I

 

A esteira do tempo criou

Pegadas que perambulam

Por entre os rochedos quase

Presos pelo olhar primeiro.

 

Crateras quase abertas

Pelo som dissipado.

Sons, quase gritam

Sua música ancestral.

 

De tempo a tempo

Como se não o houvesse,

Ouve-se uma composição

Fragmentada de cada prelúdio.

 

Nada se inicia no começo,

Não há forma prevista

Para esculpir a palavra:

Anoitece...

 

Cai a infinita primeira

Desolação sobre o mundo.

Torna-se a recomeçar

O círculo epidérmico e múltiplo.

 

Vê sem ver o que se mostra,

Cava-se o poço onde não há

Mais água para se recolher,

Algo ainda brota,

Mas consome-se a cada florescer.

 

O verbo foi trazido à terra,

E só renasce, por agora, na horizontal —

Preso que está às vestes

De cada tempo,

De cada emergir.

 

Uma coisa múltipla,

Não concebe agora apenas

Um rosto,

Mas deve usar diversos.

Pois não vê, nem se olha,

Existe...

 

Resiste a todo e qualquer

Tipo de ameaça,

Pois sobrevive na ilusão (como tudo),

Não se sabe se é um bem ou

Qualquer outra farsa.

 

Sombra, sempre sombra

De uma sombra...

Qualquer nome que fale

No mundo pode ser visto.

 

 

 

 

II

 

Pensa-se que se pensa,

De qualquer forma opina-se.

Nem por isso pode-se

Dizer que se disse.

 

Até se pode,

De fato,

Mas sabe-se que não se pode

Pensar que se pensa.

 

Pois sabe-se o que seja o pensar?

Nunca em nenhum mundo

Algo foi corroborado

Como convicto...

 

Dispõem-se as coisas em seus

Lugares não pressupostos.

Mas o que dizer disso:

 

Folha nascida em tempo esperado.

Onda derrubada no momento dito.

Pedra curvada num ponto premeditado.

O arvoredo se fez de guarda-chuva ou sombra.

 

Quem nos entrega o sabor perfeito?

O Aroma?

Todos se escondem

De mostrar o nada...

 

 

 

 

III

 

As palavras dizem

Isto para mim:

"Existe".

 

O que se mostra

Pode ser visto

Por nos falar,

Dirigem-se a nós...

 

Diálogos,

Sopinha de letras,

Ora flutua A

Ora flutua M,

E eu os vejo...

 

Cada mundo

Derramado naquela

Água temperada

Chamada Vida...

 

Orientam-se

Pela distribuição

Involuntária das letras,

O que são elas?

 

Não se sabe,

Cada um diz uma coisa,

Não se compartilha

Nenhuma individualidade...

 

 

 

 

IV

 

Mesmo mistério

Assombrando a claridade.

Um enforcamento lento,

Silencioso...

 

Sopram suspiros

Cautelosos para não

Serem ouvidos nem vistos.

 

Segue no mesmo corredor,

Sobe e desce as mesmas

Escadas íngremes,

Falta ainda ar e palavras.

 

Aos poucos se apagam

Os pensamentos, tudo

Apaga-se como num

Sono sem sonho:

 

O que se passa?

Nada. Nenhuma

Imagem se despindo —

Flamejante escuridão.

 

 

 

 

V

 

Sombrias palavras

Testemunham, diariamente,

Seus próprios contornos,

Seus sons.

 

Criam pensamentos,

Coisas que não se assemelham,

Diferenças cantadas

Pelo Poema.

 

O tema de cada momento,

O instante suprimindo e

Soletrando o silêncio do dia,

Mais um sonho de realidade,

 

Toda ela contada

Num diálogo de fragmentos...

O arriscar-se das coisas:

A loucura do nada do mundo...

 

O sagrado-enigma,

Há de cessar?

Nada saberá!

 

 

 

 

VI

 

Logo que toca a

Primeira nota tímida

Da fábula da explicação,

 

Todos os nomes

Pronunciam-se como

Coisas identificáveis.

 

Fragmentos das partes

Intotalizáveis se introduzem

Em seus limitados cenários.

 

Expressões se esvaziam

Em corredores solitários.

O monólogo sonoro

Constrói um semblante

De folhas sem veias.

 

A nota ressoa o

Indizível círculo,

O mundo se abre

E lança seus espelhos.

 

O nascimento esgotado

Cantarola o fim de uma

Melodia invisível,

Nomes não mais se pronunciam,

 

Repousam no limite

De suas vozes:

Um em um

Assopra pelo mistério.

 

 

 

 

VII

 

De certo, coisas são

Para serem o que são.

Não um pensamento

Exposto em uma única fala,

 

Mas todos os tons

Compondo cada um

Um mundo de sentidos.

 

Descobre-se que não

Há o Mundo,

Mas vários Dele.

 

Como cada sombra

Desembaraçada de um

Corpo sem átomos:

 

Múltiplas camadas

Da terra horizontada.

O salto é sempre, incertamente,

Dado para trás

E o ponto é circundado.

 

 

 

 

VIII

 

O que se pede ao

Tentar colocar a pergunta

Num quadro diluído

Em sombra?

 

Tenta-se recompor todo

O fragmento decomposto

Em cacos acidentados

E transparentes.

 

A janela aberta

Lança o corpo deitado

Sobre o assoalho

Desmanchado pela badalada

Do sino submerso no tempo.

 

Cometas e línguas

De páginas indescritíveis

Sobrevoam a paisagem

Montada no palco.

 

 

 

 

IX

 

Meu corpo,

Uma cidade longínqua,

Mosaico de sombras

Sublinhada por detalhes.

 

Trânsito contínuo

Entre uma fala e outra,

Diálogo inconcluso:

Traços indivisíveis.

 

Uma linha em declive

Corta o horizonte

Em sua face indemonstrável.

 

O abismo é gestado

Pelas partes epidérmicas.

Plano imperfeito e

Invisível frase da paisagem.

 

 

 

 

X

 

A palavra,

Ao se mostrar,

Aniquila-se.

 

Sonho erigido

Em cada acontecer.

Mar desondado

Por algum evento.

 

Invenção de todo

Olhar e suspiro,

Criação involuntária.

 

Segredo familiar

Das impressões diárias,

Estórias embaralhadas

E descartadas num

Jogo inútil e múltiplo.

 

 

 

 

XI

 

O passo dado

Volta-se ao meio.

Anda-se para frente

E abraça o evento no escuro.

 

Ah, pretensão inútil

Querer agarrar o fim,

Tanto se perde ao

Não circundar o círculo.

 

Nem queres dizer

Sim ao fim nem ao giro.

Há como pontuar o início?

Nos lancemos ao mundo, simplesmente.

 

Arrisquemos a sortear

O instante de cada silêncio,

Olhamos os cacos e

Nos avistamos como um:

Uma parte qualquer.

 

 

 

 

XII

 

Em reunião

A coisa é investigada,

Aquilo que a interpreta

Move-se em consistência constante.

 

Interpreta-se e se interpreta,

Presença-esquecida

Sem aparência ou futuro.

 

A pergunta infindável

Intui a demolição do mundo:

Construção não-instantânea...

 

A estéril imitação

Demonstra sua falsidade,

Seu sono sem ouvido

Para o não-audível

Desgasta-se como máscaras.

 

Os surdos interrompem

A reunião com entulhos,

A interrogação se faz silêncio —

Velou-se...

 

 

 

 

XIII

 

As cifras do pensamento

Vão compondo os vestígios

Do futuro naufrágio...

 

O horizonte se abisma

Em suas possibilidades,

Não, não, não,

Não transcende,

Nenhuma imagem além.

 

Escuta o silêncio

Saindo de uma porta,

Senta-se ao lado de uma idéia

Que grita ao se infiltrar.

 

As cifras do pensamento

Debruçam-se indizivelmente

Nos lábios do mundo,

 

As palavras dormem

Sem sono e cansaço,

Mas completas em sua

Realidade imprimida

Involuntariamente no Universo:

 

A matéria indestrutível

Da transparência poética

Desdobra-se como um

Corpo inundado de azul...

 

 

 

 

XIV

 

Num espaço-superfície

Habita todas as disformidades,

Um mundo composto

Por páginas sem questões.

 

A linguagem adaptada

À palavra-espelho não

Pôde dizer mais nada.

 

O Nome não foi mais Nomeado

Nem o Caos se inseriu

Nas fendas do Silêncio,

A rosa sentiu seu corpo

Originar-se do Nada,

 

Mas nada foi fecundado

Nem suspenso ao ar,

Os ventos sopraram

Labirinticamente, sem rotas.

 

Nada se projetou

Nem qualquer Obra foi arquitetada:

A Hora se calou...

 

 

 

 

XV

 

O piano toca

Enquanto o poeta,

Observando o mistério,

Dança a canção do tempo.

 

O fundo sem fundo

Do abismo lança

Seu rosto na sombra

Do renascimento da Morte.

 

A palavra, como

Uma locomotiva, atravessa

Os sons inabitáveis

Da paisagem vazia...

 

 

 

 

XVI

 

O fenômeno, como

Um Verbo,

Foi conjugado

Em direção ao passado.

 

Cansou-se da sua

Não-existência,

Conjugaram-no

Ao presente.

 

Sua extensão

Era totalmente

Móvel e transitória,

Eterno transpor-se.

 

Dormiu sob seu

Corpo flexível

E acordou num

futuro reminiscente,

 

Não conseguia

Desprender-se

De seus olhos

Voltados para trás.

 

Pegou o lápis

E se auto-conjugou,

Mas o corpo do lápis

O tocou fortemente,

 

Sentiu sua forma

Disformar-se de

Um modo que se ocultou

Transformando-se em

Qualquer coisa que não se

Sabe o nome.

 

 

 

 

XVII

 

O fundo labiríntico

É chão desvelado da origem.

Surge o nome,

Uma recordação do que já era.

 

A linguagem

Mundificando as coisas.

Apenas os falantes posicionados

Pronunciando o seu vigor.

 

O abismo, os mananciais

Sendo perfurados em

Brotamento de palavras.

 

A residência do espelho

No poema habitado

Por ele mesmo.

 

Os versos foram dispensados

De criarem o Absoluto:

Simplesmente dizem.

 

 

 

 

XVIII

 

Aquele cabide de passado

Vestindo todos os mundos.

Constelações fragmentadas

 

A memória de palavras

E suas imagens em preto e branco.

A memória de imagens

Composta de palavras coloridas.

 

Um ponto desdobrado

Em formas confusas,

Nada se vê, tudo se esconde.

 

Alguns ainda firmam a visão

Para flagrar um instante

De imobilidade,

Mas as imagens se diluem.

 

 

 

 

XIX

 

Ao olhar para

Qualquer coisa, o que vê?

Ao pensar sobre algo,

O que, num instante, abarca?

 

Ao vislumbrar uma paisagem,

Por exemplo, um campo

Composto por araucárias,

O que dimensiona?

 

Ao parar e respirar,

Pensando sobre algo,

Sobre o quê se assenta,

Neste momento,

A tentativa de pensar?

 

O campo das araucárias,

Você o visualiza

Em sua totalidade?

 

A sua visão só se

Debruça num ponto

Do que vê,

Capta a parte vista.

 

E o pensar?

A sua tentativa

De sistematizar leva-o

Para onde?

 

Talvez para algum

Ponto, qualquer ponto.

Mas deixará de ser

Algum ponto?

                                                       

Um ponto de vista

Ao ver,

Um ponto de pensamento

Ao tentar pensar...

 

 

 

 

XX

 

Um caminho bordado

Com preciosidades de memória.