© loredano
 
 
 
 
 
 

 

Aberto no final de março, damos seguimento ao conjunto  Machado e a Mulher, numa sucessão quinzenal extensiva até 30 de abril. Os quatro contos aqui expostos — que ostentam a particularidade comum de terem viúvas, per se extraordinariamente significativas figuras ficcionais, como protagonistas — tiveram as seguintes formas e datas de publicação: "Confissões de uma viúva moça" apareceu originalmente no Jornal das Famílias em 1865 — assinado com o pseudônimo "J" (e deflagrando marcante polêmica, acusado de "imoral e indecente" por um missivista com a assinatura "Caturra" no Correio Mercantil, respondido por "J", que sustentava "mais do ninguém respeitar a castidade dos costumes", replicado outra vez por "Caturra", até que Machado anunciou em tréplica ser o autor do conto e chamando atenção para "a sua moralidade no final", com o que não concordou "Caturra", quando no próprio Correio Mercantil,  surgiu, por fim, um artigo de defesa veemente e contundente do conto, considerando "educativo o realismo do enredo" — numa clara, explícita e 'espirituosa' defesa dos direitos da mulher —, assinado por um "Sigma" — que tudo leva a crer fosse o próprio Machado — além de induções e especulações outras que levam a considerar que mesmo o "Caturra" era Machado, que teria "plantado" tudo, com o intuito  de chamar a atenção e, pela celeuma, promover o conto — e revelando, sobretudo, sua excepcional capacidade de criar outras vozes); em seqüência, integrou a coletânea Contos Fluminenses, em suas edições de 1870 (B.L. Garnier), 1899 (H. Garnier), 1937 (W.M. Jackson), 1959 (J. Aguilar);  "D. Mônica" veio a lume no Jornal das Famílias, em 1876 — sob o pseudônimo "Lara" — posteriormente apenas na coletânea Machado de Assis: Contos Esquecidos, org. de Raymundo Magalhães Júnior, em 1956; "O caso da viúva", em A Estação, 1881 — assinado "Machado de Assis" — depois somente na coletânea Machado de Assis: Contos sem data, org.  de Raymundo Magalhães Júnior, em 1956; "Trina e una", em A Estação, 1884 — assinado "Machado de Assis" — e unicamente na coletânea Machado de Assis: Contos e crônicas,  org.  de Raymundo Magalhães Júnior, em 1958.

 

As protagonistas destes quatro contos — Eugênia, de "Confissões de uma viúva moça"; D. Mônica, do conto homônimo; Clara, de "Trina e una"; Maria Luísa, de "O caso da viúva" — integram a fértil galeria de viúvas na ficção brasileira do século XIX (José de Alencar, p. ex., fez bastante uso delas, tendo até a novela intitulada A Viuvinha) — galeria que habita intensamente a obra machadiana, em especial nos contos, povoados  tanto de  viúvas jovens (decorrência de uma realidade daqueles tempos  em que a febre amarela e doenças incuráveis causavam muitas mortes) como de mulheres de mais idade, até mesmo idosas, que herdam a riqueza e o poder dos maridos falecidos. As viúvas eram essenciais como elementos ficcionais de liberação de sentimentos, atitudes, comportamento, e de contraposição aos rígidos preceitos sociais e morais da sociedade brasileira da época.

 

Em outro viés, contos como este "D. Mônica" — assim como "D.Paula", "D.Benedita", "D. Jucunda", a D. Camila, do aqui anteriormente veiculado "Uma senhora", e outros em que aparecem a figura da mulher matriarcal, austera, em alguns casos, dominadora e autoritária — mostram o quanto Machado foi gradativamente criando e formatando protagonistas femininas no contraponto e contrapelo das mulheres moças fulgazes, frívolas, ousadas (adúlteras, até) e desenhando ao longo do tempo, especialmente nos contos, a mulher madura, sóbria, equilibrada, serena, personificada — em síntese e corolário — na Carmo da derradeira obra, o romance Memorial de Aires. Neste e nos contos mencionados, a par de continuar a privilegiá-las, valorizá-las e enaltecê-las, Machado como que "redime" as mulheres: não mais a figura sensual, que impulsionada pelo desejo pode chegar à traição — como Capitu, Virgília, Sofia, Guiomar, Valéria, Marcela, mulheres pérfidas, mais diretamente envolvidas com o pecado (embora conveniente não esquecer  que as mulheres machadianas, sensuais e tímidas, são criaturas feitas de capricho e carne, de emoção e instinto sensorial, todas — sejam tímidas ou altivas, racionais ou emotivas, recatadas ou levianas, singelas ou complexas — vivendo, agindo, ou se movendo ao influxo do espírito sensorial que as anima) — mas a mulher proba, que pode ser amada e admirada, distante e alheia à tentação, "salvas do pecado", como Mônica, Paula, Benedita, Jucunda, Fidélia e Carmo.

 

Nesses contos, a mulher é o elemento forte, traz o homem dependente de si. Ela  é o esteio, a base da relação familiar e social — são matriarcas que dominam e comandam propriedades e a família, viúvas que não mais casam, em que se percebe que a figura masculina é, por vezes, desnecessária (exceção à D. Mônica, que se casa com o próprio sobrinho Gaspar). O que induz à especulação: pretenderia Machado de Assis o matriarcado? Talvez sim, sabendo-se o quanto  Machado era mesmo "feminista" — e a cada leitura de sua obra nos damos conta de como e quanto em Machado o feminino confirma-se como uma categoria literária. [Mauro Rosso]

 

 

 

 

 

I

  

Há dois anos tomei uma resolução singular: fui residir em Petrópolis em pleno mês de junho. Esta resolução abriu largo campo às conjecturas. Tu mesma nas cartas que me escreveste para aqui, deitaste o espírito a adivinhar e figuraste mil razões, cada qual mais absurda.

 

A estas cartas, em que a tua solicitude traía a um tempo dois sentimentos, a afeição da amiga e a curiosidade de mulher, a essas cartas não respondi e nem podia responder. Não era oportuno abrir-te o meu coração nem desfiar-te a série de motivos que me arredou da corte, onde as óperas do Teatro Lírico, as tuas partidas e os serões familiares do primo Barros deviam distrair-me da recente viuvez.

 

Esta circunstância de viuvez recente acreditavam muitos que fosse o único motivo da minha fuga. Era a versão menos equívoca. Deixei-a passar como todas as outras e conservei-me em Petrópolis.

 

Logo no verão seguinte vieste com teu marido para cá, disposta a não voltar para a corte sem levar o segredo que eu teimava em não revelar. A palavra não fez mais do que a carta. Fui discreta como um túmulo, indecifrável como a Esfinge. Depuseste as armas e partiste.

 

Desde então não me trataste senão por tua Esfinge.

 

Era Esfinge, era. E se, como Édipo, tivesses respondido ao meu enigma a palavra "homem", descobririas o meu segredo, e desfarias o meu encanto.

 

Mas não antecipemos os acontecimentos, como se diz nos romances.

 

É tempo de contar-te este episódio da minha vida.

 

Quero fazê-lo por cartas e não por boca. Talvez corasse de ti. Deste modo o coração abre-se melhor e a vergonha não vem tolher a palavra nos lábios. Repara que eu não falo em lágrimas, o que é um sintoma de que a paz voltou ao meu espírito.

 

As minhas cartas irão de oito em oito dias, de maneira que a narrativa pode fazer-te o efeito de um folhetim de periódico semanal.

 

Dou-te a minha palavra de que hás de gostar e aprender.

 

E oito dias depois da minha última carta irei abraçar-te, beijar-te, agradecer-te. Tenho necessidade de viver. Estes dois anos são nulos na conta de minha vida: foram dois anos de tédio, de desespero íntimo, de orgulho abatido, de amor abafado.

 

Lia, é verdade. Mas só o tempo, a ausência, a idéia do meu coração enganado, da minha dignidade ofendida, puderam trazer-me a calma necessária, a calma de hoje.

 

E sabe que não ganhei só isto. Ganhei conhecer um homem cujo retrato trago no espírito e que me parece singularmente parecido com outros muitos. Já não é pouco; e a lição há de servir-me, como a ti, como às nossas amigas inexperientes. Mostra-lhes estas carta; são folhas de um roteiro que se eu tivera antes, talvez não houvesse perdido uma ilusão e dois anos de vida.

 

Devo terminar esta. É o prefácio do meu romance, estudo, conto, o que quiseres. Não questiono sobre a designação, nem consulto para isso os mestres d'arte.

 

Estudo ou romance, isto é simplesmente um livro de verdades, um episódio singelamente contado, na confabulação íntima dos espíritos, na plena confiança de dois corações que se estimam e se merecem.

 

Adeus.

 

 

II

 

Era no tempo de meu marido.

 

A corte estava então animada e não tinha esta cruel monotonia que eu sinto aqui através das tuas cartas e dos jornais de que sou assinante.

 

Minha casa era um ponto de reunião de alguns rapazes conversados e algumas moças elegantes. Eu, rainha eleita pelo voto universal... de minha casa, presidia aos serões familiares. Fora de casa, tínhamos os teatros animados, as partidas das amigas, mil outras distrações que davam à minha vida certas alegrias exteriores em falta das íntimas, que são as únicas verdadeiras e fecundas.

 

Se eu não era feliz, vivia alegre.

 

E aqui vai o começo do meu romance.

 

Um dia meu marido pediu-me como obséquio especial que eu não fosse à noite ao Teatro Lírico. Dizia ele que não podia acompanhar-me por ser véspera de saída de paquete.

 

Era razoável o pedido.

 

Não sei, porém, que espírito mau sussurrou-me ao ouvido e eu respondi peremptoriamente que havia de ir ao teatro, e com ele. Insistiu no pedido, insisti na recusa. Pouco bastou para que eu julgasse a minha honra empenhada naquilo. Hoje vejo que era a minha vaidade ou o meu destino.

 

Eu tinha certa superioridade sobre o espírito de meu marido. O meu tom imperioso não admitia recusa; meu marido cedeu a despeito de tudo, e à noite fomos ao Teatro Lírico.

 

Havia pouca gente e os cantores estavam endefluxados. No fim do primeiro ato meu marido, com um sorriso vingativo, disse-me estas palavras rindo-se:

 

— Estimei isto.

 

— Isto? perguntei eu franzindo a testa.

 

— Este espetáculo deplorável. Fizeste da vinda hoje ao teatro um capítulo de honra; estimo ver que o espetáculo não correspondeu à tua expectativa.

 

— Pelo contrário, acho magnífico.

 

— Está bom.

 

Deves compreender que eu tinha interesse em me não dar por vencida; mas acreditas facilmente que no fundo eu estava perfeitamente aborrecida do espetáculo e da noite.

 

Meu marido, que não ousava retorquir, calou-se com ar de vencido, e adiantando-se um pouco à frente do camarote percorreu com o binóculo as linhas dos poucos camarotes fronteiros em que havia gente.

 

Eu recuei a minha cadeira, e, encostada à divisão do camarote, olhava para o corredor vendo a gente que passava.

 

No corredor, exatamente em frente à porta do nosso camarote, estava um sujeito encostado, fumando e com os olhos fitos em mim. Não reparei ao princípio, mas a insistência obrigou-me a isso. Olhei para ele a ver se era algum conhecido nosso que esperava ser descoberto a fim de vir então cumprimentar-nos. A intimidade podia explicar este brinco. Mas não conheci.

 

Depois de alguns segundos, vendo que ele não tirava os olhos de mim, desviei os meus e cravei-os no pano da boca e na platéia.

 

Meu marido, tendo acabado o exame dos camarotes, deu-me o binóculo e sentou-se ao fundo diante de mim.

 

Trocamos algumas palavras.

 

No fim de um quarto de hora a orquestra começou os prelúdios para o segundo ato. Levantei-me, meu marido aproximou a cadeira para a frente, e nesse ínterim lancei um olhar furtivo para o corredor.

 

O homem estava lá.

 

Disse a meu marido que fechasse a porta.

 

Começou o segundo ato.

 

Então, por um espírito de curiosidade, procurei ver se o meu observador entrava para as cadeiras. Queria conhecê-lo melhor no meio da multidão.

 

Mas, ou porque não entrasse, ou porque eu não tivesse reparado bem, o que é certo é que o não vi.

 

Correu o segundo ato mais aborrecido do que o primeiro.

 

No intervalo recuei de novo a cadeira, e meu marido, a pretexto de que fazia calor, abriu a porta do camarote.

 

Lancei um olhar para o corredor.

 

Não vi ninguém; mas daí a poucos minutos chegou o mesmo indivíduo, colocando-se no mesmo lugar, e fitou em mim os mesmos olhos impertinentes.

 

Somos todas vaidosas da nossa beleza e desejamos que o mundo inteiro nos admire. É por isso que muitas vezes temos a indiscrição de admirar a corte mais ou menos arriscada de um homem. Há, porém, uma maneira de fazê-la que nos irrita e nos assusta; irrita-nos por impertinente, assusta-nos por perigosa. É o que se dava naquele caso.

 

O meu admirador insistia de modo tal que me levava a um dilema: ou ele era vítima de uma paixão louca, ou possuía a audácia mais desfaçada. Em qualquer dos casos não era conveniente que eu animasse as suas adorações.

 

Fiz estas reflexões enquanto decorria o tempo do intervalo. Ia começar o terceiro ato. Esperei que o mudo perseguidor se retirasse e disse a meu marido:

 

— Vamos?

 

— Ah!

 

— Tenho sono simplesmente; mas o espetáculo está magnífico.

 

Meu marido ousou exprimir um sofisma.

 

— Se está magnífico como te faz sono?

 

Não lhe dei resposta.

 

Saímos.

 

No corredor encontramos a família do Azevedo que voltava de uma visita a um camarote conhecido. Demorei-me um pouco para abraçar as senhoras. Disse-lhes que tinha uma dor de cabeça e que me retirava por isso.

 

Chegamos à porta da Rua dos Ciganos.

 

Aí esperei o carro por alguns minutos.

 

Quem me havia de aparecer ali, encostado ao portal fronteiro?

 

O misterioso.

 

Enraiveci.

 

Cobri o rosto o mais que pude com o meu capuz e esperei o carro, que chegou logo.

 

O misterioso lá ficou tão insensível e tão mudo como o portal a que estava encostado.

 

Durante a viagem a idéia daquele incidente não me saiu da cabeça. Fui despertada na minha distração quando o carro parou à porta da casa, em Mata-cavalos.

 

Fiquei envergonhada de mim mesma e decidi não pensar mais no que se havia passado.

 

Mas acreditarás, tu, Carlota? Dormi meia hora mais tarde do que supunha, tanto a minha imaginação teimava em reproduzir o corredor, o portal, e o meu admirador platônico.

 

No dia seguinte pensei menos. No fim de oito dias tinha-me varrido do espírito aquela cena, e eu dava graças a Deus por haver-me salvo de uma preocupação que podia ser-me fatal.

 

Quis acompanhar o auxílio divino, resolvendo não ir ao teatro durante algum tempo.

 

Sujeitei-me à vida íntima e limitei-me à distração das reuniões à noite.

 

Entretanto estava próximo o dia dos anos da tua filhinha. Lembrei-me que para tomar parte na tua festa de família, tinha começado um mês antes um trabalhozinho. Cumpria rematá-lo.

 

Uma quinta-feira de manhã mandei vir os preparos da obra e ia continuá-la, quando descobri dentre uma meada de lã um invólucro azul fechando uma carta.

 

Estranhei aquilo. A carta não tinha indicação. Estava colada e parecia esperar que a abrisse a pessoa a quem era endereçada. Quem seria? Seria meu marido? Acostumada a abrir todas as cartas que lhe eram dirigidas, não hesitei. Rompi o invólucro e descobri o papel cor-de-rosa que vinha dentro.

 

Dizia a carta:

 

Não se surpreenda, Eugênia; este meio é o do desespero, este desespero é o do amor. Amo-a e muito. Até certo tempo procurei fugir-lhe e abafar este sentimento; não posso mais. Não me viu no Teatro Lírico? Era uma força oculta e interior que me levava ali. Desde então não a vi mais. Quando a verei? Não a veja embora, paciência; mas que o seu coração palpite por mim um minuto em cada dia, é quanto basta a um amor que não busca nem as venturas do gozo, nem as galas da publicidade. Se a ofendo, perdoe um pecador; se pode amar-me, faça-me um deus.

 

Li esta carta com a mão trêmula e os olhos anuviados; e ainda durante alguns minutos depois não sabia o que era de mim.

 

Cruzavam-se e confundiam-se mil idéias na minha cabeça, como estes pássaros negros que perpassam em bandos no céu nas horas próximas da tempestade.

 

Seria o amor que movera a mão daquele incógnito? Seria simplesmente aquilo um meio do sedutor calculado? Eu lançava um olhar vago em derredor e temia ver entrar meu marido.

 

Tinha o papel diante de mim e aquelas letras misteriosas pareciam-me outros tantos olhos de uma serpente infernal. Com um movimento nervoso e involuntário amarrotei a carta nas mãos.

 

Se Eva tivesse feito outro tanto à cabeça da serpente que a tentava não houvera pecado. Eu não podia estar certa do mesmo resultado, porque esta que me aparecia ali e cuja cabeça eu esmagava, podia, como a hidra de Lerna, brotar muitas outras cabeças.

 

Não cuides que eu fazia então esta dupla evocação bíblica e pagã. Naquele momento, não refletia, desvairava; só muito depois pude ligar duas idéias.

 

Dois sentimentos atuavam em mim: primeiramente, uma espécie de terror que infundia o abismo, abismo profundo que eu pressentia atrás daquela carta; depois uma vergonha amarga de ver que eu não estava tão alta na consideração daquele desconhecido, que pudesse demovê-lo do meio que empregou.

 

Quando o meu espírito se acalmou é que eu pude fazer a reflexão que devia acudir-me desde o princípio. Quem poria ali aquela carta? Meu primeiro movimento foi para chamar todos os meus fâmulos.

 

Mas deteve-me logo a idéia de que por uma simples interrogação nada poderia colher e ficava divulgado o achado da carta. De que valia isto?

 

Não chamei ninguém.

 

Entretanto, dizia eu comigo, a empresa foi audaz; podia falhar a cada trâmite; que móvel impeliu aquele homem a dar este passo?

 

Seria amor ou sedução?

 

Voltando a este dilema, meu espírito, apesar dos perigos, comprazia-se em aceitar a primeira hipótese: era a que respeitava a minha consideração de mulher casada e a minha vaidade de mulher formosa.

 

Quis adivinhar lendo a carta de novo: li-a, não uma, mas duas, três, cinco vezes.

 

Uma curiosidade indiscreta prendia-me àquele papel. Fiz um esforço e resolvi aniquilá-lo, protestando que ao segundo caso nenhum escravo ou criado me ficaria em casa.

 

Atravessei a sala com o papel na mão, dirigi-me para o meu gabinete, onde acendi uma vela e queimei aquela carta que me queimava as mãos e a cabeça.

 

Quando a última faísca do papel enegreceu e voou, senti passos atrás de mim. Era meu marido.

 

Tive um movimento espontâneo: atirei-me em seus braços.

 

Ele abraçou-me com certo espanto.

 

E quando o meu abraço se prolongava senti que ele me repelia com brandura dizendo-me:

 

— Está bom, olha que me afogas!

 

Recuei.

 

Entristeceu-me ver aquele homem, que podia e devia salvar-me, não compreender, por instinto ao menos, que se eu o abraçava tão estreitamente era como se me agarrasse à idéia do dever.

 

Mas este sentimento que me apertava o coração passou um momento para dar lugar a um sentimento de medo. As cinzas da carta ainda estavam no chão, a vela conservava-se acesa em pleno dia; era bastante para que ele me interrogasse.

 

Nem por curiosidade o fez!

 

Deu dois passos no gabinete e saiu.

 

Senti uma lágrima rolar-me pela face. Não era a primeira lágrima de amargura. Seria a primeira advertência do pecado?

 

 

III

 

Decorreu um mês.

 

Não houve durante esse tempo mudança alguma em casa. Nenhuma carta apareceu mais, e a minha vigilância, que era extrema, tornou-se de todo inútil.

 

Não me podia esquecer o incidente da carta. Se fosse só isto! As primeiras palavras voltavam-me incessantemente à memória; depois, as outras, as outras, todas. Eu tinha a carta de cor!

 

Lembras-te? Uma das minhas vaidades era ter a memória feliz. Até neste dote era castigada. Aquelas palavras atordoavam-me, faziam-me arder a cabeça. Por quê? Ah! Carlota! é que eu achava nelas um encanto indefinível, encanto doloroso, porque era acompanhado de um remorso, mas encanto de que eu me não podia libertar.

 

Não era o coração que se empenhava, era a imaginação. A imaginação perdia-me; a luta do dever e da imaginação é cruel e perigosa para os espíritos fracos. Eu era fraca. O mistério fascinava a minha fantasia.

 

Enfim os dias e as diversões puderam desviar o meu espírito daquele pensamento único. No fim de um mês, se eu não tinha esquecido inteiramente o misterioso e a carta dele, estava, todavia, bastante calma para rir de mim e dos meus temores.

 

Na noite de uma quinta-feira, achavam-se algumas pessoas em minha casa, e muitas das minhas amigas, menos tu. Meu marido não tinha voltado, e a ausência dele não era notada nem sentida, visto que, apesar de franco cavalheiro como era, não tinha o dom particular de um conviva para tais reuniões.

 

Tinha-se cantado, tocado, conversado; reinava em todos a mais franca e expansiva alegria; o tio da Amélia Azevedo fazia rir a todos com as suas excentricidades; a Amélia arrebatava bravos a todos com as notas da sua garganta celeste; estávamos em um intervalo, esperando a hora do chá.

 

Anunciou-se meu marido.

 

Não vinha só. Vinha ao lado dele um homem alto, magro, elegante. Não pude conhecê-lo. Meu marido adiantou-se, e no meio do silêncio geral veio apresentar-mo.

 

Ouvi de meu marido que o nosso conviva chamava-se Emílio ***. Fixei nele um olhar e retive um grito.

 

Era ele!

 

O meu grito foi substituído por um gesto de surpresa. Ninguém percebeu. Ele pareceu perceber menos que ninguém. Tinha os olhos fixos em mim, e com um gesto gracioso dirigiu-me algumas palavras de lisonjeira cortesia.

 

Respondi como pude.

 

Seguiram-se as apresentações, e durante dez minutos houve um silêncio de acanhamento em todos.

 

Os olhos voltavam-se todos para o recém-chegado. Eu também voltei os meus e pude reparar naquela figura em que tudo estava disposto para atrair as atenções: cabeça formosa e altiva, olhar profundo e magnético, maneiras elegantes e delicadas, certo ar distinto e próprio que fazia contraste com o ar afetado e prosaicamente medido dos outros rapazes.

 

Este exame de minha parte foi rápido. Eu não podia, nem me convinha encontrar o olhar de Emílio. Tornei a abaixar os olhos e esperei ansiosa que a conversação voltasse de novo ao seu curso.

 

Meu marido encarregou-se de dar o tom. Infelizmente era ainda o novo conviva o motivo da conversa geral.

 

Soubemos então que Emílio era um provinciano filho de pais opulentos, que recebera uma esmerada educação na Europa, onde não houve um só recanto que não visitasse.

 

Voltara há pouco ao Brasil, e antes de ir para a província tinha determinado passar algum tempo no Rio de Janeiro.

 

Foi tudo quanto soubemos. Vieram as mil perguntas sobre as viagens de Emílio, e este com a mais amável solicitude, satisfazia a curiosidade geral.

 

Só eu não era curiosa. É que não podia articular palavra. Pedia interiormente a explicação deste romance misterioso, começado em um corredor do teatro, continuado em uma carta anônima e na apresentação em minha casa por intermédio de meu próprio marido.

 

De quando em quando levantava os olhos para Emílio e achava-o calmo e frio, respondendo polidamente às interrogações dos outros e narrando ele próprio, com uma graça modesta e natural, alguma das suas aventuras de viagem.

 

Ocorreu-me uma idéia. Seria realmente ele o misterioso do teatro e da carta? Pareceu-me ao princípio que sim, mas eu podia ter-me enganado; eu não tinha as feições do outro bem presentes à memória; parecia-me que as duas criaturas eram uma e a mesma; mas não podia explicar-se o engano por uma semelhança miraculosa?

 

De reflexão em reflexão, foi-me correndo o tempo, e eu assistia à conversa de todos como se não estivesse presente. Veio a hora do chá. Depois cantou-se e tocou-se ainda. Emílio ouvia tudo com atenção religiosa e mostrava-se tão apreciador do gosto como era conversador discreto e pertinente.

 

No fim da noite tinha cativado a todos. Meu marido, sobretudo, estava radiante. Via-se que ele se considerava feliz por ter feito a descoberta de mais um amigo para si e um companheiro para as nossas reuniões de família.

 

Emílio saiu prometendo voltar algumas vezes.

 

Quando eu me achei a sós com meu marido, perguntei-lhe:

 

— De onde conheces este homem?

 

— É uma pérola, não é? Foi-me apresentado no escritório há dias; simpatizei logo; parece ser dotado de boa alma, é vivo de espírito e discreto como o bom senso. Não há ninguém que não goste dele...

 

E como eu o ouvisse séria e calada, meu marido interrompeu-se e perguntou-me:

 

— Fiz mal em trazê-lo aqui?

 

— Mal, por quê? perguntei eu.

 

— Por coisa nenhuma. Que mal havia de ser? É um homem distinto...

 

Pus termo ao novo louvor do rapaz, chamando um escravo para dar algumas ordens.

 

E retirei-me ao meu quarto.

 

O sono dessa noite não foi o sono dos justos, podes crer. O que me irritava era a preocupação constante em que eu andava depois destes acontecimentos. Já eu não podia fugir inteiramente a essa preocupação: era involuntária, subjugava-me, arrastava-me. Era a curiosidade do coração, esse primeiro sinal das tempestades em que sucumbe a nossa vida e o nosso futuro.

 

Parece que aquele homem lia na minha alma e sabia apresentar-se no momento mais próprio a ocupar-me a imaginação como uma figura poética e imponente. Tu, que o conheceste depois, dize-me se, dadas as circunstâncias anteriores, não era para produzir esta impressão no espírito de uma mulher como eu!

 

Como eu, repito. Minhas circunstâncias eram especiais; se não o soubeste nunca, suspeitaste-o ao menos.

 

Se meu marido tivesse em mim uma mulher, e se eu tivesse nele um marido, minha salvação era certa. Mas não era assim. Entramos em nosso lar nupcial como dois viajantes estranhos em uma hospedaria, e aos quais a calamidade do tempo e a hora avançada da noite obrigam a aceitar pousada sob o teto do mesmo aposento.

 

Meu casamento foi resultado de um cálculo e de uma conveniência. Não inculpo meus pais. Eles cuidavam fazer-me feliz e morreram na convicção de que o era.

 

Eu podia, apesar de tudo, encontrar no marido que me davam um objeto de felicidade para todos os meus dias. Bastava para isso que meu marido visse em mim uma alma companheira da sua alma, um coração sócio do seu coração. Não se dava isto; meu marido entendia o casamento ao modo da maior parte da gente; via nele a obediência às palavras do Senhor no Gênese.

 

Fora disso, fazia-me cercar de certa consideração e dormia tranqüilo na convicção de que havia cumprido o dever.

 

O dever! esta era a minha tábua de salvação. Eu sabia que as paixões não eram soberanas e que a nossa vontade pode triunfar delas. A este respeito eu tinha em mim forças bastantes para repelir idéias más. Mas não era o presente que me abafava e atemorizava; era o futuro. Até então aquele romance influía no meu espírito pela circunstância do mistério em que vinha envolto; a realidade havia de abrir-me os olhos; consolava-me a esperança de que eu triunfaria de um amor culpado. Mas, poderia nesse futuro, cuja proximidade eu não calculava, resistir convenientemente à paixão e salvar intactas a minha consideração e a minha consciência? Esta era a questão.

 

Ora, no meio destas oscilações, eu não via a mão de meu marido estender-se para salvar-me. Pelo contrário, quando na ocasião de queimar a carta, atirava-me a ele, lembras-te que ele me repeliu com uma palavra de enfado.

 

Isto pensei, isto senti, na longa noite que se seguiu à apresentação de Emílio.

 

No dia seguinte estava fatigada de espírito; mas, ou fosse calma ou fosse prostração, senti que os pensamentos dolorosos que me haviam torturado durante a noite esvaeceram-se à luz da manhã, como verdadeiras aves da noite e da solidão.

 

Então abriu-se ao meu espírito um raio de luz. Era a repetição do mesmo pensamento que me voltava no meio das preocupações daqueles últimos dias.

 

Por que temer? dizia eu comigo. Sou uma triste medrosa; e fatigo-me em criar montanhas para cair extenuada no meio da planície. Eia! nenhum obstáculo se opõe ao meu caminho de mulher virtuosa e considerada. Este homem, se é o mesmo, não passa de um mau leitor de romances realistas. O mistério é que lhe dá algum valor; visto de mais perto há de ser vulgar ou hediondo.

 

 

IV

 

Não te quero fatigar com a narração minuciosa e diária de todos os acontecimentos.

 

Emílio continuou a freqüentar a nossa casa, mostrando sempre a mesma delicadeza e gravidade, e encantando a todos por suas maneiras distintas sem afetação, amáveis sem fingimento.

 

Não sei por que meu marido revelava-se cada vez mais amigo de Emílio. Este conseguira despertar nele um entusiasmo novo para mim e para todos. Que capricho era esse da natureza?

 

Muitas vezes interroguei meu marido acerca desta amizade tão súbita e tão estrepitosa; quis até inventar suspeitas no espírito dele; meu marido era inabalável.

 

— Que queres? respondia-me ele. Não sei por que simpatizo extraordinariamente com este rapaz. Sinto que é uma bela pessoa, e eu não posso dissimular o entusiasmo de que me possuo quando estou perto dele.

 

— Mas sem conhecê-lo... objetava eu.

 

— Ora essa! Tenho as melhores informações; e demais, vê-se logo que é uma pessoa distinta...

 

— As maneiras enganam muitas vezes.

 

— Conhece-se...

 

Confesso, minha amiga, que eu podia impor a meu marido o afastamento de Emílio; mas quando esta idéia me vinha à cabeça, não sei por que ria-me dos meus temores e declarava-me com forças de resistir a tudo o que pudesse sobrevir.

 

Demais, o procedimento de Emílio autorizava-me a desarmar. Ele era para mim de um respeito inalterável, tratava-me como a todas as outras, sem deixar entrever a menor intenção oculta, o menor pensamento reservado.

 

Sucedeu o que era natural. Diante de tal procedimento não me ficava bem proceder com rigor e responder com a indiferença à amabilidade.

 

As coisas marchavam de tal modo que eu cheguei a persuadir-me de que tudo o que sucedera antes não tinha relação alguma com aquele rapaz, e que não havia entre ambos mais do que um fenômeno da semelhança, o que aliás eu não podia afirmar, porque, como te disse já, não pudera reparar bem no homem do teatro.

 

Aconteceu que dentro de pouco tempo estávamos na maior intimidade, e eu era para ele o mesmo que todas as outras: admiradora e admirada.

 

Das reuniões passou Emílio às simples visitas de dia, nas horas em que meu marido estava presente, e mais tarde, mesmo quando ele se achava ausente.

 

Meu marido de ordinário era quem o trazia. Emílio vinha então no seu carrinho que ele próprio dirigia, com a maior graça e elegância. Demorava-se horas e horas em nossa casa, tocando piano ou conversando.

 

A primeira vez que o recebi só, confesso que estremeci; mas foi um susto pueril; Emílio procedeu sempre do modo mais indiferente em relação às minhas suspeitas. Nesse dia, se algumas me ficaram, desvaneceram-se todas.

 

Nisto passaram-se dois meses.

 

Um dia, era de tarde, eu estava só; esperava-te para irmos visitar teu pai enfermo. Parou um carro à porta. Mandei ver. Era Emílio.

 

Recebi-o como de costume.

 

Disse-lhe que íamos visitar um doente, e ele quis logo sair. Disse-lhe que ficasse até à tua chegada. Ficou como se outro motivo o detivesse além de um dever de cortesia.

 

Passou-se meia hora.

 

Nossa conversa foi sobre assuntos indiferentes.

 

Em um dos intervalos da conversa Emílio levantou-se e foi à janela. Eu levantei-me igualmente para ir ao piano buscar um leque. Voltando para o sofá reparei pelo espelho que Emílio me olhava com um olhar estranho. Era uma transfiguração. Parecia que naquele olhar estava concentrada toda a alma dele.

 

Estremeci.

 

Todavia fiz um esforço sobre mim e fui sentar-me, então mais séria que nunca.

 

Emílio encaminhou-se para mim.

 

Olhei para ele.

 

Era o mesmo olhar.

 

Baixei os meus olhos.

 

— Assustou-se? perguntou-me ele.

 

Não respondi nada. Mas comecei a tremer de novo e parecia-me que o coração me queria pular fora do peito.

 

É que naquelas palavras havia a mesma expressão do olhar; as palavras faziam-me o efeito das palavras da carta.

 

— Assustou-se? repetiu ele.

 

— De quê? perguntei eu procurando rir para não dar maior gravidade à situação.

 

— Pareceu-me.

 

Houve um silêncio.

 

— D. Eugênia, disse ele sentando-se; não quero por mais tempo ocultar o segredo que faz o tormento da minha vida. Fora um sacrifício inútil. Feliz ou infeliz, prefiro a certeza da minha situação. D. Eugênia, eu amo-a.

 

Não te posso descrever como fiquei, ouvindo estas palavras. Senti que empalidecia; minhas mãos estavam geladas. Quis falar: não pude.

 

Emílio continuou:

 

— Oh! eu bem sei a que me exponho. Vejo como este amor é culpado. Mas que quer? É fatalidade. Andei tantas léguas, passei à ilharga de tantas belezas, sem que o meu coração pulsasse. Estava-me reservada a ventura rara ou o tremendo infortúnio de ser amado ou desprezado pela senhora. Curvo-me ao destino. Qualquer que seja a resposta que eu possa obter, não recuso, aceito. Que me responde?

 

Enquanto ele falava, eu podia, ouvindo-lhe as palavras, reunir algumas idéias. Quando ele acabou levantei os olhos e disse:

 

— Que resposta espera de mim?

 

— Qualquer.

 

— Só pode esperar uma...

 

— Não me ama?

 

— Não! Nem posso e nem amo, nem amaria se pudesse ou quisesse... Peço que se retire.

 

E levantei-me.

 

Emílio levantou-se.

 

— Retiro-me, disse ele; e parto com o inferno no coração.

 

Levantei os ombros em sinal de indiferença.

 

— Oh! eu bem sei que isso lhe é indiferente. É isso o que eu mais sinto. Eu preferia o ódio; o ódio, sim; mas a indiferença, acredite, é o pior castigo. Mas eu o recebo resignado. Tamanho crime deve ter tamanha pena.

 

E tomando o chapéu chegou-se a mim de novo.

 

Eu recuei dois passos.

 

— Oh! não tenha medo. Causo-lhe medo?

 

— Medo? retorqui eu com altivez.

 

— Asco? perguntou ele.

 

— Talvez... murmurei.

 

— Uma única resposta, tornou Emílio; conserva aquela carta?

 

— Ah! disse eu. Era o autor da carta?

 

— Era. E aquele misterioso do corredor do Teatro Lírico. Era eu. A carta?

 

— Queimei-a.

 

— Preveniu o meu pensamento.

 

E cumprimentando-me friamente dirigiu-se para a porta. Quase a chegar à porta senti que ele vacilava e levava a mão ao peito.

 

Tive um momento de piedade. Mas era necessário que ele se fosse, quer sofresse quer não. Todavia, dei um passo para ele e perguntei-lhe de longe:

 

— Quer dar-me uma resposta?

 

Ele parou e voltou-se.

 

— Pois não!

 

— Como é que para praticar o que praticou fingiu-se amigo de meu marido?

 

— Foi um ato indigno, eu sei; mas o meu amor é daqueles que não recuam ante a indignidade. É o único que eu compreendo. Mas, perdão; não quero enfadá-la mais. Adeus! Para sempre!

 

E saiu.

 

Pareceu-me ouvir um soluço.

 

Fui sentar-me ao sofá. Daí a pouco ouvi o rodar do carro.

 

O tempo que mediou entre a partida dele e a tua chegada não sei como se passou. No lugar em que fiquei aí me achaste.

 

Até então eu não tinha visto amor senão nos livros. Aquele homem parecia-me realizar o amor que eu sonhara e vira descrito. A idéia de que o coração de Emílio sangrava naquele momento, despertou em mim um sentimento vivo de piedade. A piedade foi um primeiro passo.

 

"Quem sabe, dizia eu comigo mesma, o que ele está agora sofrendo? E que culpa é a dele, afinal de contas? Ama-me, disse-mo; o amor foi mais forte do que a razão; não viu que eu era sagrada para ele; revelou-se. Ama, é a sua desculpa".

 

Depois repassava na memória todas as palavras dele e procurava recordar-me do tom em que ele as proferira. Lembrava-me também do que eu dissera e o tom com que respondera às suas confissões.

 

Fui talvez severa demais. Podia manter a minha dignidade sem abrir-lhe uma chaga no coração. Se eu falasse com mais brandura podia adquirir dele o respeito e a veneração. Agora há de amar-me ainda, mas não se recordará do que se passou sem um sentimento de amargura.

 

Estava nestas reflexões quando entraste.

 

Lembras-te que me achaste triste e perguntaste a causa disso. Nada te respondi. Fomos à casa da tua tia, sem que eu nada mudasse do ar que tinha antes.

 

À noite quando meu marido me perguntou por Emílio, respondi sem saber o que respondia:

 

— Não veio cá hoje.

 

— Deveras? disse ele. Então está doente.

 

— Não sei.

 

— Lá vou amanhã.

 

— Lá onde?

 

— À casa dele.

 

— Para quê?