 

 

 

 

 

Jovino Machado (Formiga-MG, 1963). Poeta. Graduado em Letras (UFMG). Publicou, entre outros, Trint'anos proust'anos (Mazza edições, 1995), Samba (Orobó Edições, 1999), Balacobaco (Orobó Edições, 2002), Fratura Exposta (Anome Livros, 2005), Meu bar, meu lar (Editora Couber Artístico, 2009) e Cor de cadáver (Anome Livros, 2009).
 
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