Estarei mentindo se disser que não gostei de vê-la esticada no colchão ordinário com uma perfuração na testa. Bem no centro. Entre as duas sobrancelhas. Quando o policial me deu a noticia precisei conter o sorriso, que ainda escapou pelo canto da boca. Não podia dar bandeira de suspeito. Não tive nada haver com o crime e todo mundo sabe.

 

Recebi o telefonema no celular por volta de duas da manhã. Estava sozinho. Deitado no sofá eu ouvia a barulheira do boteco em frente de casa. Sons de garrafas e estrondos de dominó em mesas de metal não permitiam que eu dormisse. Me ligaram porque meu número era o primeiro de sua agenda. Perguntaram se eu conhecia a moça. Respondi que sim, é uma antiga conhecida. Sem comentar nada mais, o investigador pediu que eu fosse até o local. Um motel boca de estrada. Lugar ideal para adultérios ou assassinatos, como foi o caso. Prenunciei o que estava por vir. Era fácil adivinhar o que acontecia nos sumiços dela. Acertei pela última vez.

 

Estava nua, esparramada em cima da cama. Braços e pernas jogados cada um para um lado. Três disparos — versão da policia — três balas que entraram em sua cabeça pelo mesmo orifício. Uma seguida da outra. A mais ou menos cinco centímetros de distância do crânio e num intervalo de sete milésimos. A queima roupa, portanto.

 

Fui recebido pelo policial que havia me telefonado. Cabelos terrivelmente pintados de loiro e um sotaque forçadíssimo de carioca. Explicou o acontecido. Quando cheguei, a espelunca ainda exalava pólvora e sangue.

 

Além de uma garrafa barata de vinho tinto, encontraram no local um pacote de sal grosso e um vidro de vinagre. Fazia tempo que ela saía com um pastorzinho analfabeto. Sujeitinho com cara e bigode de pilantra. Mas bom de oratória, e dono de uma voz de locutor. Era capaz de ludibriar qualquer um. Se fosse preciso, conseguiria vender até merda ensacada. Mas ela não estava ludibriada, dava para ele porque queria. Safada, essa é a verdade. Provavelmente outra de suas aventuras sexuais — médicos, professores, carteiros... Mais um pouco e completaria o quadro das possíveis profissões masculinas.

 

Não fosse isso, seria uma mulher perfeita. Porém, jamais soube diferenciar o certo do errado. O justo do injusto. O moral do imoral. Evidência clara de conflito entre o id e o superego. Ou se preferirem, um desarranjo de neurotransmissores no córtex frontal do cérebro.

 

Eu sabia que a danada acabaria pagando o preço por levar uma vida desregrada, ditada por bares, cervejas e muito sexo casual. Destino certo. E não adiantaria avisá-la. Esse fim era uma opção. Uma espécie de presságio voluntário. Coisa que só uma cabeça doentia como a dela poderia conceber.

 

 

 

 

(imagem ©guy bordin)

 

 

 

 

 

Alexandre Landim (São Paulo-SP, 1985). Estuda Ciências Sociais. Colabora com revistas eletrônicas de literatura e é colunista do site Armadilha Poética.