© loredano
 

 

 

 

 

  

Machado sempre escreveu sobre mulheres e para as mulheres. Os amores e frustrações femininos eram seus temas constantes. A mulher sempre foi personagem primordial de sua ficção. Em Machado, o feminino confirma-se como uma categoria literária — eis um  sinóptico intróito que muito bem  caracteriza  um dos  cernes de sua obra ficcional.

              

Machado sempre escreveu sobre mulheres e para as mulheres e não era segredo — pelo menos até 1881, quando consolidou a longa e profícua atuação nas páginas da Gazeta de Notícias1— preferia colaborar em publicações cujo público predominante era feminino, primeiro no Jornal das Famílias2 — no qual inclusive publicou, de 1864 a 1876, em sua fase dita 'romântica', à qual se filiam também seus primeiros romances, os 8 contos enfeixados sob o título de "Histórias românticas" — e a partir de 1879 em A Estação3.

 

Sua obra, de modo geral, encena vários tipos femininos, com histórias povoadas de muitas personagens e situações que mostram as alternativas com que as mulheres se defrontam na vida: assim é com  Lívia de Ressurreição, Guiomar de A Mão e a Luva, Helena, Iaiá Garcia, Virgília e Marcela de Brás Cubas, Sofia de Quincas Borba, Capitolina de Dom Casmurro, Flora de Esaú e Jacó, Fidélia e Carmo de Memorial de Aires, além da profusão das protagonistas de inúmeros contos, como  em  "Missa do galo", "Capítulo dos chapéus", "Singular ocorrência", "Uma senhora", "Trina e uma", "Primas de Sapucaia!", "Noite de almirante", "A senhora do Galvão", "Uns braços", "D. Paula", que abrigam vários tipos femininos e situações com as quais as mulheres se defrontam na vida comum — podendo mesmo ser catalogados como   "estudos sobre a mulher", ao revelarem de forma soberba a mais aguda sensibilidade de Machado no trato de questões que envolvem moral, ética, preconceito social, autoritarismo, amor e ciúme.

        

Sem se constituir propriamente em explícito 'defensor dos direitos da mulher' — muito menos um 'dialético feminista' — Machado era convicto de que as mulheres deviam ser instruídas e não permanecer atadas à vida doméstica, ao mesmo tempo sempre preocupado e atento para as necessidades emocionais, afetivas e mesmo sexuais das mulheres. Desde o início de sua gestação ficcional em prosa, Machado traçou caminhos próprios e peculiares para tratar das relações entre os homens e as mulheres, muito além da visão ingênua dos românticos, do discurso dos realistas e naturalistas, injetando em sua obra muitas sementes da modernidade: criou um estilo de literatura não apenas de observação das pessoas, mas, sobretudo, de  interpretação, expondo as  pequenas coisas, as passagens a princípio inocentes,  um outro lado, que muitas vezes aludia à presença, sempre insidiosa, do inconsciente. Sempre foi um autor interessado em prospectar as paixões humanas, em dissecar-lhes as intimidades, em levantar ques­tões e em torná-las públicas pela voz de seus personagens. Em Machado, o narrativo e o descritivo deu lugar ao psicológico, ao íntimo — transcendendo o visível, o corpóreo, o material.

 

Especialmente a partir do final da década de 1870, sua obra segue a linha da literatura psicológica — protagonistas e personagens com seus conflitos, complexos, dúvidas e hesitações — e  traz  para o centro das discussões, a questão da afetividade feminina: na ficção machadiana surge uma mulher que aspira  poder escolher a forma de sentir e amar, apesar de, quase sempre, não poder dizer de seu desejo.

 

Nenhum escritor de seu tempo 'edificou' tanto a mulher como personagem capital e leitmotiv básico de seus textos como Machado de Assis — nem Joaquim Manuel de Macedo (em A Moreninha e inúmeros contos), José de Alencar (notadamente na trilogia urbana Senhora, Diva e Lucíola, além dos contos "A Viuvinha", "Cinco minutos", das novelas A pata da gazela, Sonhos d'ouro, Encarnação), nem Taunay (em Inocência), Bernardo Guimarães (e sua Escrava Isaura), Domingos Olímpio (com Luzia Homem), nem Lima Barreto (com suas Clara e Castorina em Clara dos Anjos, Olga e Edgarda em Triste fim de Policarpo Quaresma, Efigênia em O cemitério dos vivos; Cecília de Diário íntimo, Cló, Adélia, Lívia em Histórias e sonhos; etc., das instigantes crônicas em torno do tema "Não as matem!").

 

Os  amores e frustrações femininos eram temas constantes, inclusive o adultério e a pros­tituição — anteriormente inaceitáveis na literatura. Um verdadeiro modernista, nas linhas e entrelinhas de seus contos, romances, e também de suas crônicas, Machado chamou atenção para as necessidades e os direitos da vida afetivo-sexual de suas leitoras: argumentava que a mulher devia receber instrução e não ficar com­pletamente confinada à vida doméstica, tendo direito ao amor e à li­berdade. Obsessivamente observador, a aguda e profunda visão machadiana das "cousas deste mundo" o fez constatar o quanto a mulher na sociedade imperial brasileira — reclusa e dominada, doméstica e servil — era 'anulada' por sua própria condição feminina: se o mundo da mulher era limitado pelas paredes do sobrado, tratou de retirar do ócio social da mulher de sua época a essência da matéria ontológica de suas personagens.

 

Em suas histórias, a mulher é o elemento forte, traz o homem dependente de si, ela é o esteio, a base da relação. Há matriarcas que dominam e comandam propriedades e a família, viúvas que não mais se casam, em que se percebe que a figura masculina é, por vezes, desnecessária (Machado chega a reduzir o homem a um nada: em Memorial de Aires, por exemplo, D. Carmo segue a linha da mulher totalmente dedicada à famí­lia, e que firmemente controla não só o espaço doméstico, como, e prin­cipalmente, o marido; daí a famosa frase: "Aguiar sem Carmo é nada"). Importante notar, como que a reciclagem de um processo  desenvolvido por longos 36 anos (desde Ressurreição, em 1872), em seu último romance, sua obra conclusiva — Memorial de Aires — a par de continuar a privilegiá-las, valorizá-las e enaltecê-las, Machado como que 'redime' as mulheres: não mais a figura  impulsionada pela emoção, a ponto de preferirem os tolos ao invés dos homens de espírito4, mas a mulher proba, que pode ser amada e admirada.

 

Suas mulheres ficcionais — orgulhosas ou tímidas, calculistas ou levianas, singelas ou complexas — "com seus contornos roliços, seus olhos onde a gente se perde como na escuridão da noite, são criaturas feitas de capricho e de carne, sobretudo de carne, tudo instinto, sem nenhum raciocínio".

 

Nesse privilegiar a mulher como personagem primordial de sua ficção, pretenderia Machado de Assis o matriarcado? Seria Machado um 'feminista'? — especulam muitos dos estudiosos machadianos. Em todos os aspectos, a cada leitura de sua obra nos damos conta da sutileza e da abrangência desse feminismo; sob todos os sentidos, em Machado o feminino confirma-se como uma categoria literária.

 

 

 

Notas 

 

 

 

março, 2008